Tenho saudade daquela amiga que entendia as minhas incoerências.

Vibrava ao mínimo sinal de vida daquele que se calhar não merecia vibração alguma.

Que parava o que estava fazendo para ler as entrelinhas dos prints das mensagens trocadas com meus embustes e até do silêncio ruidoso das não respostas.

Numa noite manhosa, me peguei num estado em que só ela entenderia e, depois de jorrar as lágrimas confusas, aposto que ela encerraria a conversa com um “mas isso é porque vocês se amam”.

Saudade daquela vez que peguei um avião escondido dela para, pela 37a vez, tentar me acertar com um que ela no fundo não topava, mas nem por isso deixou de torcer quando o próprio quase namorado lhe mandou nossa foto agarradinhos no aeroporto, com a promessa de que “agora era pra valer”.

Ela sabia que não era, mas não jogou um balde de água fria. Nem me crucificou quando peguei outro avião sozinha na metade da viagem porque com ele definitivamente não dava.

Ela não recriminava meus pequenos deslizes, minhas ilusões amorosas e jamais me deixou partir sem um: “vai dar tudo certo entre vocês”. Por mais que soubéssemos no fundo e no raso que era uma mentira deslavada na forma de carícia. Que não se larga ninguém apaixonada sem um sonho, a não ser que isso coloque a amiga em risco.

Senti saudades de ligar só pra dizer que ele não tinha mais nada a ver comigo, nem com ele mesmo. Perguntar como Caetano se transformou em Clodovil e como devo digerir essa informação. Se eu devo vomitar o passado ou apenas continuar caminhando pela minha escrita, já que o personagem sempre foi mais interessante que a fonte de inspiração. Que a sombra continua sendo de Caetano e Clodovil não faz parte do meu romance.

Deu também vontade de rir disso tudo, mas rir sozinha é às vezes triste.

Muita coisa mudou. A amiga partiu sem bilhete de adeus. Talvez, porque não fosse a amiga que eu idealizei.

Novas amigas vieram, mas elas nunca entenderão nem o que significa Caetano, seja como personagem seja como gente, nem minha estranha atração pelo pseudo namorado com quem acabei rompendo 38 vezes. Acho que eu também não entendo, por mais que me analise, leia, releia, ouça, reviva histórias por meio de fotos e mensagens.

As novas amigas, nesse aspecto, talvez sejam mais sábias. A indiferença ao ouvir um “Caetano isso”, “fulano aquilo” devem ser fruto da personificação de uma espécie de São Pedro da porta da sabedoria, por onde se atravessa e deixa o que não serve mais num depósito atulhado de erros cometidos.

Mas, especificamente neste momento, confesso que deixaria nossas rusgas por breves minutos só pra dizer: “sabe Caetano?” E receber em troca uma enxurrada de conjecturas que provavelmente terminariam em: “mas o Clodovil também te ama”. E eu passaria a amar Clodovil como se Caetano nada fosse.

E depois voltaria às novas amigas e discutiríamos sobre vacinas, vírus, seriados, política, sobre a chuva e o tédio. E talvez sobre os novos pretendentes – nem tão ricos nas características como meus antigos personagens, mas mais adequados ao livro da vida de um período de pobreza amorosa. Ou, quiçá, numa visão mais positiva, de um livro em branco que iniciaria com um: “a gente se ama!”

Por Ivy Cassa