Quem tá de bode não perde

O mês de março, em que homeoffice deixou de parecer uma “vagabundagem”, deixou a esperança de que os humilhados finalmente poderiam ser de alguma forma exaltados. Bater cartão, passar o dia nas redes sociais e não focado num projeto, fazer almoços prolongados e ao final do dia produzir quase nada (ou, paradoxalmente, até muito) e ainda ser achincalhado pelo superior? Até quando esse modelo se sustentaria? Nas horas debitadas abocanhadas por sócios de índole fabebooktica (leia-se: são monjas Cohen no Facebook, mas cortam até o cafezinho dos pobres funcionários que trabalham para sustentar o tanque cheio da BMW deles mesmos)? Ou nos negócios curiosos estabelecidos entre partes sabidamente conhecedoras da ilegalidade de algum fato, mas incapazes de abandonarem seus carros importados e fartos bônus de captação de negócios claramente viciados? – ilegais, pra quem não entendeu.

Empresas querem sucesso. Bons advogados deveriam instruir seus clientes a não se meterem em confusão, a não litigar, exceto se não houvesse outro caminho. E clientes – bons ou não bons – deveriam ter responsabilidade – não só com seus empregados, mas com seus prestadores. Se a moça da limpeza não tem férias e precisa comer no chão da escada de emergência porque não tem “copa”, divida a culpa com o empregador dela. Ou você é conivente com a infração? Seus contratos só surgem por um estranho neokeynesiano, em que um laranja abre uma empresa pra prestar serviços pra outra, serviços inúteis e superfaturados, mas que garantem que o burrinho durma na sombra? Que vergonha de você. É assim que saltamos de bodes para burros! Ah! Só lembrando… Seu advogado também é gente, tá? Vai que vc esqueça, ele é o super herói que vira a noite resolvendo seus enigmas jurídicos para ao final terem suas consultas canceladas, números de Whattsapp até às vezes bloqueados, depois de tanta ajuda “gratuita”. É esse o mundo que queremos? Foi pra isso que passei décadas da minha vida enchendo a boca pra falar o nome da minha faculdade?. É nessas horas que eu tinha vontade de pegar o telefone de um por um e entregar pra fdp da financeira que chega a me ligar 16 vezes por dia. Tou exagerando? Se eu fizesse um follow up diário ou até horário com meus clientes, já estaria com o nariz virtual até roxo de levar tanta porta virtual na cara. Isso sim é um bode.

Pandemia veio, veio, veio, se arrastou, acabaram as piadas pandêmicas, não acabou a pandemia mas muitos apertaram o f@da-se e desde então os confinados passaram a ser os humilhados. Exaltados foram os porralokas que estão saindo na pegação do boteco aglomeradinho, mandam cantadas que envolvem um coitadismo oportunista que vem com um pacote que já até se banalizou: cansados de ver rostos pot telas (ô, dó), de teclar (obs: estatisticamente sou capaz de provar, mesmo sendo inimiga do excel, que não teclam porque são analfabetos funcionais), saudades de sentar num tapete, massagear as costas pra no fundo angariar um prato de comida e outro de comida… “Quero ir pra sua casa blá-blá-blá.” Ahã. 🙄🤔 Se a moça em questão for eu, o paspalho não será só humilhado, como ganhará um presente que ofereci a poucos: os sermões da Ivy. Padre Antônio Vieira? Era eu em outra encarnação. O tarólogo jurou.

Os exaltados contam com a moça da limpeza vulnerável, porque mesmo sem conhecê-la, aposto que ela não mora em um palácio de bairro periférico repleto de suítes, que não tem carro próprio, precisando de se confinar e equilibrar no transporte público, e que se alguém da comunidade se contaminar, talvez não haja dinheiro nem pra pagar o teste “de farmácia” ou se isolar num quarto onde antes dormiam 10 “empilhados” pra ter uma suíte nada privativa, mas “exaltada”. Amigo, corre pro sus e joga pro universo, seu pobre! Ah, mas quase nem tem febre e é aniversário do Covidson: aglomera no bailão. Covidson, se sobreviver, nem vai lembrar: acho que a turma não estará usando máscara. E boa parte deles terão morrido de covid. Pobre Covidson, se sobreviver.

Vai pro “churras” ao ar livre do amigo! Choveu? Aglomera mais um pouquinho. Gostosinho o calor humano de humanos sem máscara assintomáticos pra covid, né? Exaltemos, exaltemos e exaltemos!! Pais morrendo? Lei da natureza… Os humilhados estão sendo solicitados pra tra-ba-lhar! Nem podem se dar ao “luxo” de um home office. Era bom que os empregadores lembrassem que porteiro é porteiro e não pode trabalhar remotamente, mas não deixou de ser gente. Que alguns departamentos funcionam até melhor 100% remotamente e a presença pode ser ilusória. Funcionarios felizes rendem melhor. Já os humilhados pintarão com alegria a parede dos ricaços que tá com uma cor démodé, limparão o chão dos vilamadalênicos, farão obras inúteis nos parquinhos altodepinheirenses, mas pelo menos naquele mês não dependerão de esmola. Vão receber uns caraminguás quase certos. Quase.

De um dia pro outro, os exaltados às vezes se sentirão humilhados. Doentes, coitados. Precisarão ligar pro plano de saúde supermegaprime, encomendar um enfermeiro “delivery” – que chega mais rápido à sua casa que a pizza da esquina – porque dinheiro ajuda um bocado. Logo, os exaltados ficarão um pouquinho humilhados com um PCR positivo. Ou não. Na verdade, eles são tão exaltados e imbatíveis, que nada será capaz de humilhá-los. Continuarão saindo de casa como se nada fosse, mesmo com covid: são ricos. Digo: são pouco sintomáticos, e dane-se quem se aproximar deles. Exaltado é exaltado, humilhado é humilhado e não se fala mais nisso. A vida é assim, ué! 😵

Entre a categoria dos humilhados e dos exaltados, eu me colocaria na dos palhaços. Não tenho uma casa estilo ilha de caras, tampouco moro numa choupana. Não peguei covid – mas já fiz duas vezes o teste por precaução e falha no meu sexto sentido: o teste dos “exaltados” – que deram negativo. Talvez seja porque eu tenha me mantido tão confinada e enjaulada, para deleite dos que me acham uma palhaça paranóica… Não sou palhaça. Sou cuidadosa, zelosa. Fiz minhas palhaçadinhas: andei de touca de natação pela rua? Claro. Passei a usar uma boina pra proteger os cabelos? Óbvio! Tive compras rolando pela esteira descendente do supermercado? Tive. Larguei meu carrinho com uma desconhecida só pra trocar o que quebrou? Lógico! Me senti umas vezes humilhada? Não. Mas senti náuseas dos super heróis exaltados que usam – e só quando usam – a máscara no queixo, no brinco, não duvidaria até que na genitália? Tão exaltados, mas tão irresponsáveis.

Bem, tudo começou com um bode: era uma vez um bode que… minhas amigas quarenteners e eu falamos praticamente todo dia nele, mas ainda não entendemos se a culpa é da rifa que a Fernanda Montenegro comprou num seriado da Globoplay, se é culpa do cachorro do irmão da amiga que parece um bode, ou se estamos mesmo de bode num sentido amplo.

Não quisemos promover um concurso de bodes ou desgraças. Essas dores não se medem. Mas nos permitimos criar um espaço só pra falar de bodes. Puxa, tanta coisa importante pra se falar, e vocês escolheram logo um bode??

Ah!! Não vá querer ser humilhado via rede social, né? Tem bodes e bodes. E a nossa proposta é brincar com bodes lúdicos. Porque bodes grandes fogem ao nosso controle e nem queremos ou desejamos ter, com todo o respeito a quem tem ou teve. Os bodinhos rendem crônicas, capítulos de livros, memes e até… deixa a surpresa pra lá! Se você comparecer ao @portasabertasivycassa deste domingo, logo depois da nossa entrevista de abertura da segunda temporada do “Duas taças com a Ivy”, teremos a inauguração de um bode. Digo, da exaltação de um bode. Não, da malhação virtual dos bodes não animais. Não entendeu nada? Vem amanhã que a gente te explica no caminho!

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