Ops! Calma, gente! Isso dói! Dói quase tanto quanto a pandemia, a vida amorosa pré pandêmica, pandêmica etc. cancelem as pedras, por favor, paaarem! 🚫 🚫 🚫

Tá bom, o problema sou eu, esqueçam as pedras. Parou? Vamos lá.

Nos últimos tempos, tenho tido papos de “pefequê” – se você não sabe o que é uma, tá faltando “engajamento” com minhas atividades, mas vc pode se redimir disso dando uma geral no meu blog e lendo por exemplo meu último livro “Devaneios de uma pandemia”. Bem, como eu dizia, tenho tido papos curiosos sobretudo com uma amiga pefequê, a mãe e um amigo virtual, que batizamos como se fosse um quadro de talk show que nomeei de “desenterrando defuntos”.

Calma: defuntos vivos. Ou nem tão vivos assim. Quer dizer assim: uma fala que tá tomando sorvete de abacate, o outro lembra que o avô da ex tinha uma fazenda de abacates e não quer mais falar sobre o assunto. A mãe pede um fardo de sorvetes de abacate da Rochinha e a pefequê lembra que no dia em que tomamos aquele sorvete de abacate juntas, há 20 anos, tivemos um double date inesquecível. Eu vejo um abacate no hortifruti e tenho vontade de jogar naquele cara que não tira o olho da minha bund@ e ainda tá sem máscara mas com aliança. E daí cria-se assunto pra uma noite inteira. Abacates se misturam com ex, personagens, receitas culinárias e medicina ayurvédica.

É o que também chamo de “malhação de Judas” da pandemia, ainda que sem malhação e sem um Judas definido.

Hoje fui convidada a uma curiosa tarefa que consistia em definir meu estado amoroso para uma profissional. Não chamo de civil, porque esse é por ora estável: viúva. Já o amoroso… 🙄🤔 Comecei com um: “tem um cara que não é namorado mas poderia ter sido…” apago. “Um cara em quem tenho interesse mas mora em condições anti pandêmicas do ponto de vista amoroso.” Não apago, mas continuo: “Bem, ele nem era namorado, mas também não se pode dizer que não é porque… deixa pra lá. Mas se você puder dar uma dica sobre ele, eu aceito.” Continuo: “E tem outro cara em quem nem tenho interesse, tampouco é meu namorado, mas não falta a nenhuma “malhação de Judas”. O assunto é café? Enfia o cicrano na conversa: “era mais amargo que café”. Vamos falar de chocolate: “tinha um p… que lembrava um bis misturado com um shimeji”. Mudamos pra novela antes que a pefequê me bloqueie: “Nossa, mas o cicrano é anjo perto da Nazaré Tedesco”. O cicrano, mesmo tendo sido condecorado pelos meus interlocutores mais próximos com o 🏆💩, ainda assim rende assunto. Talvez, o problema não seja ele, mas eu. Ou eu tou mandando bem mantendo viva a lembrança dele, porque era tão ruim que rendia uma crônica. Depois que me autoconsagrei uma quase escritora, minha filosofia é: “tá uma 💩, mas serve pra crônica”.

De cunversê por Facetime com a pessoa que me instigou a essa difícil tarefa de “definir vida amorosa pandêmica”, reparo no cenário dela: a foto de um belo rapaz, vestido como um servidor da marinha, com ar imponente e viril. Minha abstinência pandêmica não se contém: “nossa, esse rapaz marinheiro é seu filho? É solteiro? Tá no Insta?” A profissional finaliza o bate-papo: é meu pai na 2a guerra mundial. Morreu numa batalha há décadas. E finaliza a conversa meio atarantada.

Ainda com o celular na mão e dando zoom na foto do rapaz, tão melhor do que o que nem é namorado e infinitas vezes melhor que “o do abacate”, torço para que ela não abandone meu “caso”.

Mando um áudio: “a senhora acredita em destino, reencarnação ou qualquer coisa assim? Sei lá… o namorado que não é namorado, os abacates, o bis, o shimeji e a carência pandêmica deixam a gente meio fora do prumo…” ela não respondeu ainda. Tomara que não tenha me cancelado. Torço para que ela seja adepta da medicina ayurvédica e compreenda meu certo desequilíbrio amoroso pouco pandêmico mas totalmente equilibrado.

Ivy Cassa

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