Me tornei franciscana em 2001 e acho que esse status não se perde. Embora muitos tenham seguido caminhos em outras áreas, uma vez franciscano, franciscano pra sempre.

Meus colegas eram bem pouco franciscanos no sentido católico da palavra. Se tinha uma coisa que não havia era colegas na pobreza ou mendicância. Claro, pra passar em um dos vestibulares mais concorridos do país, era preciso ter bagagem de estudo e infelizmente pouquíssimos “franciscanos” tinham condições financeiras de se preparar e se tornarem “franciscanos”. Tenho a impressão de que isso vem mudando em lentos passos, mas não tenho certeza.

Definitivamente não me apaixonei pelo curso. Nem no primeiro, nem em qualquer um dos anos. Salvo raríssimas exceções, grande parte dos professores não tinha nascido praquilo. Mais tarde é que fui descobrir que a docência era um meio e não um fim. Ganhavam um salário vergonhoso na faculdade, mas recebiam valores astronômicos em seus escritórios por terem no papel timbrado um nome “professor titular de XPTO da Faculdade de Direito da USP”. Uns davam aula, outros não. Uns só mandavam monitores e outros esqueciam que tinha aula pra dar, não mandavam nada. A gente, no fundo, até achava bom: uma horinha pra comprar tranqueiras na 25 de março, passar na farmácia ou na livraria da Caasp, comer um “copão de pão” do Rei do Mate, dentre outras atividades curiosas que não contarei para evitar constrangimentos.

Conforme os anos passaram, percebi que “ser franciscano” era mais legal do que “fazer um curso de direito”. Franciscanos conversam com quaisquer franciscanos como se tivessem sido amigos de infância, mesmo que sejam de gerações diferentes. Até porque, muitos professores chegaram a formar pais e filhos – e não mudaram uma vírgula o discurso quase sempre monótono e totalmente paradoxal com a energia dos jovens alunos saindo de escolas e cursinhos onde o que mais havia era agitação, motivação e, apesar do caos do vestibular, diversão.

Ser franciscano pode querer dizer uma porção de coisas e a franciscanagem de um não é a do outro. A minha teve muito caderno xerocado, textos de seminários que mesmo depois de 15 ou 20 anos até hoje não entendi, listas de presença assinadas até por quem já morreu, cartões de matrícula que eram cartolinas coloridas com uma etiqueta, tábuas pra escrever (não eram 12, mas tampouco eram suficientes pra todos os alunos). Por desorganização ou porque era uma tradição, sempre houve os “sem tábua” que precisavam fazer as provas em braços de carteira – com cuidado, porque não raro os braços estavam quebrados. As notas afixadas num mural sem data definida, nos obrigava a criar um sistema de rodízio de amigos durante as férias, para que cada dia um da turma fosse até lá ver a nota do resto e descobrir se alguém tinha rodado. Ah, e fui monitora de Direito Romano durante todos os anos. Cada louco com a sua mania, a minha era essa.

Fui franciscana da última turma que teve festa dentro da faculdade e mesmo tendo ido a outras festas memoráveis, as da São Francisco eram imbatíveis. Não bebia, não fumava, não cheirava, mas adorava dar beijinhos no pátio do túmulo do Julius Frank – pobre Julius no túmulo que tremia. Ou salve, Julius, conforme o ponto de vista. Será que a Semprônia, o Caio, o Tício e o Mévio também se pegavam por lá? Sempre desconfiei dessas historinhas de apreensões em que se entrava na casa dos outros “nu e com um prato na mão”. Semprônia, Semprônia… sua safadinha! Uma precursora – e não só do Direito Romano.

Fui também da última turma que teve Peruada nas arcadas. Não tem como descrever. O sol mal tinha raiado e a galera já estava fantasiada e bêbada, pronta pra pegar o metrô até a Sé e começar um “movimento político, etílico e carnavalesco” (jamais chame de micareta!), que se estendia até à noite, quando já não havia mais fígado nem colegas com quem não se tivesse trocado beijinhos. Isso pra quem aguentava, porque uns nem chegavam à Peruada em si; já queimavam a largada antes mesmo de chegar à faculdade. As pessoas do metrô se dividiam entre as que tinham medo de nós e as que achavam o máximo. Como na época acho que nem tinha celular com câmera, as lembranças desses momentos ficam só na memória mesmo. Ainda bem, acho. Entrar no metrô logo cedo e se deparar com o Freddie Mercury, o Chapolin, o Dick Vigarista e a She-Ra no mesmo vagão ou é alucinação ou é Peruada, oba!!

As festas da Sanfran tinham um lodo no chão que nunca encontrei em outras festas. Era uma sujeira de cerveja derramada com vômito e algum outro ingrediente que nunca identifiquei, mas transformava nossos pés – daí sim – em pés franciscanos, no sentido mendicante da palavra.

O mundo mudou tanto de lá pra cá que nem tendo continuado minhas aventuras de pós graduada não consegui identificar todas. Ainda cortam os cabelos dos calouros? Pintam suas caras? Com que tinta? Obrigam a pedir dinheiro no farol pra comprar pinga no fim do dia? Ainda fazem os calouros “comer o menininho” (só quem é franciscano vai entender)? Ainda colocam uma lata de cerveja nas mãos da estátua do José Bonifácio, o Moço? Já descobriram por quê só ele continua “o Moço” e a gente tá perdendo 1% de colágeno por ano? Os calouros ainda tomam banho no chafariz da Sé? Os meninos ainda fazem as meninas dançarem funk de sainha em cima da mesa? Ainda embebedam um pobre peru pra comer na sequência? Continuam dizendo que toda franciscana é uma bigoduda? Ainda se xingam os pucanos, mackenzistas e outros, ou isso já é entendido como discurso de ódio? Eita, acho que encontrei algumas impropriedades por aí… E como disse nossa colega oradora de turma em seu discurso: 5 anos se passaram, saímos com um diploma e perspectivas, mas a índia mendiga nunca saiu da porta da faculdade.

Os professores ainda dão aula sentados e sem Powerpoint? Já aprenderam que se o microfone ficar no umbigo a gente não ouve a aula? Ainda fiscalizam códigos em dia de prova pra averiguar aqueles “lembretes” que fazíamos? A tecnologia mudou o jeito de colar? Os banheiros já têm papel higiênico? O chão de madeira ainda range? Já lavaram as cortinas da sala dos estudantes? (tenho notícia de que ali tem material genético de pelo menos uma meia dúzia) Alguém já descobriu se existe a tal passagem subterrânea que liga a faculdade à praça da Sé?

Sei que hoje é dia de cantar “Garçom tire a conta da mesa”, porque é dia de pindura! (ainda tem? É politicamente correto?)

Mas me deu uma saudaaaade de um ou de outro namoradinho, que vou terminar com outra trova, em homenagem a Semprônia e a todos os namoradinhos das arcadas:

“A moça disse pra outra
Com ele não me arrisco
Pois ele estuda Direito
No Largo de São Francisco”