Quase todo dia, na pandemia, ou ferve ou é morno. Homens, se não fui muito clara, evidencio: ser mulher é viver numa montanha russa de hormônios e emoções que não se restringe a UM dia que vocês chamam de TPM. Às vezes temos TPMs a qualquer momento, P, D e P de novo. Desculpem. Desculpem nada! Entendam! É da temperatura ambiente pra fervura sem aviso.

Depois de uns dias de recolhimento (leia-se: não saí de casa pra evitar de morder alguém na rua), hoje tive uma vontade besta que justificou uma saída: eu tinha desejo de croissant de queijo. Definitivamente não estou grávida, mas não me lembro de outras épocas da vida em que tenha tido desejos tão estranhos como nessa pandemia: depois das omeletes de farofa e do tutu de feijão com banana e azeitona, além de ter perdido seguidores e bons (?) partidos, nada me parece mais estranho. Croissant de queijo é tipo ter fome de arroz com feijão (que eu também tenho).

Já que eu precisaria sair da minha cápsula pra comprar croissant de queijo, daquela padaria em que só faltam tacar croissants na cabeça dos clientes, mas é o que tem aqui perto e é gostoso, resolvi otimizar a saída.

Como sono também não é padrão, e tem dia que durmo às 9h, hoje acordei às 2h e não dormi mais. Às 5h já tinha feito (e comido) uma moqueca de camarão e minha dúvida era se um croissant lá pelas 12h seria considerado uma ceia noturna, um café da manhã ou almoço. Paciência. Foco na fome. Na pandemia não tem dessas. Quem acorda às 2h, às 12h tem seus e-mails zerados. Como no caminho (embora oposto) ao dos croissants tinha um banco, e há meses invento desculpas pra mim mesma pra não ir porque detesto bancos e sobretudo roletas giratórias, porque me dão a sensação de que estou mesmo indo assaltar um banco, quando na verdade só quero sacar uns 10 ou 20 reais, resolvi ir ao banco também. E como no caminho entre banco e croissant havia um supermercado e uma casa de congelados, reafirmei a ideia da “otimização”.

No banco nem foi tão ruim, porque eles acham que sou primepersonalitevangoghamigadochadas5darainhaelizabeth, embora eu não seja: foi até que rápido. Pelas ruas, não deixei de reparar que raras pessoas estavam sem máscara – o que contrastou com minha visão dos últimos fins de semana, em que cheguei a fazer uma estúpida contabilidade dos “sem máscara” no trajeto até a casa da minha mãe. Só fui capaz de concluir que aos fins de semana as pessoas andam menos de máscara do que às quartas-feiras e ponto. E que hoje deve mesmo ser quarta-feira e eu não errei a data, o que me deu aquele famoso “acréscimo de estima por mim mesma” eçaqueiroziano.

Andando pela avenida principal do bairro, notei muitas lojas fechadas. Desde o outlet que vendia blusas de seda pelo preço de viscose, até o sapateiro, o consertador de TV e o amolador de alicates. A moda agora são roupas largas, macacões e qualquer pano que seja resistente pra envolver os quilos que ganhamos na pandemia. As lojas tamanho XG, cuja existência eu nem reparava, passaram a chamar minha atenção. Assim que voltar a ter reuniões presenciais, precisarei comprar roupas assim, porque vai pegar um pouco mal sair de calça de pijama ou de legging. E perder tantos quilos em plena pandemia é só para os muuuito obstinados – parabéns pra você que é, eu tou no meu ritmo, não encho teu saco nem você o meu, obrigadadenada. Minha obstinação anda em questões mais básicas, como dormir, comer e me sustentar.

Na loja de congelados não havia uma só pessoa. A atendente perguntou 3 vezes, enquanto eu deambulava pelos vazio corredores das geladeiras (porque acho a palavra “deambular” legal, e porque fazia tanto calor que até deambular entre as carnes fazia uma vegetariana ter quase orgasmos), se eu procurava algo. Embora estivesse com uma cesta já cheia, meu saco foi ficando cheio ainda mais cheio: “moça, faz 7 meses que estou trancafiada em casa. Posso deambular um pouquinho na sua loja vazia? Só pra me distrair.” Ela ficou sem jeito. “Deambule, claro!” Saí de lá, parei no supermercado, comprei mais meia dúzia de sacolas e voltei pra casa – pingando de calor – e sem o croissant de queijo.

Cheguei seriamente a pensar: “f@da-se o croissant de queijo e a padaria que me maltrata. Hoje não saio mais.” Mas qualquer coisa me levava até lá. Fui. De cara com a vitrine, logo veio a frustração: só havia croissants não vegetarianos – frango, presunto, javali, sei lá. Por nada, e já experiente em termos dos “modos” da padaria, arrisquei e perguntei: tem croissant SÓ DE QUEIJO? Talvez tenha me exaltado no tom de voz, mas a máscara faz isso com a gente. E a moça da padaria que trata a gente mal abriu o forno: “tem sim! E acabaram de sair do forno.”

Ganhei meu dia. Corri pra casa o tanto que meus quilos excedentes permitiam e o tanto que minha mente imaginava sobre “resfriamento de croissants” e, pela primeira vez na pandemia, cometi uma pequena “infração”: não tomei banho imediatamente ao entrar em casa. Dei-me ao luxo de sentar no chão da varanda que tanto me apaixonava há alguns meses ou anos e eu abandonei faz um bom tempo por pura falta de tesão. Encontrei um vinho branco na temperatura certa na geladeira, e tive uma das melhores tardes mornas da minha pandemia: croissant quente com vinho gelado, sentindo a brisa fresca da varanda. Ah! Usando a camiseta do super homem de um ex-namorado que nunca foi namorado, mas era mais ou menos namorado antes da gente precisar ficar trancafiado no país e dentro de casa. Ele não era nem namorado nem super homem, mas que mal há em acreditar numa mentirinha em tempos de pandemia? Tem gente mentindo tanto mais… Tem sido horrível, mas às vezes bom e nem precisa de Clark Kent. O croissant morno já fez meu dia. Perdão pelo trocadilho infame.

(Ivy Cassa)

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