O amor começa…

De madrugada, com um blá-blá-blá incoerente mas cheio de sentido pelo telefone. Na verdade, o amor começa com um 😘 de boa noite na mensagem do WhatsApp.

O amor começa quando, naquela mesma noite, a gente prolonga um tantinho mais o horário de dormir, só pra trocar o som das mensagens dele pelo badalo de um sino, e ainda adiciona o telefone dele à lista de “favoritos” do iPhone, junto com o número da mãe.

O amor começa com a primeira stalkeada nas redes sociais dele e o print das melhores fotos pra mandar pras amigas. E da melhor foto de todas, que já vai para o fundo de tela do aparelho.

O amor nasce muito rápido: no beijo molhado dado no meio da Avenida Paulista entre um abrir e fechar de semáforo. No pé que descalça as sandálias para esfregar o tornozelo dele embaixo da mesa do restaurante. Na mão dele que se esconde na minha coxa na viagem no banco de trás do táxi.

O amor começa quando os olhos fecham suspirando. E começa nos braços que fecham pra que a gente não desengate.

O amor começa no táxi, mas sobe pelo elevador só pra dizer tchau. Mais um beijo na porta do elevador: o elevador escapa. O amor fica.

O amor começa na porta do apartamento que abre.

O amor é empurrado pelo corredor da sala. O amor começa na porta do box da suíte que abre junto com o registro do chuveiro. O amor começa em qualquer porta que abre.

No laço do robe que abre. No fecho do sutiã que abre. O amor abre portas…

O amor começa com a mistura impregnada dos perfumes de um e de outro no vestido da noite de sábado, que fica esquecido em cima do sofá da sala.

O amor começa no nariz que gruda no cangote na hora de dormir.

O amor começa com o primeiro selfie pós “um monte de coisas” naquela noite. O amor evolui pra Boomerangs pra registrar beijos de olhos viradinhos e outras gracinhas. O amor é tão bobinho quando começa…

O amor começa com pequenos registros: a foto do ovo com a gema molinha do café da manhã: “tava comendo e pensei em você”

O amor começa no plano do roteiro de uma viagem. “Pra onde?” “Quem se importa? A gente se ama.”

Amor, você deixa a barba crescer? – O meu amor tem uma barba malfeita que me deixa maluca.

O amor começa numa dança. Da música do Chico Buarque que diz: “o meu amor tem um jeito manso que é só seu”.

O amor acaba

Com uma noite em claro expulsando demônios no telefone. Porque um diz “não quero mais falar com você”. O amor acaba com um telefone mudo: Caiu? Desligou? Bloqueou? Morreu?

O amor acaba quando a gente muda o sobrenome dele por um “babaca” na lista de contatos e apaga todas as 5.689 mensagens trocadas – até os áudios.

O amor acaba quando deletamos todas as fotos, vídeos e Boomerangs (inclusive os Boomerangs!), do celular, do e-mail, da nuvem, dos nossos aparelhos e de todas as amigas e da própria mãe. Exceto aquela foto que tiramos dele fazendo careta com os olhos revirados, pra todos os dias lembrar que, conforme o ângulo, a cara dele podia ser de pangaré e, afinal, não foi uma grande perda…

O amor acaba na porta do apartamento que é arremessada contra o batente. Acaba na porta do elevador que foge com ele dentro pra um outro planeta onde não há pescoços que viram pra trás.

O amor acaba numa porta de qualquer coisa que fecha, de caixão a porta de carro batendo.

O amor, quando acaba, fecha portas.

O amor acaba num “a gente vai se falando”…

Na transição de um “Oi!” Para um mero oi. Na mudança do 😘 para o 👍🏻

O amor acaba num dormir na mesma cama virados para pontos cardeais opostos. O amor acaba mesmo num dormir no sofá.

O amor acaba numa fechada brusca do laço do robe, num amarrar apressado de cadarços de sapatos.

O amor acaba quando se joga a escova de dentes dele no lixo.

O amor não gosta mais de ver fotos de ovos de café da manhã com a gema molinha. Ele não tem mais tempo pra essas coisas bobinhas. O amor acabou.

O amor acaba antes mesmo que a viagem comece. “Pra onde?” “Quem se importa quando já não há amor?”

O amor acaba na metade de uma dança. De uma música que lembra uma letra… do Chico Buarque, seria?

Porque parece que sua barba malfeita passou a machucar a minha nuca. E meu jeito manso agora lhe deixa irritado…?

Mas…

Quando sobra um restinho de perfume dele no vestido jogado em cima do sofá…

Uma bobagem qualquer pra comentar, nem que seja um vídeo do YouTube ou o clipping das notícias da semana na madrugada.

Quando encontro numa pasta oculta uma foto daquela barba malfeita…

Quando entro no táxi sem as mãos dele escondidas nas minhas coxas, mas o Chico está cantando na rádio… “meu corpo é testemunha do bem que ele me faz”…

Às vezes, dá uma dúvida se o amor acabou…

Talvez, só tenha mudado de forma…

(Ivy Cassa)

(Portas Abertas)

#portasabertas #portasabertasivycassa #ivycassa #literatura #autoficção #amor #amoracaba #fimdoamor #formadoamor

As calamidades do Leitor Enamorado

– Sou Caetano Abelardo, filho de Lucia e Berengario, cavaleiro do castelo de Pallet. Irmão de Dagoberto e Raul. Ivy Heloisa, minha Estrela da Manhã: vim hoje aqui contar a história das minhas calamidades…

– “Estrela da Manhã”? Então você não é Abelardo! É Caetano Manuel!! Ou algum personagem perdido de Game of Thrones: uma espécie de Daenerys Targaryen!

– Minha Doutorinha, não assimile meu discurso sob o prisma daqueles seus leitores mais alheios a nós 2. Não é assim que eu faço com seus escritos – e olhe que fica bastante evidente que muitos deles são direcionados. Estou (e estamos) demais atentos ao que os outros não conhecem e além dos limites dos que acreditam que os dominam. Você sabe que temos nossos símbolos: inclusive, outro dia, me deparei com um texto seu na internet, que encontrei por acaso googlando seu nome. Eu sei, é uma mentira deslavada, porque tenho o pensamento e mesmo o subconsciente obstinados em você. Aquelas suas palavras foram suficientes (como se necessárias) para recriarem na minha alma a sua imagem embrulhada em um robe de seda branco em certa quinta-feira de primavera: era o início de uma terna primavera de ano bissexto! Embora fosse só o princípio, você já se expandia pelo seu apartamento nova-iorquino, como se fosse, por si só, um campo todo de girassóis em que eu queria me espalhar também como abelhas em pinturas de Van Gogh.

– Formidável a sua lembrança! Mas absolutamente distante de ser uma calamidade… não era esse o seu tema do dia?

– Ivy: tenho respirado e me alimentado dos ecos e sombras daquele nosso namorisco. Ai de mim! E, como se não bastasse todo o meu empenho para tentá-la esquecer, de repente descubro (ou confirmo) que me transformei em um personagem da sua vida, blog, livro – sei lá o que é isso?! Não era suficiente todo o resto? Confesso que já nem sei se sou de carne e sangue ou se feito de letras: das suas letras manuscritas ou digitadas desse seu jeito amalucado num celular qualquer quando lhe baixa sei lá qual entidade! Eu próprio às vezes chego a acreditar em algumas passagens do seu blog em que nós dois contracenamos, como se tivesse vivido aquelas situações! Ivy, com isso, estou perdendo minhas bordas entre o ser Eu e o ser Seu Personagem! Nem sei quem eu sou ou desejo ser. Abelardo? Caetano? Manuel?

– E o quê você pretende? Quem você afinal quer ser? Deseja que eu incendeie os manuscritos do meu livro? Que apague os posts do meu blog? Ora! Seja razoável: quem você acha que reviraria meia dúzia das minhas entrelinhas em busca de algum sinal que, apenas em um regime qualquer, poderia ser condenável? Aliás, é condenável amar alguém? Escrevo ou imagino heresias sobre nós?

– Minha Doutorinha Ivy Heloisa: a sociedade seria provavelmente impiedosa com o nosso amor. Sempre procurei me manter alheio aos jogos amorosos, mas continuo inflamado por você! Não podemos ser amantes nem mesmo de um amor secreto, sabe bem disso. Nem como personagens! Os amantes cuidam tanto de fingir que não se amam que acabam caindo na contradição de serem os mais descuidados! Não podemos continuar a nos ver ou mesmo a inventar encontros e poemas furtivos. Há tanta impropriedade nisso! Só que agora já não somos só você e eu e o seu apartamento nova-iorquino como testemunhas: há mais de milhares de leitores observando, torcendo e fazendo suposições sobre nós dois ou sobre eles personagens (quem são eles?). Sei lá se não há até algum personagem da sua vida real que cuja trajetória estou abalroando nessa minha corrida até você.

– Exagerado! Eles não conhecem todos os símbolos.

– Minha Estrela… Não seria razoável dizer que lamento a nossa sorte. Reafirmo meu amor por você a cada pensamento que produzo. As volúpias que experimentamos foram tão ternas que nem em meus sonhos me poupo das nossas memórias. E quando eu – logo eu, ateu!! – talvez deveria me penitenciar pelos nossos desvios, é justamente quando suspiro de dor por não tê-la da forma como gostaria. Como me acaricia a alma ver com que carinho e riqueza você entesourou cada detalhe dos nossos descaminhos, a ponto de escrever um livro sobre eles. “O livro dos nossos pecados”, seria esse o nome?

– Um livro manuelino no sentido mais ingênuo: de um amor que deveria ter sido, mas não foi.

– Não seja simplista! Isso sim é uma fidedigna calamidade!

– E o que sugere para revertermos essa má sorte? Que eu fuja vestida de monja, contigo em trajes de padre rumo as terras da sua irmã? Você sabe que não precisamos de matrimônio nem de bem casados! Nossos encontros já são tão doces e exóticos… parecem trufas de cupuaçu.

– Minha Estrelinha: não posso extirpar da minha alma esse nosso amor que, ainda que possa machucar um e outro, é de intenções puras. Por isso o meu lamento e a minha calamidade: nosso relacionamento é um tortuoso labirinto de Creta.

– Extirpar não iremos… Sobrou muita coisa. Lembra daquele poema do Drummond? “De tudo ficou um pouco. Do meu medo. Do teu asco. Dos gritos gagos. Da rosa ficou um pouco”. Mas eu sou Ivy Hera, a mulher de Zeus, a deusa dos deuses. Devo ter qualquer serventia pra abrir alguma passagem nesse labirinto.

– Esse poema não, Ivy Heloisa! Não sobraram só resíduos por você. Nosso amor viverá eternamente como as cartas e os amores de Abelardo e Heloisa. Ler seus textos depois de tanto tempo foi como ter os seus lábios na ponta dos meus dedos enquanto lhe oferecia morangos molhados na Nutella. Suas palavras ainda me fazem, mesmo que naquele mundo aliciano e despossível que você me fez supor existir, acreditar que nós somos. E somos… apesar de não podermos. Aqueles nossos encontros, ocorridos nesses lugares mágicos e místicos que você proporciona para que matemos nossas saudades e despertemos a curiosidade dos seus leitores, escancaram a fragilidade dos meu ser: um homem decidido, mas totalmente dividido, um cérebro dominado por um coração trepidante que ecoa em seus neurônios as três enigmáticas letrinhas do seu nome. I-V-Y. Minha Ivy Heloisa. Minha Estrela da Manhã. Eu quero ter você, mas preciso tomar tanta coragem cada vez que tenho ímpetos de vir correndo dizer aquelas coisas manuelinas que lhe fazem desfalecer…

– Mas se você é Caetano Abelardo, pretende que levemos o mesmo fim daquele que lhe precede? Que nossa união seja concretizada apenas no túmulo? E ainda tendo de passar por uma mutilação até chegar o dia em que descansaremos desse labirinto de sentimentos e perseguições?

– Não! Por isso você é Hera! Minha deusa! Minha Estrela!

– Sendo assim… não aceito esse seu discurso de calamidade. A nossa história é muito representativa para não ser verdadeira, mesmo que seja em algum plano místico…

– Ivy, você não está entendendo…

– Não… Se “de tudo fica um pouco, Se até de Abelardo ficou… Por que não ficaria um pouco de mim? “

– Ivy!!! Eu também quero escrever um livro de amor. Mas veja quanto infortúnio! Eu continuo contraditório: sendo aquele que te impõe me esquecer, e proíbe você mesma de me amar, mas que se dói com a tua lembrança e infringe os próprios deveres. Você precisa entender a minha calamidade, Ivy! Você que tanto escreve, que tanto imagina, que tanto cria, me diz: como sairemos desse labirinto (realidade e ficção) e que rumo daremos ao próximo capítulo dos nossos livros – nas vidas e nos livros?! Não quero que o nosso livro conjunto seja de calamidades, mas é urgente a reescrita desse novo capítulo da nossa história.

– Caetano Abelardo: meus personagens ganham vida e são subordinados aos meus desejos na minha imaginação. Contra isso não há o que fazer. Seu personagem já me pretende demais a você. Mas, saltando os muros da ficção, se o seu enredo for mais interessante e o objetivo for justo, deixe de lado o personagem e assuma suas calamidades. Enfrentar adversidades fortalece o indivíduo. De repente, podemos deixar Abelardo, Manuel e Carlos em outro patamar e registrar a história de nós dois de alguma outra forma. Nossa. Talvez com poucas calamidades. Eu sei que você volta e meia tenta me matar acordado em pensamento, mas que me ama, tanto nos seus pensamentos quanto nos seus sonhos. O seu amor por mim é o meu melhor enredo para a vida.

(Ivy Cassa)

(Portas Abertas)

#portasabertas #portasabertasivycassa #autoficção #literatura #cronica #abelardo #heloisa #abelardoeheloisa #leitorenamorado #calamidadesdoleitorenamorado #calamidadesdeleitor #amordificil

As manias de Tia Dinorah

Tia Dinorah é daquelas pessoas que têm chiliques quando alguém joga migalhas de pão dentro da pia da sua cozinha, “que não é lixeira nem refeitório pra pombos”. Tem piripaques quando vê grãos de arroz caídos do prato de qualquer visita em cima da toalha de mesa.

Tia Dinorah gosta de comentar eventos aleatórios durante os jogos de futebol. No último jogo do Brasil na Copa, ela competiu de maneira acirrada e desleal com o Galvão Bueno – justo com ele! – sobre quem falava mais durante o jogo. E ela venceu. Passei aqueles 90 minutos sem saber se o Arnaldo César Coelho estava ali ao lado, se tinha mesmo sido pênalti ou como seriam os próximos capítulos da nova novela das 7, porque Tia Dinorah se pôs a contar nos mínimos detalhes como havia sido a quermesse da Igreja do bairro, desde o concurso da Miss caipirinha até as bombas de chocolate com baunilha do Seu Paulo Conchas, que na verdade só se chamava Paulo, mas a Tia Dinorah botava o Conchas ao lado para que eu não esquecesse que ele era o que vendia conchiglione recheado com 4 queijos, que ela só comprava quando vinha visita “mais ou menos” em casa.

Tia Dinorah não gosta de investir na poupança, em fundos de investimento ou na Bolsa. O negócio dela é guardar dinheiro no sutiã.

– Você descostura um sutiã velho e coloca o dinheiro dentro do bojo. Mas, se for viajar, não esquece de colocar os sutiãs no cofre do hotel!

Nem adianta falar com ela sobre desvalorização de moeda e que ninguém mais usa dinheiro em espécie. Tia Dinorah não tem jeito.

Ela conta religiosamente os azulejos da cozinha enquanto almoça sobre o balcão calçando os chinelos só pela metade dos pés, mas sempre se perde na conta das Ave-Marias do terço das dez da noite, porque é a hora em que o casal que mora no apartamento 115 aproveita para mandar ver e o barulho confunde qualquer um.

– Vivi! Parece aqueles filmes que passam de madrugada nos canais que os moços solteiros assistem, sabe? – Tia Dinorah cochichou, colocando a mão na frente da boca, como se os vizinhos pudessem ouvir. Você precisava arranjar alguém assim, como o do 115, completava: bem disposto!

A frustração de Tia Dinorah era eu ter ficado viúva tão cedo.

– De um homem tão distinto! O raio não cai duas vezes no mesmo lugar! – ela alertava.

Para ajudar, Tia Dinorah fazia uma novena diária por mim, que eu nunca soube se não termina porque ela perde as contas dos dias ou se porque o Santo não tem se empenhado mesmo.

– Vem mais cedo semana que vem que tem reunião de condomínio!

– Mas tia, eu não vou nem às do prédio em que eu mesma moro!

– Vou fazer sopa de beteRRaba! – Ela apelou apertando os RR. E o sobrinho do seu RRomeu vai secretariar! Ela, afinal, confidenciou.

O sonho de Tia Dinorah era dar um fim ao meu estado civil de viúva com qualquer parente do Seu RRomeu – “um homem tão bom, foi gerente da Garbo por 30 anos! Não é pra qualquer um. Aquilo era muito estilo, muita RResponsabilidade!” A conversa sempre começava do mesmo jeito:

– Descobri um sobrinho / neto / primo de 5o grau dele que você precisa conhecer. Tão bonito de RRosto!

Era o sinal! Um brucutu de corpo, mas se salvavam um ou dois dentes inteiros.

Dessa vez, o alerta veio em letras garrafais:

– Tão bonito de alma!

Ai, meu Deus! Nem o rosto devia se salvar!

O sobrinho do seu Romeu tinha um nome impronunciável até mesmo para mim, que fui agraciada com uma sopa de letras pela minha mãe.

Tia Dinorah logo convidou o rapaz secretário de reunião de condomínio do capeta para tomar a tal sopa de beteRRaba com a gente.

Ele ria como um castor. Tinha cara de castor. Tinha o corpo de castor. Ele era um castor secretário de reuniões do condomínio.

– Você aceita uma vodka RRussa? Perguntou tia Dinorah.

– Não, tia!!! Dei aquela olhada fatal.

Já era tarde. O castor subiu pra “salgar o galo”, nas palavras dele mesmo.

– Vivi, serve a vodka pra ele enquanto eu esquento a sopa.

Abri o freezer e peguei a cubeta. Quando entortei pra virar no copo, caiu uma pedra de gelo com um mini Santo encapsulado dentro.

– Que é isso, tia? – me assustei!

– Ai, meu Santo Antônio!! Volta ele pra lá que só sai quando as “coisas” se resolverem.

Olhei meio desconsolada o pobre Santo congelado sabe-se desde quando e para o castor chupando a sopa de beteRRaba na mesa por entre os dentes, fazendo barulho.

– Tia. Eu acho que vou embora… sabe… nada pessoal, mas eu não gosto muito de homens que usam camisa cor de vinho… de manga curta… com calça marrom, meia branca e sapato preto. Acho que a gente não combina a respeito de moda.

Tia Dinorah concordou em parte. Ele não devia ter aprendido a se vestir com o tio RRomeu. 30 anos de Garbo! Tanto estilo! Mas não me deixou partir:

– Vou servir umas toRRadinnhas! Fique.

Mas o destino se encarregou de providenciar a gota d’água quando o castor pegou o prato todo migalhento e se pôs a espanar dentro da pia. Ah, não!! Foi só o tempo de esperar o chilique de Tia Dinorah e a visita se tocar de partir. Com um chilique daqueles, quem não iria?

– Tia! Vamos combinar uma coisa? Eu tou bem assim… não precisa me apresentar mais nenhum parente do Seu Romeu. Eu estou inclusive com alguns “projetos entabulados”, percebe?

– Sabe o que é, Vivi?! Ela olhou para um lado e para o outro, e segredou, com as mãos na frente da boca: eu queria um jeitinho de me aproximar do seu RRomeu. Um homem tão distinto! 30 anos de Garbo!

(Ivy Cassa)

#autoficcao #crônica #literatura #portasabertas #portasabertasivycassa #ivycassa #tiadinorah #mania #maniadetia

Uma mensagem de amor

Baita sorte você passar por aqui justo hoje, hein?! Acredita que sonhei com você no sábado? Parecia até um anúncio do universo. Aposto que você é capaz de desenvolver uma teoria Junguiana pra justificar a sua visita.

Ah, foi sem motivo… entendi.

Da minha parte? Eu só precisava fazer uma reunião em um cliente que fica aqui no bairro; foi o trabalho de ajustar o horário pra esse encontro dar certo. Lógico que não mudei minha agenda apenas porque você me ligou… Tá se achando o Príncipe Harry agora, né? – mas ele era único e já está casado. Se bem que você também… Deixa pra lá! E pelo que me conhece, você deve imaginar que ele não fazia muito meu tipo… não me parece ser daqueles que declamam poemas no tapete da sala pras suas musas. Não faça esse sorriso malandro de “então eu sou melhor que ele”. Foi só uma comparação besta.

Aceita uma taça de vinho? É aquele que você gosta. Por acaso tinha aqui na geladeira, olha que coincidência! Vou colocar uma musiquinha pra descontrair. Ah! Veja o que é o destino dando uma mãozinha: você lembra dessa do Leo Jaime? “Nada me resta a não ser a vontade de te encontrar, o motivo eu já nem sei”… Você cantou pra mim assim que começamos a nos “enamorar”. Sincronicidade? Ai, você ainda com essas viagens Junguianas! Mais uma! A música tava aí numa playlist qualquer do meu Iphone… só falta dizer que eu ainda tive tempo de ontem pra hoje pra armar a trilha sonora pra essa sua visita de última hora!

Ah, obrigada, você reparou na minha roupa… é um vestidinho bem simples, comprei numa viagem qualquer a Nova York, daquelas que fiz depois de você… Não pra ESQUECER VOCÊ… foi uma viagem corriqueira, só isso. Fiz muitas delas. Não chame de fugas, foram passeios arejadores de mente e coração. Esse vestido, por exemplo, uso em casa, feito pijama, sabe?

Por que meu cabelo tá arrumado? Não tá! Você que tá por fora da moda… Hoje em dia a gente acorda e, enquanto escova os dentes com a mão direita, já faz babyliss com a esquerda. Até pra fazer faxina. Tá, eu sei que não faço muuuita faxina aqui em casa, mas pra botar o lixo pra fora, a roupa na máquina..

Maquiagem profissional?! Hahaha! Cada ideia!! Cê tá reparando MESMO em mim! Óbvio que eu não fiz uma só porque você vinha aqui! Eu… praticamente acordo assim. Esqueceu? Só passei um batonzinho e um rímel incolor. Você gostou? Ah… Não tou vermelha. É o vinho. Duas taças pra gente ficar “imunizado” – lembra como você falava? Mas só vamos tomar uma hoje…

O tempo também fez bem pra você! Tá vendo? Sinal de que não era mesmo pra termos ficado juntos… Não, não tou falando da boca pra fora. Emagreci um pouco, é verdade. Ginástica, zumba, ballet! Você também podia fazer. Eu sei que você corre no parque – que dias da semana mesmo? Não que eu tenha ido alguma vez ao Villa Lobos tentando “stalkear” você ao vivo…! Claro que não! Mas… voltando à corrida… a idade chega pra todo mundo, né? – especialmente pra você que tem mais de década que eu. Hahaha! Desculpa, eu não podia perder a chance de te dar uma alfinetadinha. Já perdi o namorado mesmo. Não tou reclamando do seu corpo… Sempre achei você charmoso e você está tão… tão… ufa! Isso não é uma cantada!

Mentira que minhas pupilas estão dilatadas olhando pra você! Ups! Caiu um pouco de vinho na minha coxa. Deixa eu pegar um pano. Tira a mão! Eu trato disso.

Não, nada a ver eu ter emagrecido porque fiquei deprimida depois que paramos de nos ver… se for assim, você deu uma engordadinha de saudades de mim? Deu? Ah. Bom… sabe que saudades também emagrecem, né? Digo… não que tenha sido meu caso. O importante é que eu me reinventei depois da nossa história e imagino que tenha feito o mesmo. Como? Fiz de tudo… Terapia, igreja, remédio, viagem, vinho, chocolate, personal trainer, yoga… tá, yoga é mentira. Você sabe que sou um pouquinho acelerada pra essa coisa de respirar em 4 etapas… É, continuo! Só não fui pras drogas ilícitas e nem pros rituais xamânicos.

Já se passaram duas primaveras! Duas primaveras sem flores! Achou poético? Não… poeta é você… eu sou só uma apaixonada. Uma pretensa escritora, quero dizer. Enfim! Ah, e teve o meu grande projeto desses últimos tempos: o meu livro… Não! Nada jurídico! É um livro sobre a minha vida. Você lembra? Ok, foi uma pergunta retórica. Eu sei que você lembra de uma porção de coisas, como ia esquecer justo disso, logo você que foi o meu primeiro leitor? Só aposto que não botava fé que eu iria adiante. Ai, como você está cada dia mais metido! Não… não foi um livro SOBRE você. Tá doido? Tou falando de 300 páginas! Quantas dessas sobre você? Ah! Espera publicar e lê, ué!

O coração? Vai muito bem, apesar do nosso último encontro ter sido no hospital por causa dele. Até arranjei um namorado nesse tempo. Um não: uma dúzia! Tá bom. Não quer que eu fale, não falo: eu sei que você me stalkeia. Ah, tá! Vai dizer que aqueles seus colegas de repartição que eu nunca vi na vida ficaram meus amigos nas redes sociais a troco de quê mesmo? Ahã…

Se eu me apaixonei por algum desses namorados que inventei? Digo… que eu tive? Acho que isso não vem ao caso, vem? Quer falar da sua vida amorosa? Eu sei que não. Também não quero saber. Tá, talvez não tenha sido uma dúzia. Importa? Se eram melhores que você? Hahaha! Adoro homem querendo confete!

Foram namorados daquele tipo que a gente precisa colocar no lugar do outro pra não ficar doida. Por quê eu continuo doida? Hahaha!

Eles foram bons o suficiente pra eu NUNCA mais querer receber homem algum aqui em casa, entende? Jamais mudarei radicalmente a agenda por um homem, criarei uma playlist de músicas românticas, escolherei o melhor vestido do armário, chamarei a cabeleireira e o maquiador logo cedo em domicílio e ficarei esperando o amor da vida com a garrafa do seu vinho predileto. Nunca mais!

Ei, você já reparou que parece que essa música do Leo Jaime tá no modo “repetição” do meu Iphone…? “Nada me move nem me faz parar”.

Você não se importa? Quer dançar?

Mais uma taça de vinho? Agora imunizou!

O quê??

Fala no meu ouvido…

Você não precisa ler o manuscrito do meu livro. Tá bem aqui nos meus lábios a mensagem de amor que você veio ler no meu rosto.

(Ivy Cassa)

(Portas Abertas)

#ivycassa #ivycassaportasabertas #portasabertasivycassa #portasabertas #literatura #autoficção #mensagemdeamor #amor

O leitor enamorado

“É só meu o teu livro; guarda-o bem;

Nele floresce o nosso casto amor

Nascido nesse dia em que o destino

Uniu o teu olhar à minha dor”

(Florbela Espanca)

Meu leitor enamorado compreende a necessidade de haver um dia no ano para que se celebre o amor. Ele não repete o clichê de que “dia 12 de junho é mera data comercial”. É capaz de ainda protestar: um único dia é muito pouco para um amor tão grande assim!

Meu leitor enamorado talvez ainda esteja se acostumando com os sentimentos desta autora, o que é até compreensível em se tratando de um leitor que se transforma em personagem ou vice-versa.

Meu querido leitor: hoje – mas tomara que não só – vamos saudar o fervor do amor de Borges em contraste com o friozinho de Buenos Aires, ou até mesmo de Paris naqueles dias de janeiro? Pode ser que pouco importe estarmos à Beira do Rio da Prata ou do Sena. Quando se ama e é correspondido, a vida pode virar baile em qualquer esquina. Venha: em seis tempos, como em um tango, mas se a gente se enganar é só fingir que era cancan e cair na gargalhada. Essa sempre foi a melhor parte, não? Você próprio assumiu que ri fácil do meu riso. Mais alguma coisa em mim lhe faz rir? Hoje quero passar cada minuto sentindo a sua barba mal feita espetada em verdadeiro paradoxo na penugem da minha nuca. E, no fim do dia, lhe batizar com o nome do personagem de um conto que estou escrevendo sobre nós dois. Aqui de dentro das suas mãos, o mundo em que meus dedos deslizam é tão macio que parece o meu cobertorzinho de pelúcia. E já lhe falei que tenho especial predileção pelas zebrinhas que se formam nas paredes do meu quarto quando grudo os olhos nos seus e vejo o mundo através dos seus cílios? E que o tapete peludo da minha sala de TV se amarra na pegada do seu pé, como se um urso tivesse pisoteado a neve a caminho do sofá cinza?

Aí chega o Drummond e fala que o amor bate na porta. Toc toc.

A porta do meu apartamento zomba do meu leitor enamorado um tanto perdido.

– E quando é que ele vai começar a entender? – Ela me pergunta.

– Acho que nunca! – Respondi meio desanimada. Eu falo de amores e de ilusões, mas esse leitor enamorado é um pouco biruta.

E a porta retruca:

– Ivy, biruta é você! Porque até eu que sou a porta de Drummond vejo aqui no abrir e fechar coisas que não ouso compreender.

Meu querido leitor enamorado me desperta uma ansiedade que dilacera o coração. Amor crepuscular não devia ser para calar! Ainda mais uma amante como eu.

– Ai, porta! Acho que você tem razão. Não tenho paciência pra isso não. Metade de mim é amor, outra metade é Rivotril, e as nossas almas manuelinas andam tão incomunicáveis…

– Ei, leitor, venha aqui! Nossos corpos se entendem, deixe a alma hoje pra lá! Venha! É hora da arte de amar. É dia de amar. É dia 12 de junho, mas também poderia ser qualquer outro. Você pode vir quando quiser, claro! Eu te amo.

– Ivy. Você é engraçada. Você parece uma lagarta listada.

– Do ponto de vista dos seus cílios ou dos meus?

– Nem de um nem de outro… Ivy, você parece louca. Mas… você quer ser a minha namorada?

– Ai, Manuel!!!

– Não sou Manuel, sou Borges. Você está me confundindo.

– Leitor… se você for embora de novo, a sua ausência fará ciranda de arame farpado no meu pescoço. Veja: eu já comprei até um vaso de primavera cor de cereja pra ver se trazia alegria pra varanda de casa. Só que o vaso teima em tombar. Me lembra aquele quadro de Magritte, a “Girafa Triste”, que eu vi no museu em Paris. Eu às vezes sou a própria girafa triste. Nem sei se por causa de você ou se por um monte de coisas. Mas aquele pequeno vaso morre todo dia um tantinho ali na varanda feito eu, que nem à varanda mais tenho ido, e sequer uso batons cor de cereja.

– Ivy… você está arrependida?

– De ter amado? Naaaao!! É um amor tão grande que…

– Mas o amor é a véspera do escarro. Ou seria o beijo?

– “Os remos já caíram na água?”

– Ainda não.

– “Eu sou aquela de quem tens saudades.” Sente aqui do meu lado. É só o meu livro. Vamos celebrar.

– É só o dia 12. Uma data comercial.

– Não diz isso! Meus personagens não falam assim!

– Ele fechou a porta porque falou que “o amor batia na aorta.”

– Carlos?

Ele fez sinal de silêncio e andou em minha direção, com os pés afundando sobre o tapete. E nem havia neve no meio da minha sala!

– “Há tanta suavidade em nada se dizer.” Completou. – e mergulhou de volta dentro do livro, sem dizer mais nada.

Drummond depois disse que viu o amor se estrepar, mas eu sei que ele viu foi nossos beijos se beijarem antes de virar a última página do livro.

Ivy Cassa

(Portas Abertas)

#ivycassa #portasabertas #portasabertasivycassa #autoficção #literatura #leitorenamorado #poesia #diadosnamorados

Postal de Paris pra Tia Dinorah

Oi, tia!

Há tanto tempo não mando um postal que já nem sei se começo com bom dia, boa tarde ou boa noite.

Já faz uns tantos dias que iniciei essa fuga para Paris e posso dizer com alguma propriedade: não foi à toa que Neruda, Sartre, Beauvoir, Hemingway e tantas outras personalidades se abrigaram aqui para escrever. Paris é uma festa, ao mesmo tempo em que tem um tanto de lamúria. Tudo depende do que se escoher para beber: champanhe, vinho tinto ou conhaque.

E digo isso porque, nas noites mais frias, não tem jeito, viu, tia: um cálice de qualquer coisa é o melhor (quando não o único) amigo. Nem venha me falar sobre o tal do cobertor de orelha, que isso já não existe mais. Bom, na verdade, eu até vim pra Paris tentando esquecer essas bobagens. Vou te contar como tudo começou:

Eu, que nunca fui de tomar café, (você sabe que sempre sofri com refluxo do esôfago), dei pra tomar uma xicrinha ao amanhecer nos meus útimos meses de Brasil. Nem sei explicar se por causa da cafeína pra dar alguma energia, ou se por culpa da Marisa Monte. O problema todo é aquela música: “Todo dia de manhã enquanto eu tomo o meu café amargo… Ainda boto fé de um dia ter ao meu lado”. Entende, tia?

Precisei vir pra Pa-ris! Tentar parar de tomar café. Digo. Parar de ouvir Marisa. Ou… parar de pensar em Caetano.

Mas, às vezes, a cura vem pelo distanciamento. Ou a estratégia de inventar alguém pra colocar no lugar do outro. Algum dia ainda vai dar certo! Veja só o que me aconteceu.

Conheci um rapaz de Java. Java, tia!! Qual a chance disso acontecer? Tá, eu sei que eles estão estratégica e perigosamente espalhados pela Europa… eu mesma já tinha conhecido alguns em outras partes e até por isso já carregava comigo o sinal de PERIGO!! Aquele mesmo alerta que a mamãe e a senhora ensinaram desde cedo: não entre em carro de estranhos nem aceite balas (a não ser que seja de Uber). E não se meta com caras de Java, porque eles são criaturas mitológicas, lendárias, feito o Boto da Amazônia.

Os homens de Java são os Homo Erectus Erectus, pra começo de conversa. Tia… desculpe a franqueza, mas os homens de hoje nem erectus são!!! Você acredita que Viagra e Cialis passaram a fazer parte daquela minha necessaire dos comprimidinhos básicos? É, Dramin, Aspirina, Dorflex, Gelmax… Viagra e Cialis! Tia, porque ele nem carregam o próprio arsenal! Chegam cheios de banca, como se fossem capaz de povoar o mundo e… “ah, fica pra outra vez. Vamos jogar paciência? Candy Crush?” “Mas com esta camisola da Victoria´s Secret que paguei 200 dólares???”

Só que os homens de Java definitivamente são diferenciados. Tia, a gente se conheceu no café da manhã, enquanto eu pegava um pain au chocolat que eu mal enxergava – não pela falta de óculos, mas pela cortina de sono que semicerrava meus olhos àquela hora da matina. A sala de café estava cheia e ele pediu pra dividir a mesa comigo. Achei engraçado aquele sotaquele de Java e concordei. Quando dei por mim, eu nem tinha pego café! Talvez, fosse o fim da era do café amargo sonhando ter Caetano ao meu lado: tudo sem planejar. Ficamos ali até acabar o horário do petit dejeuner e a sósia da Whoopy Goldberg, que cuidava do esquema da refeição, com aquelas unhas protuberantes, começar a batucar na máquina de café e a dizer que havia outros cafés na praça pra gente conhecer. Uma simpatia de moça!

Sem jeito, levantei logo da mesa e me despedi, mas ele me deixou um cartão e perguntou se eu aceitaria sair para jantar à noite.

Eu disse que a gente podia ir se falando ao longo do dia… um homem de Java!! Um homem de Java!! Eu precisava digerir aquilo. Mas, até a metade da tarde, estava decidida: eu iria!

Ah, tia! Há quantas semanas um homem não me convidava para jantar? Tá, eu sei que o Dênis me levou pra jantar outro dia – mas era no Podrão! E só acabamos indo a um bistrô mais ou menos porque eu inisiti. E ele passou o jantar reclamando dos preços do cardápio. Dizendo que comida boa era a da avó dele. Bebeu água da casa e comeu salada. Bebericou minha taça de vinho com os lábios cheios de azeite. Enfiou o garfo cheio de atum enlatado na minha polenta de funghi. E ainda avançou no meu brigadeiro de colher – brigadeiro de colher não se divide! Eu aposto que ele devia estar saindo de um período de jejum intermitente de 18h, por isso o desespero. E eu fui obrigada a deixá-lo em jejum sexual, porque, depois daquela presepada, não havia clima pra mais nada. Pra que eu o tivesse chutado da mesa, só faltou ele ter pedido um pato, o que realmente me dá aversão.

Mas o Homem de Java não. Perto da hora do jantar, ele me mandou um WhattsApp: “Bella (ai, que lindo!!), escolhi o melhor restaurante da cidade para nós.” Tia, você sabe o que significa isso? Tá, eu sei que você vai dizer que eu não preciso de convite, que volta e meia eu vou a esse tipo de restaurante, blá blá blá. É verdade. Mas eu tou falando de iniciativa. Homens de Java tomam à frente. Não fui eu quem precisou escolher o lugar ou dizer que queria comer bem. Estava implícito. Ele sabia como tratar uma mulher. Eu só precisava brilhar, escolher um casaco rosa, meias pretas, vestido, batom vermelho e o meu melhor sorriso. O resto aconteceria como mágica. Era a minha noite de cinderela.

Quando no encontramos no lobby, caía uma fina chuva, e ele prontamente se ofereceu para ir buscar um guarda-chuva para me levar até a porta do táxi. Bobagem, pensei eu. Mas me senti uma princesa escoltava por aqueles braços firmes cuidando de cada mecha do meu cabelo para que não molhasse com a garoa parisiense.

O restaurante era acolhedor. Tinha uma decoração de casa de avó rica, com lustres de antiquários ostentando lâmpadas coloridas, tapetes persas, bonecas de louça vindas das mais longínquas partes do mundo expostas em cristaleiras. Nossa mesa era discreta, ficava no fundo do salão, de frente para uma janela decorada com abajures e patos, de frente para um quintal que fazia a cidade parecer um pequeno bairro, esquecido no meio daquela imensidão. Patos. Lembrei mais uma vez da minha aversão aos bichinhos. Mortos, digo.

O garçom apareceu com os cardápios e ele prontamente escolheu o vinho. De Java, claro! Era um especialista.

– Pra comer? – perguntou.

– Eu vou querer uns camarões. E você?

– Pato. E fechou o cardápio despachando o garçom.

Não… tudo menos pato! Como é que eu ia dividir a mesa com alguém comendo pato? E se ele resolvesse me beijar depois de tudo aquilo, o que era até capaz de acontecer, e os fiapos de pato dançando na boca dele viessem invadir o meu palato? Aquilo arruinaria a noite!

Fui sutil:

– Detesto pato.

E ele, sem dar muita bola:

– Ainda bem então que você pediu o camarão. E já engatou outro assunto.

Incomodada com a situação, fui elaborando mentalmente planos para quando o prato (e o pato) chegasse. Havia entre nós uma garrafa de vinho, 2 de água, 4 taças, um vaso de flor e uma vela. De pronto, assim que o garçom chegou com os pratos, antes que ele percebesse, fiz um arranjo na mesa, de forma a construir uma muralha entre ele e eu; assim, eu não conseguiria ver o pato. Ele, quando se deu conta daquilo, se pôs a desfazer a construção: “mas o que é isso? Assim nem consigo ver você direito.” “Ah, é que eu gosto de jantar assim, mais escondida.” Inventei. “Não comigo, Ivy! Tá Louca?” Antes que ele pensasse que eu tava mesmo louca, precisei contar… Sabe quando nas empresas existe o “chinese wall”? Este é o meu duck wall…” – falei bem sem jeito.

Naquela altura, tia, quando eu achei que o encontro ia descambar, que nada!! Ele teve um ataque de riso, desculpou-se pelo pato, respeitou o meu “duck wall” e tivemos uma noite de sonho, até incluindo poemas declamados em javanês e dançamos músicas javanesas românticas pelas ruas de Paris.

Quando chegamos ao hotel, fizemos a despedida de praxe e eu, já escolada com os homens de Java, disse que a gente se via um dia, quem sabe em Java, porque… sim, eu conhecia o ritual, homens de Java não passavam a noite juntos, não se apegavam.

Foi quando ele me surpreendeu: “tá louca de novo? Só se EU fosse louco é que ia deixar de passar esta noite com você.”

Ai, tia Dinorah!! Mas pensa que foi só isso? Ele complementou: “Vou até meu quarto buscar minha necessaire e já subo para encontrar você.”

Tia! Que homem hoje em dia tem uma necessaire? Sabe o que tenho visto dos rapazes que aparecem lá em casa quando pergunto se não vão escovar os dentes? (a) não, amanhã eu escovo em casa; (b) me empresta a pasta que eu dou uma bochechadinha; (c) eu já escovei antes de sair de casa; (d) você tem chiclete? Mas nãaao, tia! Homens de Java têm uma necessaire! Eu tirei a sorte grande.

Pena que, no dia seguinte, era hora da despedida. Por coincidência ou sincronicidade, nossos voos saíam quase no mesmo horário, e do mesmo aeroporto. Seguimos juntos. nos despedimos com um abraço grudado no corpo e a promessa de que tornaríamos a nos ver – em Java, em Paris, no Brasil, em quaquer parte desse mundo.

O voo dele saiu um tantinho antes que o meu, e foi quando me dei conta que a necessaire dele tinha ficado na minha bolsa na hora da confusão de fechar as malas. Não resisti à curiosidade de ver quais era as colônias que perfumavam aquela pele, quais os segredos daquele sorriso tão branquinho. Até que encontrei uma pequena caixinha. Curiosidade já estava ali mesmo, segui em frente. Ué… uma caixa tão pequenina. Seriam comprimidos de Viagra ou de Cialis? Mas era algo que brilhava. Enfiei os dedos até o fundo da caixa: Era uma aliança de casamento. “Antonella – 28-05-03”.

Tia Dinorah, como pode perceber, isso não é mais um postal, é uma carta longa Voltairiana, porque não tive tempo de escrever uma carta curta.

Tia, Paris à vezes é uma festa, mas esses dias eu venho tomando conhaque. Com café.

Hoje é 14 de maio de 2018. Aniversário de mamãe. Aniversário de Caetano. Não é fácil. É estranho.

(Ivy Cassa)

#ivycassa #portasabertas #portasabertasivycassa #autoficção

A mãe e a mãe da mãe

A minha mãe virou mãe aos 33 anos de idade.

Por uma dessas coincidências numéricas – não sei se Jung explicaria -, foi 33 anos depois que eu fiquei viúva, que ela ficou viúva, e que, por conta disso tudo, eu virei mãe. Mãe dela.

– Mãe, voce precisa se cuidar! O que fizer por si mesma, estará fazendo por mim. No mínimo 20 minutos de esteira por dia – todo dia, né mãe! 20 minutos em seguida, mãe. Não adianta fazer 5, vai até a cozinha comer bolo, mais 5, bota roupa na máquina… são 20 num tiro só. Passo de quem tá andando na praça da Sé, e não andando na procissão!

– Mãe, olha esse prato! Ou é pão, ou é batata, ou é macarrão… escolhe! Num dá pra fazer orgia dos carboidratos.

– Mãe, PRECISA colocar açúcar no café? E no chá? Não, mãe… eu sei que de amarga já basta a vida, mas deixa as calorias pra outras coisas mais gostosas!

– Mãe! Você já viu QUANTO sal tem no seu prato? Mais um pouco e o garçom vai trazer alho e pimenta, achando que você tá fazendo macumba!

– Mãe, hoje a gente vai tomar espumante no café da manhã. É, vai! Tamos de férias! Tim tim!

– Mãe, bebe mais rápido, né! Já tou quase enxergando uma larva de aedes aegypti nessa taça.

– Mãe, claro que vai comer esse canolli antes do almoço! Sabe quando a gente vai voltar pra Palermo? Sei lá eu!! Dane-se o almoço, bota isso pra dentro!

– Mãe, precisa fazer os exames de rotina, já fez? Mãe, rotina é todo ano, não a cada 15 anos! A Dra. Veneranda? Mãe, eu aposto que ela já abotoou o tubinho de madeira faz tempo! Você não a vê desde que ela fez o MEU parto – e ela já era velha. Vou te passar o contato da minha médica, a Dra. Mônica. Mãe, você foi lá? Só marcar a consulta e andar com os exames na bolsa não adianta. Mãe, a Dra. Mônica fala pra toda paciente que a gente tá linda e saudável! Agora VAI FAZER OS EXAMES!

– Mãe, quem foi que te destratou na clínica? Aquela enfermeira morena? Pois amanhã na hora do almoço eu vou até lá pra gente resolver isso. Quero ver ela repetir o que falou pra você na minha frente.

– Mãe, a dona da clínica mandou avisar que vai te indenizar pelo “incidente”.

– Mãe, passei pela banca de jornal e, adivinha: comprei Luluzinhas pra vc!

– Mãe trouxe presentes de viagem pra você: o pijama do Pato Donald, umas meias do Mickey, chocolates Lindt, umas galochas e um casaco corta vento. Mãe, tooodo mundo precisa de galochas! Claro! Pra saltar nas poças de água! Eu sei que o casaco é meio volumoso, mas é necessário.

– Mãe, já tomou as 20 gotinhas do Previgrip? As da tarde! São 20 por período do dia, vai! E a vitamina C?

– Mãe, fica sentadinha aí nesse café que eu vou demorar na loja. Mas não coloca muito açúcar no café! Não, mãe! Eu não sei quanto tempo vou demorar. A princípio, eu só vou comprar um massageador elétrico, mas pode ser que no caminho eu descubra outras coisas que esteja precisando.

– Mãe, veja que maravilha esses lençóis de 500 fios egípcios! E essas pantufas de unicórnios! Essas taças de cristal. Como eu vou carregar? Na mão, ué! Junto com essas lâmpadas pra varanda. Comprei esse casaco de pele pra você! É sintético, ecológico! Eu sei que você já tem um, mas assim pode sair com outro nas fotos do Instagram! Ah!! E mais esse tênis de macaquinho! Que combina… tcharans!! Com o meu de coelhinho!

– Mãe, esse tipo Clarck Gable aí do seu Facebook tá a fim de você. Claro, mãe!! Já viu o horário que ele te dá as curtidas? Os comentários? Ele tá te stalkeando!

– Mãe, você precisa de fotos novas pro facebook. Assim, vai andando e vira pra mim, tipo sensualizando, sabe? Não, mãe! A cabeça pra cá. Esconde essa mão. “Arreta” a coluna. Barriga pra dentro. Andou! Mãe!! Mãe!! Tropeçou?? Machucou??

– Mãe, hoje eu vou te ensinar a fazer Boomerang com as fotos. É, você pega uma coisa que se mexe, tira, ela vem e vai, como se fosse mesmo um Boomerang. Não, mãe… não adianta fazer Boomerang da lua… 🙄

– Alô. Mãe…? É. Tou meio murchinha hoje… sei lá. Tem dias em que fico mesmo… Acho que tou com cólica, dor na vida… Tá, qualquer coisa eu ligo.

Campainha.

– Oi, mãe!! Que bom que você veio! Sopa de grão de bico! E sem carboidratos!! Tomate em cubos! Água de coco! Pitaya picadinha! O livro novo da Tati Bernardi! Obrigada, mãe!! ❤️

(Por Ivy Cassa)