Depois de uma tarde de sábado cheia de preguiça, constatei que era preciso preparar alguma refeição. Considerando que minha geladeira tinha basicamente alho, vinho e quinua, vislumbrei pouca chance de êxito em qualquer combinação que eu pudesse fazer entre eles.

Empijamada, de banho tomado e envolta no carinho do meu cobertor preferido, registro que é bizarro, mas dar meia dúzia de passos até a esquina me fez lembrar o caminho de Santiago de Compostela. Um trechinho, talvez… 🥱 Era muita fadiga.

No retorno ao prédio em que habito, no Brooklin (bairro paulistano conhecido pela suas calçadas estreitas), a poucos metros do portão, constatei que eu tinha escolta no meu passeio: uma barata.

Considerando que levo uma relativa vantagem com relação à barata, nem que seja pelo tamanho das minhas pernas, acelerei o passo o tanto que pude para ganhar a corrida até o portão.

Toquei o interfone às pressas. Nesses tempos de pandemia, reparei que os próprios porteiros andam mais flexíveis quanto ao ingresso no prédio, o que tem seu lado bom e ruim. Entretanto, embora eu tivesse saído por parcos minutos para ir até a esquina e ainda acenado para ele, ao interfonar ele fez uma pergunta que não era a que eu queria ouvir: “Pois não? Vai a qual apartamento?”

Dei um desconto, já que o porteiro de plantão de hoje não é tão familiarizado com os moradores, sobretudo em tempos de pandemia, em que às vezes eu mesma não reconheço a minha mãe por detrás da máscara.

Mas o porteiro ter feito essa pergunta criou um espaço de tempo para que a barata alcançasse o portão ao mesmo tempo em que eu discutia com o porteiro: “sou a do 101. E tem uma barata aqui fora!!”

O funcionário, que claramente não estava me reconhecendo, limitou-se a dizer: “Não tem ninguém com esse nome no 101”. A barata continuava me rodeando e eu, já na sarjeta, dizia aos berros (não por serem berros, mas porque de máscara e na sarjeta o porteiro poderia não me ouvir. “É porque eu sou a do 103!! Me confundi! Me deixa entrar por favor! Tem uma barata querendo medir forças comigo”.

O porteiro desligou a chamada e eu, mais uma vez, fiz uma dança em volta da barata para tocar novamente o interfone: “Moço, por compaixão! É uma emergência”.

E ele, com a tranquilidade que só vejo em quem passa os dias abraçando árvores: “mas o portão da está aberto. É só empurrar”.

Aleluia! Quando pressionei a grade, a barata maratonista se adiantou: entrou para a “gaiolinha” da portaria e eu continuei do lado de fora.

“Moço, eu vou ficar mais um pouco aqui na sarjeta, tomando um ar, pra barata desfrutar um pouco a gaiolinha”. Ele se calou.

Passaram-se verdadeiras quarentenas em forma de minutos, e a barata exibida sambava na cara da sociedade – a sociedade, no caso, era eu.

Até que ela deve ter cansado da proposta e sugeriu um troca troca – ela saía e eu entrava. Foi uma grande manobra quase jurídica. Ainda assim, pensei: o porteiro vai me trancar na gaiolinha e a barata entrará pelos vais ao som de “enganei uma boba na casca do ovo”. 🐣

O porteiro, talvez então mais atento à minha agonia, abriu logo o segundo portão da jaula e a barata presumo que foi dançar em outra freguesia. O porteiro me chamou pelo interfone da portaria e me deu um pequeno raspanete: “Mas era só uma barata, Dona Ivy”. Rebati: “Em tempos de pandemia, qualquer barata vira um dinossauro”. O que é um pouco de verdade e de mentira.

As baratas já me davam medo quando eu era criança – não é efeito pandêmico ou comorbidade que é uma palavra da moda – e a analogia com os dinossauros passa mesmo pela minha cabeça desbaratinada.

(Por Ivy Cassa)