Post em edição extraordinária – sobre o Paul McCartney e o Bisonho

– O show é do Paul, mas o *%#}¥€ também veio.

Acordei às 5h58, em Kuala Lumpur, com a mensagem da Nina e uma foto do *%#}¥€.

– Hã?

– Acabamos de trombar na fila! Ergui os braços mais que pude e consegui essa foto. As pessoas em volta pensaram que era uma celebridade. Mas era só o *%#}¥€.

– Esfreguei os olhos. Era sonho. 7 bilhões de pessoas no mundo e a Nina foi encontrar justo com o *%#}¥€?

– Tava sozinho?

– Não! Essa é a melhor ou pior parte. Estava com o Bisonho!

– Não acredito! Manda foto do Bisonho!!

– Não consegui. Mas é muito mais bizarro do que a gente pensava.

– Pior que no Facebook?

– Muito pior!! No Facebook a foto era de anos atrás!! Tinha filtro! Ela é grotesca! Manja a altura do Frodo?

– Não.

– Os pelos no rosto do Chewbacca?

– Não. Eu só me lembro do sorriso de cavalo.

– Googla. O sorriso lembra um pouco o do Vordemort também.

– Oh. Você sabe que eu quase não vejo filmes.

– Cara!! O Bisonho é a Marina Ruy Barbosa perto dela!!

– E você não fez nada?

– Queria que eu fizesse o quê? Já não basta que vou passar a semana toda tendo pesadelos com a cara dessa mulher por sua culpa!

– O show já acabou?

– Não! Nem começou.

– Então vai até a produção. Oferece uma grana! Eu transfiro pra sua conta agora!! Faz alguma coisa!!

– Tipo o quê?

– Dá um dinheiro pra alguém! O Paul tem de começar o show dizendo: “Boa noite São Paulo. Eu não me conformo que o *%#}¥€ e o Bisonho estão aqui. Hoje não haverá show.

– Para!! Hahahahaha. Eu paguei R$ 750 por esse ingresso! Deixa o *%#}¥€ com o Bisonho fora disso! Vai tomar um Sakê e esquece isso.

– Nina! Vc acha que eu tou tão mal assim? Eles tavam de casalzinho? Tipo namorados?

– Não! Tavam de bando! Com uma galera! Feito mamutes.

– Mamutes que vão extinguir em breve com o fim da idade do gelo ou mamutes que vão acasalar na Raposo Tavares no fim do show?

– Pra eu acasalar com aquele mamute Bisonho, nem por 1 milhão de ingressos de show do Paul. Ela é uma velhinha. Daquelas que fazem feira às quintas-feiras na hora da xepa. De cara lavada e vestido de chita.

– Vc fala isso porque é minha amiga. E por uma noite com o *%#}¥€?

– Nem vou comentar. Vc sabe minha opinião sobre ele.

– Ai, Nina!! Acha ele!!! A gente precisa tomar uma atitude!

Nina mandou uma foto do estádio. 43.000 pessoas. Não consegui encontrar o *%#}¥€, nem com aqueles cabelos esvoaçantes dele.

– Tá. Desencana então. Bom show.

Liguei um canal qualquer de transmissão ao vivo pela internet. Paul iniciava o show. E eu juro que o ouvi dizendo:

– Good evening, São Paulo! A really “hard days night” here because i just cant believe that *%#}¥€ preferiu vir aqui com BISONHO ao invés de… enfim…

I can’t get no satisfaction!!

– Valeu, Nina!!! ❤️😘 Valeu, Paul! 👊🏻

(Ivy Cassa, com foto furtada da Nina)

Um relacionamento como o do Lim e eu

Os “Úberes” (como diz o Carlão) em Kuala Lumpur funcionam de maneira curiosa. O preço é muito barato. Muito mais barato mesmo do que no Brasil, que já é relativamente barato. Uma corrida pode chegar a custar menos de R$ 3. O problema é que o número de carros deve ser insuficiente perante a demanda o que, somado ao trânsito parecido ou pior com o de São Paulo, faz com que a demora seja absurda. Logo no primeiro dia, pedi um carro pra um trajeto que levaria cerca de 5 minutos, o preço era alguma coisa perto de R$ 5 reais e fiquei quase 50 minutos esperando. Vocês devem estar se perguntando: e por que raios ela não foi andando? Kuala Lumpur tem questões de segurança e não se recomenda – só por isso.

Mas naquele sábado eu estava exausta – já fazia 3 noites que não dormia direito por causa do jet lag de 10h e eu parecia uma morta viva vagando em círculos depois do jantar no restaurante giratório. Quando o reloginho do Uber começou a marcar que faltavam 15 minutos pra chegar, e de 15 foi pra 20, e aqueles 20 não baixavam nunca, eu resolvi abrir mão do aplicativo e pedir um táxi. Foi assim que conheci o Lim.

– Tava bom o jantar?

– A vista era linda, mas a comida deixou a desejar. Saiu bem caro para o que eu comi. Não curti muito.

– Sim “Atmosphere very expensive”, ele disse com o sotaque malaio bastante marcado.

– Vai ficar aqui até quando?

– Até segunda-feira. Depois vou pra Singapura.

– Ah, então, se você quiser, amanhã eu te levo num restaurante chinês muito bom. Gosta de comida chinesa?

– Adoro! – Já intuí: esse cara deve manjar de comida chinesa. Imaginei-me num daqueles banquetes com arroz frito e toda sorte de camarões empanados, molhos exóticos…

– Quer fazer uns passeios? Te levo ao aquário, ao borboletário, ao palácio do rei, ao templo chinês, à mesquita. E, no final, um belo almoço chinês.

Não sou propriamente uma fã de tours. Sou do tipo que gosta de conhecer a cidade com os pés, em ritmo próprio. Mas, dadas as circunstâncias de segurança do local e depois dele ter me assustado com um “os motoristas de Uber raptam pessoas aqui”, acabei topando, mesmo constatando que se ele próprio quisesse me raptar ninguém ia ficar sabendo.

– Are you married? – me perguntou.

– Não… e você?

– Não. Não tenho dinheiro. Aqui se diz: “no money, no honey”. Aaaaah! Hum!

Ele tinha uma risada engraçada. Saía um riso e depois um “Hum” de confirmação.

Marcamos que ele me buscaria às 10h no hotel.

No dia seguinte, pontualmente, enquanto eu terminava de escovar os dentes e fingia que não tinha ouvido o interfone tocar da primeira vez, ele já tinha ligado pela segunda.

Saí apressada e lá estava ele a postos. Tinha trazido o tio, sei lá se pra ser cicerone também.

Partimos rumo ao tour, com exceção da parte dos bichos, que descartei por julgar desnecessária. Um e outro se revezavam nas explicações, com as quais eu concordava sem refilar, já que se eu entendia 1/3 do que o Lim dizia, a parte do tio eu compreendia apenas 1/10. Fiquei com a suspeita de que talvez não seja bem inglês o que eles falam por lá. Quando eu não entendia pela 5a vez alguma coisa, o tio arremessava para o banco de trás um guia plastificado e apontava uma foto. Eu concordava novamente:

– Ah, sim! Era nisso que eu tinha pensado!

Na metade do passeio o tio foi embora. Assim como não entendi porque ele tinha vindo, tampouco compreendi porque ele tinha saído. Mas fazia tanto calor e eu já tonta com aquele entra e sai do carro, bate foto, veste abaia, tira sapato, só concordei e fiz uma reverência quando ele saltou.

O Lim era incansável. Fotografava, inventava lugares, contava histórias. E eu derretia feito manteiga na chapa no banco de couro.

Passamos duas vezes na frente do borboletário.

– Não vai mesmo querer entrar?

– Não, Lim. Deve ser o máximo, e eu nunca estive em um, mas estou realmente cansada. Só quero trocar dinheiro e comer. Não quero ver mais nada.

– E por que você não casou?

Expliquei a minha trajetória enquanto chegávamos à casa de câmbio e as gotas de água das minhas coxas formavam minúsculas poças nas intersecções do couro do banco de trás.

Depois de muito trânsito e uma manhã inteira dentro daquele táxi, chegamos a uma rua muito esquisita. Eu, semi desfalecida, perguntei:

– Falta muito pra chegar?

Lim, orgulhoso, disse:

– Chegamos. Pode escolher qual você quiser. Eu te espero por 30 minutos e depois vamos ao borboletário.

Ergui o corpo buscando forças. Arregalei os olhos. Olhei para um lado e para o outro. Era um restaurante mais medonho que o outro! Boteco era bistrô perto daquilo!! Aquilo era pegadinha. Lim era o Sérgio Malandro e tinha uma câmera escondida atrás do espelho.

– Lim! Acho que você não entendeu direito. Eu tou pensando em comer em um “bom” restaurante chinês. Tipo “o melhor de Kuala Lumpur”. Um que tenha uma bela vista. Um rooftop. Onde fica alho assim?

Ele torceu o nariz.

– Mas você falou que o de ontem era caro. Esses todos são baratinhos.

– Não, Lim. Isso foi ontem! Eu quero uma vista bonita, um restaurante estrelado! Estou de férias.

Sem paciência e dominada pelo mais primitivo sentimento de fome, peguei o celular, abri o trip advisor e encontrei um a poucos metros dali.

– Lim, vou almoçar no Lemon Garden. Toca para o Shangri La, por favor.

– Naaaao! Tá louca! O Shangri La é um hotel 5 estrelas. O restaurante vai ser caro como o de ontem. Você reclamou que era caro, não vai.

– Lim! Eu preciso!!

Naquele momento, me ocorreu gritar:

– Lim, eu me-re-ço ir ao Lemon Garden agora!! Há quase 3 horas tenho meu labirinto balançando feito xícara maluca dentro do seu carro. Faz 35 graus lá fora e a sensação térmica que meu celular marca é de 42! Eu estou menstruada!! Lim, se eu ficar aqui mais 5 minutos, meu útero vai explodir dentro do seu táxi como uma panela de pressão e você ficará uma semana sem trabalhar encontrando pedaços do meu endométrio pelo chão, pelo tapete e pelos bancos! Preciso de um banheiro!! De ar condicionado! De um buffet com comidas exóticas. Preciso esfregar ostras frescas pelo meu corpo e ter uma bebida gelada no meu meu copo pra refrescar a palma da mão e a goela! E não comer num pé sujo!! E eu nem vou pagar com o seu cartão de crédito, oras!

Mas então lembrei que o Lim não era meu namorado. Eu não precisava fazer aquele esperneio. O Lim entendeu tudo pelo meu olhar.

– Toca para o Shangri La. Eu assumo o prejuízo.

Durante aqueles poucos minutos de trajeto, pelo menos 3 namorados me visitaram em pensamento.

– Vamos ao Shangri La! Mas nunca mais reclame de conta cara na vida!

– Vai você ao Shangri La! Eu fico no pé sujo. Mulher doida, não sabe o que quer.

– Vai comer aqui no pé sujo pra aprender a ser coerente nos seus comentários.

– Sabe, Lim. Vocês homens têm de entender que nem tudo que a gente fala é tão literal. Há exageros literários na nossa fala. Mas há verdades. O segredo é filtrar pra aprender uma convivência pacífica. Nós somos tão polissemânticas.

– Hum. Será que foi por isso que não casei?

Não respondi. Tínhamos chegado ao Shangri La. Paguei a corrida ao Lim.

– Sem borboletário então?

– Sem borboletário. Sem horário mais por hoje. Só quero relaxar, sem hora pra terminar. Amanhã a gente se vê na hora combinada. Obrigada por tudo, Lim.

– No marriage, no problems. Aaaaah! Hum!

O Lim tinha entendido!

Que Deus proteja os ovolactopescovegetarianos que voam

– Eu gostaria de registrar um boletim de ocorrência.

– Pois não. Qual a ocorrência?

– Atentado contra os ovolactopescovegetarianos que voam.

– Perdão. Como?

– Sim. Aquelas pessoas que não comem carne, nem frango, nem porco, nem nada que ande ou rasteje ou salte na terra, exceto siri, mas não caranguejo.

A escrevente arregalou os olhos.

– Tá. Esse é um conceito stricto sensu do ovolactopescovegetarianismo adaptado por mim mesma. É que eu sou assim.

– E o que você come?

– Vegetais, ovos, alguns peixes, crustáceos e frutos do mar.

– É cada doido que aparece. – E revirou os olhos. E contra quem é a denúncia?

– Contra as companhias aéreas.

– Que mal lhe fizeram?

– Privação de comida.

– Ué! E não tem comida vegetariana nos voos? Essa denúncia é falsa.

– Aaaah! Mas aí que está. Dizem que comida de avião não é grande coisa. Não tou falando da comida da primeira classe, mas da classe da maioria, dos que de vez em quando pagam o valor mínimo na fatura do cartão de crédito, que parcelam as viagens em 12 vezes, viajam com milhas na promoção e fazem voos malucos com escalas em países exóticos. Aqueles que recebem volta e meia ligação do gerente avisando que a conta está no vermelho e que sentem vontade de responder: “Tou ciente, vai fazer uma doação? Quer criar uma campanha de crowdfunding pras minhas próximas férias?” Mas, mesmo assim, não perdem uma oportunidade de viajar. Afinal, entre viajar com a patela espetada no cóccix do passageiro da frente várias vezes por ano ou viajar uma única vez no vez no ano, deitadinha numa cama da primeira classe, eu ainda prefiro disfarçar os joelhos arroxeados em fartas camadas de hirudoid e continuar peregrinando num ritmo mais intenso.

– Senhora, voltemos à comida…

– Sim, o problema está na comida. Ricos e pobres ainda não se diferenciam quanto a essa necessidade tão primitiva. Acontece que, se a comida já não tem fama de ser grande coisa nos aviões em geral, imagina da cortina da primeira classe pra cá! Agora você nem sonha como é a cortina imaginária dos ovolactopescovegetarianos!

– Há uma cortina?

– Vou explicar. Nos aviões, as pessoas são classificadas em duas categorias: (i) as que comem bichos e tem direito a um belo doce e (ii) as que não comem e vão se danar na sobremesa. De acordo com a minha definição de ovolactopescovegetariana, eu me enquadro mais na segunda do que na primeira, já que o risco da comida com bicho ser frango ou carne é de cerca de 90%.

– E qual o problema com a opção número 2?

– São as pessoas que prepararam os pratos das companhias aéreas! Eu aposto que são carnívoros e maldosos. Eles têm ataques de ira quando recebem uma ordem dizendo:

– Ivy Cassa – refeição vegetariana. Ivy? Cassa? Que nome! Vamos ter que fazer uma comida especial só pra ela? Ah, Josair! Pega o que tiver de pior na cozinha e vamos sacanear essa aí!

– E então o Josair manda preparar um prato que é sempre a mesma coisa: arroz, pimentão, milho e berinjela.

– Argh! Pimentão e berinjela são indigestos pra quem viaja pelo ar. Você come?

– Não! Detesto no ar, na terra e na água. Acabo comendo milho e arroz!

– Meu Deus! E a sobremesa?

– Aí o Josair pega ainda mais pesado! Ao invés de me dar um bolinho de chocolate, ele manda também sempre a mesma tortura: 3 uvas Itália. Verdes de cortar a língua! Pra não dar nem pra reclamar.

– Não é possível. Você tá falando isso porque deve ter viajado em poucas companhias aéreas. O que tem a dizer da AirFrance?

– Veio-me uma lágrima no olho direito.

– Não sei se sou capaz de verbalizar. Ainda dói muito.

– Vamos. O que houve?

– Uma vez, pedi a tal comida vegetariana. E todos os passageiros ganharam como “mimo” da companhia um queijo brie e um brownie.

– E você?

– Arroz, milho, pimentão e berinjela. E 3 uvas azedas.

– Naaaaao! E você não pediu um queijinho? E um brownie?

– Pedi. Chamei a comissária pelo botãozinho, falei da minha tristeza, da vontade que eu tinha de comer um brie com brownie. Brie com brownie. Brownie e brie. Ela me repreendeu: mas a sua refeição é vegetariana!

– Mas não é vegana, argumentei!Arranja um queijinho e um chocolate pra mim, por favor. – implorei. Ela sumiu. Depois de meia hora, voltou.

– Não foi possível. Acabaram os bries e os brownies. Da próxima vez, você presta mais atenção ao que pede. – me repreendeu.

– Claro. Olhei com desejo para o meio brie mordido do francês ao meu lado e tive vontade de morder a outra metade, mas a aeromoça passou e arrancou-lhe a bandeja. Espichei os olhos pelo corredor e vi um desfile de bries e brownies meio mordidos ou nem mordidos dançando cancan, dando seus últimos passos em direção ao lixo, enquanto aquele ameaço de Maria Antonieta dos ares me condenava a passar 11h com arroz, milho e 3 uvas verdes. E sem brioche!

– Dona Ivy, você tá precisando viajar melhor! Já viajou pelas companhias do oriente? Há váaaaarias opções para vegetarianos! Comida vegetariana que nasce debaixo da terra. Que nasce acima da terra. Comida que cai do pé. Comida com ovo e sem ovo. Comida em estilo indiano. É uma loucura!

– E eu não sei? Fui pra Qatar no último carnaval! Fiquei quase uma hora avaliando cada uma das alternativas disponíveis. Mas eu aposto que o Josair também trabalha na Companhia que me levou pra lá. Escolhi a comida que parecia mais apetitosa. A mais exótica! A mais temperada. Estava em êxtase com a minha própria escolha. Quando chegou a marmitinha prateada e abri: Arroz. Berinjela. Milho. Pimentão. E limão espremido.

– Limão espremido?

– Sim! Era o “tempero do arroz”.

– E você comeu?

– Não. Chamei a aeromoça, lembrei pra ela quanto eu tinha pago por aquela passagem (mesmo na classe econômica) e disse que o nome daquilo que eles tinham me servido era piada, mas que eu não estava no circo e nem estava achando graça nenhuma. E que ou eles me arranjavam comida que não fosse piada, ou eu ia ficar sem comer e, se estrebuchasse ao longo do voo, avisaria todo mundo que a culpa era do Josair.

– Depois de 15 minutos apareceu um ravioli de queijo e um flan!

– Ufa! Bem, mas e a reclamação de hoje, é contra qual companhia aérea?

– Na verdade, é contra o próprio Josair! Ele permanece me seguindo! Dessa vez, ele foi longe demais. Descobriu que eu estava indo viajar pra Kuala Lumpur e me mandou servir a comida do Scooby Doo.

– Scooby Doo?

– É, seu cachorro. Veja só.

Abri a marmitinha. A escrivã tapou os olhos. Tapou o nariz. Senhora, as refeições ovolactopescovegetarianas são caso de polícia.

(Ivy Cassa)

Invasão masculina

Eram 3h. Abri a porta e tirei os sapatos de verniz ainda respingados daquela chuva toda. Deixei a pequena mala de cabine que estava molhada num cantinho da sala dos livros, tirei o trench coat e estendi no encosto da cadeira da sala de jantar. Caminhei com minhas meias cor de pó de arroz pelo corredor da sala de TV, quando tive aquela sensação de estar sendo espiada.

– Bu!

– Aaaaaaaaaah!

– Huhuhuhuhu!

– Gru! Que você tá fazendo aqui?

– Vim fazer uma visita técnica. Já faz 2 semanas que você não posta nada no seu blog e eu fiquei preocupad… quer dizer… Achei muito suspeito! De onde você está vindo?

– Do aniversário do pai Geraldo.

– De mala? Que festa é essa? Uma rave? Há quantos dias está lá?

– Não! É porque eu estava em Florianópolis em um Congresso e de lá fui direto pra festa porque… não importa! Como conseguiu entrar aqui? Isso é invasão de privacidade! Vou chamar o seu Genivaldo!

– Calma. – disse com um sorriso de labrador. Vim em paz. Eu tinha uma outra missão aqui no seu prédio. Você até pode imaginar em qual apartamento… – levantou uma sobrancelha. E reparei que podia pular com as minhas botas super saltitantes pela porta da varanda. Mas eu deixei as botas lá fora! Não estou sujando nada! E mostrou os pés descalçados, em meias listradas.

– Gru, tem um furo na sua meia esquerda!

– Ops! Puxou o furo para debaixo do pé, escondendo o dedão por cima do buraco.

– Preciso tomar banho e dormir. Não costumo ter invasores na minha casa, e muito menos a essa hora da noite. Você pode sair, por favor? Por onde entrou, pela porta, por onde quer que seja, mas me deixe sozinha.

– Ah, não! Vamos papear!

– Gru!! São 3h! Faz quase 20h que estou acordada. Olha o ta-ma-nho das minhas olheiras! Eu só quero papear com a fronha do meu travesseiro. E talvez ainda babe nela.

– Não seja assim. Vamos tomar aquele chazinho que você ficou me devendo outro dia!

– Você é maluco, não?

– Olha quem fala! Meia xícara de chá, conversamos quinze minutinhos e eu vou embora.

– Jura de mindinho?

– Juro.

– Então vai preparando as coisas enquanto eu tomo banho.

Quando saí do banheiro, encontrei Gru sentado calmamente no sofá cinza, recostado no Lucas e no Bruno, lendo umas folhas.

– Belo pijama! Gosto muito da Vila Sésamo.

– E aí, Gru? Cadê o chá?

– Eu estava te esperando.

– Mas não te pedi pra adiantar?

– Ué. Mas essa é uma função de me-ni-na! Quem faz o chá em casa é a minha mãe.

– Mas eu não sou a sua mãe! Gru, eu tou cansada. Vem aqui aprender. Gavetas de chás! Chaleira elétrica! Filtro! Água! Canecas! Infusores! Quer chá de quê?

Ele revirou as caixas e latas.

– Winterschokolade?

– É um chá alemão que meu primo trouxe de Aachen.

– E é feito de quê?

– Não sei. Mas tem cheiro de canela e chocolate. Vamos nesse, você vai gostar. E ligamos a chaleira.

– Mas então me conte… o que você foi fazer em Florianópolis?

– Fui dar uma palestra sobre o papel da mulher.

– Ué. Virou feminista agora?

– Não era bem esse o tom… fui falar sobre as diferenças entre os homens e as mulheres no mercado de trabalho e a importância de corrigirmos “distorções”.

– Ah, que bobagem! Isso não existe. Veja a Dona Interpol! Ela é minha chefe.

– É uma mulher inteligente e certamente conquistou seu espaço por meio do seu trabalho e competência. Mas nem todas têm as mesmas oportunidades. O exemplo da Dona Interpol ainda é minoria. Sabia que a chance de um homem se tornar executivo é três vezes e meia maior que a de uma mulher no mercado segurador?

– Não. Chá bom! Vou pedir pra Dona Interpol trazer pra mim da sua próxima viagem. Sabe quanto ela ganha? – olhou para os lados pra se assegurar que não teria ninguém ouvindo. Umas 200 vezes o valor do meu salário!

– Mas a média brasileira do salário da mulher é de cerca de 70% o salário do homem, Gru.

– Hum, não tinha ideia. Mas mesmo assim é tolice. Você não precisava ter ido até Florianópolis pra falar sobre isso. Aposto que foi pra lá pra ver se arranjava um marido! Colocou um decote, uma saia curta. Confessa? Jogou esses cabelos loooooiros… E deu uma piscadinha.

– Gru, olha a foto da roupa que usei na apresentação. Não tem nada aparecendo. E outra: você com esse discurso tá parecendo os mais antigos, que achavam que marido é troféu pra mulher exibir. Veja lá o que é conquista: e mostrei o tinha recebido da organização do evento.

– Humpf. Você está muito inflamada. O mundo é bom. Daqui a 10 anos tudo isso estará resolvido.

– Tomara, Gru. Mas a perspectiva não é assim tão animadora. O Relatório de Desigualdade Global de Gênero de 2016, que foi apresentado no Fórum Econômico Mundial, indicou que ainda pode levar 170 anos para ocorrer a paridade de remuneração entre os gêneros.

– Balela!! As mulheres é que não querem estudar. Vão pra academia, pro salão de beleza, ficam de papo com as amigas! Por isso não ganham dinheiro.

– Gru! Olha aqui esse estudo! – abri a pasta que estava dentro da mala. Mesmo com a formação acadêmica superior, existe um achatamento salarial. Há muitos fatores envolvidos. A gente não tem tempo pra conversar sobre tudo agora, quem sabe outro dia. Mas, por exemplo, um deles é a dupla jornada: quem cuida da casa, dos filhos, dos pais, na maioria dos casos? Você é casado?

– Não… eu estou… “tentando” ser. Mas eu ajudo a minha mãe.

– É mesmo? “Ajuda”? E o que você faz?

– Lavo e seco a louça do almoço. Todo domingo.

Revirei os olhos.

– Você sabia que as mulheres italianas gastam quase 22 horas a mais que os seus parceiros nos afazeres domésticos? E que nos países nórdicos essa diferença cai pra 5 horas?

– Ai, aposto que tudo isso pra você dizer que aquele nóoooordico e lindo e alto do Rodrigo Hilbert faz crochê, cozinha, faz casinha pras crianças, blá-blá-blá.

– Por exemplo!

– Você acha que eu também posso me tornar um “homão da porra”? Será que eu consigo arrumar uma namorada como a Fernanda Lima? – ele esfregou as mãos e arregalou os olhos.

– Ai, Gru… a gente precisava conversar um tanto. Mas eu estou mesmo exausta. Faz assim: vou te emprestar uns livros pra você se situar, que acha? Tem o “Um teto todo seu”, da Virgínia Woolf, “O segundo sexo”, da Simone de Beauvoir, “Para educar crianças feministas”, da Chimamanda Ngozi Adichie…

– Posso começar por esse? – mostrou as folhas que estava lendo há pouco.

– Gruuuuu!! O que você está fazendo com o manuscrito do MEU livro?

– Averiguações!! Franziu as sobrancelhas dando um ar de mau.

– Dá aqui! Isso ainda não está pronto!

Avancei pra cima dele. Caiu a caneca de porquinho e derramou o resto do chá no chão. Gru escorregou com as meias listradas e o dedão do pé reapareceu. Puxei o calhamaço com força, mas ele se partiu em dois, ficando metade nas minhas mãos. Ele saiu correndo pela sala com parte das folhas soltas penduradas. Num pinote, chegou até a varanda e segurou a porta com um cotovelo, me impedindo de chegar até o lado de fora. Gritei, esmurrei o vidro enquanto ele calçava suas botas super saltitantes. De súbito, ele sumiu na escuridão.

– Gru! Gru! Volta! Traz meu manuscrito aqui!! Isso precisa ser finalizado, senão as conclusões que você vai tirar daí podem ser equivocadas!!!

– Huhuhuhuhuhuhu!!!!

(Ivy Cassa)

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Os homens e sua visão de mundo

Era meio dia. Eu tinha investido uma fatia considerável da manhã e do meu salário no salão de beleza, inventando, com os milagreiros de plantão, cachos e cílios curvados, que minha genética ítalo-leste-europeia não mandou como originais de fábrica. Saí de lá borboleta: o casulo tinha sido largado pra trás naquela manhã de sol.

Na porta, esperando o Uber, trombei com um amigo que não via há algum tempo:

– Nossa, quase não te reconheci!

Como dinossaura balançando a cauda na dança do acasalamento, chacoalhei os cabelos, comemorando o sucesso da empreitada:

– É que acabei de sair do salão. – Falei, com uma pontinha de vaidade.

– Não, é porque nunca tinha te visto de calça jeans.

😣

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Gela Guela

Quando eu tinha 11 anos, namorava o Paulinho. Ele tinha 12 e aquilo me admirava: imagina quanta experiência ele não havia acumulado naqueles 12 meses de vida que separavam nossos nascimentos?! Bom, na verdade, eu achava que namorava o Paulinho, porque uma vez demos um beijinho na rua Mesquita e, depois disso, foi só desilusão. O Paulinho, afinal, não dava conta de simples iniciativas perfeitamente expectáveis para um homem de 12 anos, como organizar piqueniques vitorianos no parque da Aclimação, deixar ursos com corações na barriga à minha espera na carteira da escola e escrever poemas (ainda que com rimas pobres) na minha agenda da Minnie. Não consegui lidar com aquilo. O máximo que deu pra extrair dele foi um sorvete na Gela Guela num sábado à tarde.

Os homens de verdade estavam no colegial, constatei. Os pêlos eram o prenúncio da maturidade, virilidade e sabedoria. Não devia haver uma única pergunta que um rapaz de seus 16 anos não me fosse capaz de responder. “Gabriel, que curso devo prestar? Tou na dúvida entre Direito e Engenharia. Se tiver de escolher entre assumir uma embaixada na Namíbia ou fazer um estágio numa plataforma de petróleo, para onde vou? Você acha que devo votar aos 16? Quais são exatamente as diferenças ideológicas entre a plataforma política do Lula e do FHC?” Mas o Gabriel só entendia daqueles hormônios que lhe cresciam e se manifestavam sobretudo pelo meio das suas pernas! Sorte a minha que logo em seguida comecei a namorar o Sérgio, que já tinha 23! Era formado em engenharia da computação e tinha uma carreira promissora, porque trabalhava como Analista Júnior, ganhava dois mil reais e sabia falar alemão. Tinha carteira de motorista e um Escort cor de vinho doado pelos pais. “Sérgio, a gente precisa casar! Marcar buffet e degustar salgadinhos – ou você vai querer sua mãe reclamando que passou o dia seguinte arrotando croquetinhos de caldo Knorr? O meu vestido eu vou encomendar pra Madame Juliette. Pra lua de mel não me ocorre nada que não seja o Alasca… Você gosta de girafinhas pro quarto dos gêmeos?” “Sérgio, você é muito banana mesmo, não? Não consegue organizar nem um fim de semana no Playcenter! Cadê os passaportes da alegria? Acha que virão até nós caminhando sozinhos, de tanta felicidade?”

Foi bom porque logo depois dele apareceu o Daniel Clark. 35 anos, recém chegado de Londres. Tinha ido fazer um LLM e repetia aquilo com orgulho, marcando as sílabas, batendo com força a língua no lábio superior: “el el em”. Assistia Simpsons em inglês e sem legendas – um gênio! Daniel morou na minha casa por um mês, enquanto procurava alguma coisa à altura da sua inteligência pra fazer no Brasil. Mas eu precisei sugerir que ele fosse viver em outro lugar. Não lhe ensinaram no “el el em” a tirar o lixo da cozinha, estender a toalha de banho molhada, nem a abrir uma garrafa de vinho. Além disso, ele usava meu cartão de crédito e comia todo o meu estoque de línguas de gato.

Depois dele, conheci o Dr. Gilberto Leopoldo Magalhães de Alcântara Bragança. Ele era um dos mais renomados e brilhantes cirurgiões dentistas do país. Um homem com H maiúsculo! 52 anos e um currículo lattes de 14 páginas. Fui fazer um procedimento simples que acabamos, por afinidade ou conveniência, estendendo por dez sessões. “Na próxima, se você quiser, saímos daqui e vamos beber uma champanhe no bistrô do Erick Jacquin” – Ele propôs logo na primeira vez. Ah! Nada como um relacionamento com um homem mais velho e definitivamente maduro! Durante 8 sessões fiquei esperando o tão anunciado encontro: “E aí, é hoje que vamos ao bistrô do Erick Jacquin?” Mas cada dia tinha uma coincidência: dor de cabeça, cansaço, gripe… Da nona vez, quando eu já nem botava mais fé e meus dentes brilhavam mais que vaga lumes de um milhão de watts em terreno baldio, Dr. Gilberto me abordou na saída da consulta. Infelizmente, não pude conhecer o tal bistrô, porque tinha passado tanto tempo que eu já estava de rolo com o Rafa, que me esperava na porta do consultório. O Rafa sim era um cara bacana, 40 e tantos anos, mestre e doutor em Direito. E ainda era poeta! Sabia tudo da vida e de mim. Tinha tudo pra dar certo! Só que ele era casado e indeciso: queria que a gente tivesse um casinho literário – ele iria à minha casa uma vez por semana e nós trocaríamos poemas. Achei aquilo meio tresloucado e Augusto dos Anjos demais e desabafei com o Garry, meu amigo recém divorciado e ligeiramente sensível. “Esse mundo não é pra mim! Os homens não sabem o que querem.” Garry me ouviu pacientemente e confessou: “Eu achei que agora, finalmente, tinha chegado a nossa vez de sermos felizes juntos.”

23 anos de aventuras amorosas fracassadas passaram pela minha cabeça como em um desfile de escola de samba. Então quer dizer que estava tudo ali? Garry e eu?

No primeiro dia depois daquela conversa, ele me mandou de presente um urso com coração na barriga – “Pra te aconchegar nas noites solitárias.” No segundo, um livro “Para entender a política brasileira” – “Não sei te explicar os homens, quem sabe não te ajude começando pela política?” No terceiro, uma caixa de trufas de língua de gato: “Pra tornar tua noite doce como os teus lábios devem ser”. No quarto, enviou um vale do Bistrô do Erick Jacquin “Enquanto eu não posso estar aí, é justo que tu tenhas prazer sem mim. Jante pensando em nós.” No quinto dia, veio um poema com rimas raras escrito por ele – foi competente a ponto de rimar um “xingo-a” com a minha “língua”!

No sexto dia, ele em pessoa chegou a São Paulo. Saímos para beber e ver no que ia dar – não era preciso ser muito imaginativo pra adivinhar o resto da noite. Só que depois de três horas e duas caipirinhas, cheguei à conclusão de que o Garry daquela mesa não era o mesmo que tinha me abordado nos últimos dias. Não era o Garry dos presentes nem o das conversas. Não era sequer o meu amigo. “Ivy, eu sou muito tímido e minha trajetória impressiona”. Após ouvir uma ladainha como se fosse a Dra. Linda Freeman, Garry arrematou: “Preciso te contar uma coisa: estou apaixonado por outra pessoa e só você seria capaz de me entender”.

“Não, Garry. Não sou. Sou imatura como um abacate verde.”

“Alô, Paulinho? Sumiiiido! É a Ivy. Lembra? Tá a fim de tomar um sorvete na Gela Guela? Pra gente relembrar os velhos tempos…”

(Ivy Cassa)

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Julieta

Quando descobri que existia a mínima chance da gente se esbarrar ali… Logo nós! Por que nós, entre tanto mais de meia dúzia de milhão de gente nesse mundo, nós dois sentadinhos lá, de repente, como se nada fosse? Aquilo era caso pra Rivotril, não era? Doutor, hoje eu posso? Um? Não! Eu tinha pensado em seis! Um pra hora de sair da cama e não pensar que era hoje – justo hoje! – que eu ia ter de fingir que não o conhecia desde aquele dia em que a gente fingiu que ia fingir pra vida inteira que não se conhecia mais. Outro pra hora de ligar a playlist do iPhone e não ficar muito emocionada ouvindo aquelas músicas que escolhi especialmente pra chorar pensando nele enquanto tomava banho – o problema todo é aquela música da Ana Carolina, Doutor! Aquela do vozeirão. Ela tem uma música que foi feita pra mim: já ouviu a letra de “Aqui”? Larga o que o senhor tá fazendo e ouve, então! Essa coisa de represa pronta pra jorrar. Sou eu! O terceiro comprimido é pra me arrumar sem pânico – já pensou se eu, uma pessoa tão pouco inqueita, fico de repente agitada e passo o lápis como se fosse uma máquina de imprimir eletrocardiograma? Ia ficar parecendo que estou indo para a festa adiantada de Halloween! Ou se o batom vermelho sai do contorno dos lábios e eu chego com cara de palhaça? Um quarto para esperar o Uber. Doutor, você já viu como esses motoristas se perdem? Preciso te contar! Tem um bug no waze que volta e meia manda os carros virarem na Pensilvânia ao invés de seguirem reto na Nova York! Sabia que outro dia eu quase perdi um voo por causa disso? É, o motorista jogava sudoku (Su-do-ku!) no quarteirão debaixo, enquanto eu fabricava um suco de mioglobina com troponina no meu próprio sangue! E o quinto para aguentar o trânsito. Doutor, você mora em São Paulo, não preciso explicar. Pra que o sexto? Doutor!! Até cruzar a cidade inteira, nesse ritmo de retorno de Ubatuba em réveillon, toooodos os outros 5 comprimidos já terão deixado de fazer efeito. Doutor, você não tava acompanhando o meu raciocínio! Tá. Entendi. UM Rivotril, e só se eu estiver quase morrendo… E chá de camomila. Anotei. Doutor, no ano passado eu fui para o Peru e comprei chá de coca. Será que ele dá uma “bombadinha” na camomila? Ah. Tá. Efeito nenhum. Claro. Só serve pra aliviar os efeitos da altitude. Foi exatamente o que pensei.

– Tati! Vou tomar o tal chá! Estou me sentindo na altitude. Quer dizer… tou me sentindo na beira do abismo, né! Se ele vier falar comigo? Eu vou… acho que não vou! Não terei voz! Vou sair correndo, lógico. Mas me faltarão as pernas. Vou ficar ali, feito… eu nem sei feito o quê! Meu cérebro não tá funcionando direito. O que não tem voz, nem pernas nem cérebro? Uma goiaba! Isso, ficarei ali, feito uma goiaba! Mas uma goiaba de vestido azul! E com cabelos cacheados, feito a Gisele Bundchen. Não muito, pra eu não parecer a Maisa! Um sapato bem alto, pra manter distância! Mas goiabas não usam Luís XV… Tampouco batom vermelho…

Cheguei lá e escondi-me dentro de um vaso. De violetas. Apequenei-me nas minhas náuseas entre aquelas folhinhas de camurça e esperei cinco milhões de pessoas passarem. Cinco milhões, novecentas e noventa e nove mil e noventa e nove. Estavam faltando uns tantos chineses, eu tinha contado! Entraram 3 chineses e 2 indianos. Ufa! Todos estavam lá dentro, mas ele não chegou.

Saí dali do vaso meio estabanada. Ploft! Me esborrachei naquele carpete pisado de gente do mundo todo. Eu também estava pisoteada. Encaixotei-me. Eu tinha virado uma goiabada. Era a verdadeira Julieta sem Romeu.

(Ivy Cassa)

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