Às vezes, sentimos saudades de umas coisas que talvez nem eram pra sentir. Dá até um pouco de vergonha – você ainda está pensando nisso? Tou.

A minha crônica tbt começa com uma música amada e odiada por muitos, que diz: “não é sobre ter todas as pessoas do mundo pra si. É sobre saber que em algum lugar alguém zela por ti.”

Poucos souberam que no ano passado eu “fugi” do país. Dentro da legalidade, claro. As viagens que tentei fazer de outras maneiras não me ofereceram o que eu buscava, então decidi: vou fazer um cruzeiro de travessia da Europa para os Estados Unidos. Quase um mês viajando, sendo 17 noites num navio, 6 dias em alto mar, uma internet que só servia pra dar Oi pra mãe, não tinha áudio, vídeo, foto, rede social, amigos ou conhecidos. Éramos eu, um iPad que só usava pra ler, vinho, comida a toda hora, academia, algum balanço do mar, um ou outro enjoo, dias que passaram rápidos e outros que pareciam de quarentena: sem fim. Ah, sem contar os casais, os grupos da terceira idade e eu, talvez a única desparceirada do Cruzeiro. “Vc brigou com seu marido e por isso veio sozinha?” “Não, eu sou assim esquisita”.

Antes mesmo de acontecer, a viagem foi coberta por críticas, rompimentos de amizades, alvo de suspeitas de “ela vai fazer um cruzeiro porque quer se jogar no mar”(?), como se eu não morasse do 10o andar de um prédio e precisasse gastar uma grana pra cometer alguma atrocidade que poderia fazer de graça em casa. Como se a atrocidade estivesse em jogo. Enfim. Também tomei uns “viagem de velho”, “esse navio é de pobre”, “você entrará em pânico assim que o navio for pro meio da travessia”. Meus amigos ex-amigos são bárbaros. Bárbaros mesmo (substantivo masculino: cruel, desumano e feroz).

Ao mesmo tempo em que, como uma aficcionada por redes sociais, fiquei preocupada por tanto afastamento, foi libertador. Depois de 20 anos de estudo, trabalho e viagens de trabalho revestidas de “férias”, eu estava livre! Ignorei todos os áudios, os e-mails, os grupos de WhatsApp. A internet mal funcionava e eu estava de fé-ri-as!!

Uns dois ou três chatos não se convenceram. Insistiram mesmo eu respondendo em uma única linha: estou no meio do mar, falamos na volta. “Mas pode ouvir uma meia dúzia de áudios?” Nem me abalei. A única coisa que ouvi no meu cruzeiro foram músicas e podcasts.

Claro que a cereja do bolo foi o namoradinho tripulante que arranjei. Porque meus namoradinhos nunca são “o vizinho do prédio”, “o cara do bairro ao lado”. Sempre precisa ter no mínimo uma ponte aérea ou um carimbo de passaporte pra se materializar. Deve ser porque no fundo eu prefiro ficar no mundo do “impossível” ou “quase nunca”.

Ele era romeno, maître e chefe do room service. Minha cabine chegou a ter tanto vinho e espumante que ele mandava diariamente em baldes caprichados que já parecia um winebar. Morangos com chocolate, tábuas de queijo, jantares em dois turnos – o meu, em que eu socializava com uma turma de brasileiros – e um anterior, em que eu era tratada como uma princesa “The Lady” – tinha uma mesa só pra mim, um garçom dedicado às minhas vontades, que não deixava faltar nada nos pratos, nem nos copos, sob a batuta do meu namoradinho romeno que sempre que podia escapava pra saber se eu tava bem, bem atendida, feliz e contando os minutos pro fim do expediente – que pra quem trabalha em navio praticamente não existe.

Foi um namorinho. Um namoriquinho de navio. Com um tripulante que ainda tinha uma longa jornada de cruzeiros até ter suas merecidas férias.

“Vou te ver no Brasil”, ele propôs. Escolada em namoricos de viagem e em affairs internacionais, cortei: “Não. É muito sofrido pros dois”. Ele insistiu: são poucos meses. Não eram.

Um dia antes do desembarque, dia de navegação, acordei chorando e meus choros não raro têm trilha sonora “Trem Bala”. Sem razão. Cheia de razão. Guardei os biquínis, o pareô caribenho, a minissaia saia branca de paetês, o vestido verde água da noite do comandante. Notei como em 17 dias minha vida tinha mudado: entrei trajada de preto, no outono europeu, meias calças escuras e grossas e um sorriso que não tinha graça nem riso. Na metade da viagem, eu já era só vestidos floridos, pele bronzeada e um sorriso que não vendia em nenhum porto pelos quais parei. Continuei o chororô enquanto fechava as malas, me desmontei de vez quando ele foi embora da minha cabine na última noite. Eu sabia que tinha acabado e que não seríamos felizes para sempre. Nem juntos nem separados.

Ele ainda insistiu nos telefonemas, mensagens, mas não dá pra ter um relacionamento com um tripulante que passa meses trabalhando num regime semi escravo, com raro acesso à internet, passando às vezes o dia comendo só uma banana, dormindo com um interfone que pode tocar a qualquer momento na madrugada. Ele não tinha condições de me dar atenção. Eu sentia falta. Apaguei suas mensagens, seu contato, mas ele insistiu. Descobri que eu podia ter cidadania romena – just in case… mas a pandemia enterrou (e encerrou) de vez o assunto: li uma notícia de que os tripulantes de navios ficaram meses trancafiados nos seus navios por problemas no desembarque / vigilância sanitária / cancelamento de voos / fechamento de hotéis. Mesmo a gente já tendo parado de se falar, recuperei o número dele e mandei mensagem perguntando se tava tudo bem. Ele friamente disse que sim. Não perguntou como eu estava. Eu estava com saudade. Ele já estava em outra. Com outros problemas, talvez. Com os pés no chão, definitivamente. Pouco preocupado com o pijama do Dumbo que emprestei pra ele. E a Romênia nunca esteve tão longe do Brasil.

Algum psicanalista lendo isso diria: só funcionou por breves dias porque era breve, fantasia e impossível. Que se ele viesse ao Brasil ou eu à Romênia, o relacionamento provavelmente terminaria porque não somos o que os outros projetam em nós.

Pra mim, era fundamental saber que “em algum lugar alguém zela por mim”. Pra ele era um “a vida é trem bala parceiro e a gente é só passageiro prestes a partir”.

Uma crônica tbt pra quem nem merece crônica? E quem merece? Cada um que cuide do seu tbt.

“A gente não pode ter tudo
Qual seria a graça do mundo se fosse assim?
Por isso, eu prefiro sorrisos
E os presentes que a vida trouxe pra perto de mim” (Ana Vilela)

(Por Ana Vivê-la)