A noite, que supostamente era pra ser dormida, quase sempre é passada em claro. Não raro, trabalhando. O dia, que foi mais feito pra trabalhar que a noite, muitas vezes é dormido. Quem não pode, levanta, vai pra reunião virtual com a câmera desligada e pijama e simula um piripaque quando um chato insiste: mostre sua cara. Mostro. Na etimologia, “mostrar” vem de “monstro”: eu durante o dia quando não dormi à noite. E, quem pode, fica na cama e resolve tudo pelo celular – meio dormindo meio acordado. Quem pode muito, não faz nada antes de ser noite – hora de acordar e trabalhar.

É dia – tem um último pedaço de cuscuz de camarão do dia anterior pro café da manhã e um pacote de miojo. Opa! Tem também esse resto de vinho que se não beber azeda até à noite. É noite, vou tomar um café e assar pão de queijo enquanto limpo minha caixa de e-mails.

É noite – os sabiás cantam. É dia, as maritacas cantam. Me contaram que os sabiás só cantam de madrugada porque a natureza está em desequilíbrio. Eu também estou. Mas não canto nem de dia nem à noite.

É dia: a vizinha marcha com sapatos pesados e bate gavetas como se fossem porta-malas de carro. É noite: a vizinha marcha com sapatos pesados e bate gavetas como se fossem porta-malas de carro.

É dia, tem live sobre os efeitos da pandemia nos dias que parecem noite e nas noites que parecem dias. É noite, tem outra live igualzinha à da manhã.

É noite, algumas amigas estão acordadas. É dia, outras estão dormindo. Meu turno às vezes alterna. Mas, seja noite, seja dia, minha mãe tá sempre alerta.

É noite, estou de pijama. É dia, estou de pijama. É pandemia, sempre estamos de pijama.

É dia, só o sol que não acordou ainda. É noite, mas estrelas estão em falta.

Nesta pandemia, todo dia é noite e toda noite é dia. Estamos exaustos.

Por Ivy Cassa