Portas Abertas

Crônicas de autoficção sobre o cotidiano de uma viúva de 30 e poucos anos. Porque toda arte é um pouco anormal, como nós também somos. Por Ivy Cassa

Sobre amor e ovinhos de Língua de Gato

Era semana santa. Juju estava saindo com Kadu há 2 semanas. Santo milagre! 2 semanas não é só pegação. É quase união estável nos dias de hoje!

Ligou para a melhor amiga:

– Dani, sabe o que ele fez outro dia? Pegou na minha mão depois que a gente acabou de… você sabe… E declamou: “Se você quer ser a minha namorada… Ah que linda namorada Você poderia ser”.

– Juuuuu!! Você ganhou na loteria! Isso nem é pegação!!! É na-mo-ro!! E o que você respondeu?

– Ah, eu sou discreta, né? Fiz aquele ar de que não era comigo, porque a gente não pode entregar o ouro pro bandido! Me fiz de difícil, claro! Daí, no dia seguinte, acordei cedinho antes dele, passei o corretivo nas olheiras, grudei os cílios postiços, passei um lápis cor de boca, dei uma bochechada no Cepacol e corri pra cozinha. Quando ele acordou, adivinha! Eu tinha feito ovo frito pro café da manhã naquela forma que a Mari me deu! A mesa toda decorada. Tudo mensagem subliminar, sabe? Os guardanapos que comprei em Nova York com motivos de São Valentim. E morangos, a fruta do amor!

– Não acreditooo! Armas baixas!! E você usou aquela forma em molde de coração??? Mooooorri!!

– Mensagem oculta, né miga. A gente não pode ser assim tão óbvia.

– E ele???

– Não comentou nada… você sabe como os homens são durões. Comeu o ovo sem dizer uma palavra. Depois, os morangos. Caladinho. Mas aí vem o detalhe!

– Me conta!

– Eu tava indo pro RJ no mesmo dia, dar aquele curso de Direito Regulatório… e ele, ao invés de ir embora, pediu pra ficar! Não… não é que ele pediu pra ficar, do tipo “quero economizar uma diária de hotel”. Ele quis ficar tipo “eu quero ficar aqui pra sempre, sabe??” Era amor, Dani! Eu me arrepio só de falar!

– Sei!! Foi o ovo!! Miga, eu tou sentindo!! Vocês dois… ai!! Eu quero ser madrinha!

– Não só… eu a-pos-to que ele quis ficar sozinho no meu apartamento pra me fazer uma surpresa de Páscoa!

– Ai, migaaaaa!! Vc contou pra ele que adora Lingua de Gato da Kopenhagen?

– Naaaao… nem precisei, né, Dani! Perspicaz como ele é, aposto que abriu minha gaveta de chocolates assim que saí e fez uma pesquisa de campo.

– Juuuu! Você pensa em tudo!

– É! Daí, vou chegar no domingo de Páscoa, e ele vai ter enchido a casa de pétalas de rosa! Vermelhas, porque não é bobo! E vai deixar um caminho de ovinhos de língua de gato desde a porta de entrada até a cama. Com a colcha toda estiradinha, do jeito que eu gosto. E, em cima da cama, uma camisola La Perla. Com um bilhete: você é mais doce (e gostosa) que Língua de Gato. Daí já foi, né amiga?!

– Ju, você é diabólica!

– E sabe coooomo eu vou recompensar?

– Naaaaao!! A-qui-lo?

– Sim!! A fantasia de coelhinha que comprei em Las Vegas!

– Ai, Ju! Então é casamento!!

– Te conto assim que voltar. Torce por mim!

No domingo, Juju voltou de viagem. Entrou pela porta de serviço, porque estava com a mala. Não deu de cara com um rastro de ovinhos pelo chão, mas, sim, com a pia cheia de louças daquele jantar da quinta feira e de mais umas refeições das quais ela nem tinha participado. “Acho que ele nem perdeu tempo com tarefas domésticas por causa da surpresa!” – pensou. Desfilou feito Gisele Bubdchen pela sala de jantar. No caminho, deparou-se com duas xícaras de café sujas sobre a mesa, um punhado de guardanapos amassados e dois pratos cheio de migalhas. Juju tinha migalhofobia, mas era mais forte que aquilo. Seguiu em frente em busca de um objetivo maior. Tá! Ele nem teve tempo! Que homem! Uau!

Juju, apressada e ansiosa, correu até o quarto, aquele ninho de amor do outro dia. A cama estava desarrumada e os lençóis desalinhados exalavam cheiro de suor e havia pêlos – que não eram dela! A colcha de algodão egípcio 500 fios, comprada em Nova York, estava arremessada a noroeste do criado mudo amarelo. Um pacote de camisinhas rasgado jazia ao lado da cama, resgatando a lembrança daquela noite. Não… não era possível’ Onde estavam os ovinhos??

Juju caminhou num passo arrastado até a gaveta de chocolates. Não havia uma única língua de gato, nem as de seu estoque pessoal.

Nisso, tocou o celular. Era mensagem de Kadu. Juju imaginou, com uma quase excitação:

– “Feliz Páscoa?? Obrigado pela hospedagem! Seu ovo de língua de gato está escondido atrás do sofá??”.

Mas não… Kadu apenas dizia:

– Ju, nunca tinha provado café com língua de gato. Tesão!! Precisa abastecer o estoque. Qualquer dia colo de novo por aí. Kadu.

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