Eram cerca de 1h30. Meu sonho era ter dormido muito antes disso pra estar bem no dia seguinte. Não deu. Ou não durmo porque os vizinhos barulhentos nao deixam, ou porque o sono também tá num barraco comigo e me cancelou.

Exausta de tentar dormir, fui fazer o que sempre faço de madrugada: comer algo rápido, calórico e que me causa arrependimento já na primeira garfada. Pra fingir pra mim mesma queimar calorias, ainda dei uma lavadinha na louça. Então, lembrei de outra rotina que criei na pandemia: levar o lixo pra lixeira de madrugada.

Meu prédio tem 19 andares com 4 apartamentos por piso. Quase 80 famílias e seus respectivos funcionários, além da mudanças e cachorros, tudo acontece ali. E eu acho indelicado levar lixo pelo elevador social. Assim, de madrugada o elevador tá sempre vazio, chega rapidinho e eu otimizo as descidas ao lixo.

Importante dizer que o lixo sempre foi depositado na “área do lixo” de cada andar, e um funcionário se encarregava da tarefa. Um ser iluminado achou que o lixo deveria descer, e que mesmo as lixeiras ficando ao relento, levar lixo com frio e chuva era legal – ainda mais na pandemia.

Me encapotei, troquei a calça do pijama, peguei um moletom do Pedro bem larguinho e cheio de bolsos e desci me sentindo uma vitoriosa. Adoro moletons larguinhos e aproveito os bolsos pra colocar chave, chave do carro, lenços, álcool etc. Já domino essas coisas de pandemia!

Chegando à lixeira, que é quase da minha altura e um tantinho mais larga que minha geladeira, arremessei um dos 6 sacos. Me senti numa festa junina tentando acertar a boca do palhaço com sacos de lixo.

Acontece que, por distração ou já por um início de sono, a chave de casa sem qualquer explicação se arremessou junto. Pras profundezas da lixeira, que lembra uma caixa de correio, só com uma boca por onde passam os sacos que – presumo – são retirados pelo detentor da chave do compartimento. Enfiei a cabeça dentro da lixeira até onde deu. Liguei a lanterna do celular e quase eu também caí dentro da lixeira tentando achar a chave no meio do lixo. Era vida ou morte: remexer o lixo ou dormir na recepção do prédio. Se algum vizinho espiou, deve ter pensado: uma louca com meio corpo fora da lixeira em plena madrugada.

Por sorte, meu chaveiro é um unicórnio e tem um rabo comprido, onde pude me agarrar. Por mais sorte ainda, consegui só tocar o moletom e o capuz dentro do lixo. Eles já foram quarentenar com o unicórnio. Me desinfetei pela 87a vez no dia.

Sugestões: evitem unicórnios voadores, abusem dos bolsinhos nas roupas e pratiquem tiro ao alvo. Nem que seja só pra atirar lixo na lixeira.