Para quem acredita em astrologia, diria que minha cautela com o mês tem a ver com o meu inferno astral – fui inventar de nascer em janeiro.

Para os consultores freelancers da área jurídica, é hora de reverenciar alguma entidade mística ou religiosa quando um cliente pede um “favorzinho” de um dia para o outro, ainda que para pagar no Natal do ano que vem. Afinal, advogados não precisam de honorários, são papais e mamães noéis de ternos e tailleurs bem cortados, dispostos a dar o sangue pela grandeza de fazer trabalho pro bono pra quem não precisa e depois se afundar em dívidas natalinas.

Para os escritórios abastados, é hora de dividir os clientes em três categorias: (i) os manda-chuvas, que receberão presentes provavelmente rechaçados pelo conpliance, mas, sabe como é, pra tudo se dá um jeito; (ii) os que apitam pouco mas demandam muito e merecem uma agendinha e uma caneta que quase sempre não funciona; e (iii) os desgraçados, que com sorte serão brindados com um panetone de marca duvidosa adquiridos por um sócio rico porém mão de vaca, que acreditará que sua “boa ação natalina” fará com que sua escada ao céu tenha menos degraus do que o escorregador de gel com destino ao inferno, onde ele provavelmente merecia estar – não pelos panetones com gosto de papelão, mas pelo papelão que desempenha na sua mesquinhez.

No ano da pandemia, ainda não entendi como será a “festividade”. Tem a turma do fod@-se que já está se aglomerando sem critério e certamente não perderá a chance de se aglutinar mais um pouquinho para comprar inutilidades e “celebrar” um ano tão peculiar, de mortes, internações, confinamento e loucura. Existe a galera dos prudentes, que fará um happy hour virtual e, como nesses eventos fica difícil coordenar a participação de todos, haverá um (talvez eu) que falará por todos, um ou dois que precisarão sair para apartar uma briga familiar e uma meia dúzia ficará meio estarrecida com a minha performance em happy hours virtuais – em 2020, me reinventei: sou animadora de lives sem propósito definido. Ah! E os prudentes celebrarão as festividades sem aglomeração – acho. Talvez sem recursos também. E existe a turma que, apesar de quase um ano ter se passado da descoberta do Covid, não entendeu porr@ nenhuma. Se eu fosse papai noel, levaria tudo isso em consideração.

Olhando pelo lado bom, é provável que não será preciso, se der uma vontadezinha de comer um petisco na área externa do bar da esquina, aguentar mesas com pessoas histéricas sorteando amigo secreto como se a revelação fosse o terceiro milagre de Fátima ou, para atualizar a piada, o presente fosse a vacina contra o Covid. Ufa! Se algum dia eu resolver tomar um lanchinho aqui por perto, talvez não precise me submeter aos gritos de “Aaaaaaaah! Uma vela perfumadaaaaa!! Tudo que sempre quis. Vou até aguardar pra repassar no amigo secreto do ano que vem.” Me livrarei também do “puxa, um vale livro, que legal! Nem imaginação pra adivinhar meu gosto vc teve, vc é um poço de criatividade”. E também não precisarei assistir o show da falsidade com abraços de “ano que vem tudo vai mudar”, mesmo sabendo que nem todos que desejam isso o fazem do coração, e que os que puderem puxar o tapete do outro, farão sem pudor, amigo secreto, pandemia ou natal.

Para finalizar, outra parte boa (apesar de tudo) é que creio que não haverá karaokê (por favor, se alguém inventou o karaokê virtual, desinvente) e não precisaremos estragar a noite com os ébrios cantando de Evidências para baixo – PS: nada contra Evidências. Não precisarei simular uma gravidez psicológica para poder sair correndo da festa com o apoio dos que não querem vem o 🤢. E não será preciso passar a noite fingindo estar me divertindo horrores ao som de “Dancing Queen”, cujos passos nunca aprendi, quando na verdade tenho contato com 2 ou 3 colegas que depois de 10 minutos também já estarão fartos da festa mas farão de tudo para puxar o saco do chefe – bêbados, dançando Dancin Queen com os dedos apontados para o céu. Preciso alertar que fingir diversão sem beber (porque na festa da firma a gente se controla) é como ir à Black Friday sem dólares ou cartão de crédito. Vouyeurismo puro, e sem prazer algum. Sem falar no pânico que me dá quando todos já passaram da conta etilica e começam a fazer trenzinhos ao som de “eumatoeumatoquempegouminhacuecaprafazerpanodeprato” pelo salão. É hora de fugir – sempre tem uma tia imaginaria internada às pressas no hospital ou um zelador fantasma que ligou dizendo que o seu apartamento está inundado.

Meus dezembros sempre foram muito estranhos. Considerando que hoje é dia 3 e já está estranho pra dedéu (cabia bem um kct, mas resolvi usar uma expressão mais vintage), estou tão ou menos empolgada que nos anos passados.

Presentearei quem merece e se eu encontrar algo interessante – sou do tipo que presenteia sem data marcada, sou contra protocolos e presentes por obrigação. Não sentarei no colo do papai noel, porque aos 38 anos acho que não se faz mais isso – talvez nem com menos idade. Também porque papai noeis são grupos de risco. Mas preciso registrar que, com o passar dos anos, comecei a ver Papais Noéis com outros olhos. Pode ser a chegada ameaçadora dos 40, ou pura carência mesmo.

Mas, mesmo com o saco muito muito cheio e sem tem um Papai Noel para chamar de meu, desejarei que 2021 seja menos tudo que foi em 2020 (exceto a parte financeira). Fundamentalmente, que o saco de todos esteja menos cheio, nossos olhos com menos lágrimas, o peito menos apertado, para recomeçarmos a acreditar que sacos de felicidade ainda existem – e que precisaremos de muita força, pois Papai Noel sozinho não faz milagre.

Por Ivy Cassa