A única vez que precisei ficar internada em hospital, foi no ano passado – rotinas pesadas conduzem a gente a esse tipo de “passeio”. Mal fui instalada na UTI e já chegou um almoço caprichado – tinha até panacota! Havia também TV (há meses eu não assistia) e um funcionário à minha disposição à distância de um clique num botão. Praticamente um hotel.

Você pode achar estranho, mas eu estava tão exausta da vida fora do hospital que confessei pra quase todo mundo da equipe que tava adorando, que não lembrava há quanto tempo eu não fazia 3 refeições por dia e que se eles quisessem me internar por um mês eu ia amar. Um mês sem doença, claro! Só pelas regalias.

Também foi lá que fiz minha primeira fisioterapia. A moça entrou no quarto e perguntou: “você já deambulou hoje?”

Será que número 2 em hospital chama deambular? Todos os assuntos de todos os profissionais passavam pelo número 2. Muito estranho isso! Pra não mostrar que eu não sabia, respondi que “deambulava mais ou menos”. Ela então me convidou pra gente deambular mais um pouquinho. Eu, cada vez mais confusa, tentando esconder a bund@ que cismava de sair pela abertura do avental, deambulei como se tivesse nascido praquilo. Demos voltas e voltas pelos corredores do hospital e fizemos até ginástica. Amei! De volta ao quarto, logo acionei meu amigo Google:

“Deambular: verbo intransitivo.
Andar à toa; vaguear, passear.”

Achei lindo! Fazer um rolê? Dar um giro? Naaaaaao! Eu só quero de-am-bu-lar.

Desde que começou a pandemia, são raras as madrugadas que não deambulo pelo apartamento. De pijama e com a bund@ devidamente escondida, sem aquela comidinha boa e sem regalias, mas ao som da cantoria dos sabiás.

Ando à toa da cozinha pro banheiro. Vagueio pela sala e passeio de elevador até a lixeira, que fica no térreo.

Eu deambulo. Tu deambulas. Minha mãe deambula e aos sábados deambulamos juntas da cozinha pra sala. Eles também deambulam, desconfio até que por lugares “suspeitos”. Ah, e deambulamos de máscara, lógico! – pena que alguns ainda não usam e outros usam no queixo – o vírus deve estar entrando pela mandíbula e eu não fui informada.

Deambulamos, deambulamos e deambulamos. Mas estamos exaustos de andar à toa, sem rumo e sobretudo sem liberdade. É triste deambular na pandemia, mesmo pra quem tem alguma estrutura. Imagino o sofrimento de cada um e queria ter superpoderes pra aplacar a dor de todos os corações machucados, conhecer as palavras certas pra confortar e manjar tudo de ciência pra descobrir a cura para esse vírus maldito.

Acho que vou trocar o nome do meu Reino dos Devaneios para Reino da Deambulação. Pelas notícias que estão chegando sobre a vacina, e considerando que meus superpoderes só existem na minha imaginação, tou achando que deambulação, por um bom tempo, só vai ter da casa da minha mãe pra minha e vice-versa.

Às vezes no silêncio da noite eu não fico imaginando nós dois. Quem? Eu fico sonhando acordada, juntando o antes 🙂, o agora 😷 e o depois 🤷🏼‍♀️. Ah, que saudades eu tenho de andar à toa, sem máscara, sem álcool gel e sem medo. Livre.

Por Ivy Cassa