E 2019 foi um ano de despedida. De até logos. De “valeus”.

O iPhone é um pouco cruel com suas “lembranças”. Tentando driblar enjoos, saudades e uma dor de cabeça sem motivo aparente – isso não é um pedido de diagnóstico, “doutores” feicebuqueanos de plantão; é expressão” – as tais lembranças vieram esfregar na minha face as fotos de uma ilha que eu dificilmente teria visitado não fosse o acaso: Ponta Delgada.

A ilha integra o arquipélago dos Açores e fazia parte do trajeto transconstinental do meu “Cruzeiro do recolhimento”. Todo mundo devia fazer um – não em época de pandemia. Se 17 noites sozinha em um navio não forem terapêuticas, tenho dúvida do que afinal seria. Sem redes sociais, mínimo contato com uma ou duas pessoas fora do navio e a chance de ser uma completa desconhecida, com pessoas estranhas e em outras línguas, coloca-se definitivamente nosso próprio ser em outra perspectiva.

Os Açores, para mim, só passaram a existir depois que conheci meu falecido marido, cuja família tinha antepassados ali – mas não em Ponta Delgada. Só que nosso casamento flashback, acelerado por uma doença que se arrastou por metade do tempo da nossa convivência, colocou os Açores em uma posição na nossa lista de prioridades que nunca chegou a ser atingida. E o tópico se esfarelou do meu rol de locais a visitar tão logo ele foi embora. Eu não sabia nada sobre os Açores, exceto por algum prato que ele mencionava, pelo céu que ele dizia estar quase sempre encoberto e pelas baleias.

Não foi com grande entusiasmo que desembarquei. Mas foi com grande fervor que ingressei na primeira igreja que vi em terra firme (mesmo sendo dona de uma crença curiosa) e me pus a chorar como quem desabafasse com o próprio Pedro, com algum santo ou com um Deus que eu não tinha certeza se existia – leitores, sem pregação religiosa, por favor; atenham-se aos aspectos literários da narrativa. Desabei num choro reprimido de quem se sentia injustiçada com o Direito, com algumas pessoas distantes e sobretudo com outras bem próximas, e acabei me reconfortando naquela igreja como quem sai da casa da mãe depois de comer um prato de sopa. Eu estava nos Açores e eles me traziam um pouco de Pedro. A vida continuava, por mais que meu tapetes tivessem sido puxados e o marido precisasse ir embora antes do tempo. Agora era a minha história. Em Ponta Delgada – quem diria!

Seguindo o princípio de fazer uma viagem econômica, não aloquei meus parcos euros – que já estavam disparados com relação ao real, para fazer passeios turísticos e com hora marcada para tirar superficiais fotos de rede social. Por um lado, perdi paisagens que meus novos amigos a bordo conheceram. Por outro, me dediquei ao que mais gosto: conhecer a ilha com os meus pés, fotografar as pequeninas casas com santos expostos acima do batente das portas, os presépios diferentes e as placas curiosas aos olhos de uma brasileira: “sorriso sumarrento, vinho Mula Velha, delícia estaladiça, brinquedo tragabolas, diário de uma miúda, calça de ganga, camisola masculina, popota para divertir crianças”, dentre outros. Ri até do que não tinha graça, assim como o Pedro, por mais português que fosse, riria se estivesse comigo. Ele próprio já se via num ponto de intersecção entre Brasil e Portugal e sem que eu levantasse piadas ele próprio já as elaborava.

Mas alegria mesmo foi encontrar uma tasca. Uma típica tasca, com mesas de madeira rústica, enfeites que não ornariam em uma sala de visitas, mas nasceram para uma tasca, e com comida de tasca. Quem lê meu texto, pensa que sou uma grande conhecedora de tascas. Mentira. Se fui, não chega a meia dúzia de visitas, e nenhuma como aquela. Reproduzo a definição de tasca da própria tasca açoriana: “é um pequeno e barulhento (no melhor sentido do termo) restaurante que serve comida local, farta e a bom preço”. Até o barulho era perdoável.

Depois de me sentir invisível e tentar contato com uns 4 ou 5 garçons para conseguir uma mesa, lembrei das palavras do Pedro: “é preciso ter paciência”. Tive. Consegui uma mesa e um cardápio. Não era um cardápio, era uma indecência de delícias: carpaccio de polvo, brusqueta de atum, ovos rotos, casquinha de batata frita, crocante de queijo, mel e noz, queijinho com mel e amêndoa, punheta de bacalhau, salada de ovas, açorda de camarão. Posso pedir tudo, moço? Quer dizer, exceto as favas com molho de unha, o ovo escalfado com paio, as plumas de porco preto, a mão de vaca e o arroz de pato… Ah! Um vinho Trinca Bolotas a retalho pra acompanhar, um bolo de ananás pra sobremesa e um licor “mulher de capote” pra finalizar. Não comi tudo, não havia estômago para tanto. Mas aproveitei que o navio ficaria atracado em Ponta Delgada por 2 dias e comi quase tudo em 3 refeições. A partir da segunda visita, deixei de ser a “cliente invisível da tasca” e passei a ser chamada de “ó menina”. Pedro me ensinou que era um apelido carinhoso. Minha mesa não demorava 5 minutos para ficar pronta e, de Trinca em Trinca Bolotas e quitutes mil, posso dizer que ficamos até próximos.

O rapaz do freeshop do Porto, que falava em português com todo mundo, só se comunicava em inglês comigo. Eu, sozinha num navio definitivamente internacional, respondia em inglês sem questionar. No último embarque, pedi em alto e bom som: uma garrafa de água, por favor. E ele responder: two dollars, please. Acho que não falo pontadelgadês.

Na hora da despedida da ilha, sentada na varanda da minha solitária cabine, chorei pateticamente enquanto via a ilha passar no deslizar suave do navio pelo oceano. Chorei pelo Pedro, pela Igreja, pela tasca, pelas comidas, pelo Trinca Bolotas, por não saber quando ou se voltaria a Ponta Delgada e em que condições.

Hoje acordei com essa lembrança me desafiando na tela do celular, que me fez puxar todas as outras memórias, até o gosto e cheiro da comida que as fotos não registram. 2020 foi indubitavelmente o ano das esquisitices e, fora elas, das saudades. Será que Ponta Delgada continua firme? A Tasca, a mesma? Algum dia voltarei a comer aqueles quitutes? Poderei me dar ao luxo de apresentar Ponta Delgada à mamãe? Continuarei sendo a “ó menina”, depois de ter passado um ano sendo a “mulher do capote”?

Ai, Ponta Delgada… guarda a açorda de bacalhau com o Trinca Bolotas que eu ainda volto. Quem sabe, em 2021…

(Por Ivy Cassa)

PS. Deixei algumas fotos de Ponta Delgada disponíveis no meu insta @portasabertasivycassa

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