Quando me perguntam o que mais tomei nesta quarentena, não foram nem vinhos, nem comprimidos, nem porradas, embora também tenha tomado um pouco de tudo isso. A resposta certa é: cuidado. Tentando navegar entre os que há 4 meses não buscam correspondência porque têm medo dos envelopes e os que ainda nem máscara compraram, fiz um pacto comigo mesma de tentar ser uma pessoa melhor, talvez até mais equilibrada. 🧘🏼‍♀️ Os desafios são diários, praticamente de hora em hora. Nas minhas 3 últimas raras saídas cujo propósito era um simples “comprar maçãs” – porque tenho tentado ser gente boa comigo mesma e me impor metas tranquilas – falhei em todas. A pandemia causa alguma amnésia. Os vinhos, comprimidos e porradas também. Hoje acordei destemida: caminhar e comprar maçãs. 🍎 Então surgiu a noia “lavar o cabelo”. Tenho procurado otimizar minhas lavagens porque se lavar o cabelo já era um saco sem pandemia, com pandemia e boataria de que cabelos carregam muitos vírus e matam, eu que manjo zero de vírus me mantive fiel ao “cuidado”. 😷 Depois de ter feito enquetes e me consultado com os maiores “especialistas” em vírus das redes sociais, concluí que não era frescura, mas por outro lado que se o cabelo estivesse coberto talvez o risco seria menor. Próximo desafio: como cobrir? Depois de muito escarafunchar pelos armários enquanto ouvia frenéticos bips no celular com dicas bizarras, encontrei uma touca de natação virgem, daquela época em que tudo custava 1 dólar nos EUA, que o dólar custava 2 ou 3 reais e eu joguei pra dentro do carrinho sem motivo algum, já que não nado há mais ou menos 27 anos. 🏊‍♀️ Coloquei a touca, me achei ridícula, mas apostei que se colocasse um chapéu por cima, de óculos e máscara, passaria despercebida no atual mundo em que deixamos de ser pessoas e passamos a ser “coisas de máscara na rua”. Andei uns 800 metros – deve ter sido meu dia mais fisicamente ativo da pandemia. 🏃‍♀️ Bem quando resolvi voltar, porque a máscara começou a me dar uma assadurazinha nas bochechas, dobrei à esquerda na Avenida Padre Antonio em direção à Pensilvânia, e uma brisa mais forte bateu, refrescando minha face suada. Eu não era mais uma quarentener fora do peso em busca de maçãs; era a Scarlett Ohara da pandemia: e o vento levou meu chapéu 👒. O danadinho pousou a poucos passos de mim, com as abas escarrapachadas num asfalto que, se não tinha covid, tinha no mínimo resquícios de cuspe, xixi e cocô de cachorro e talvez de gente. Alguns amigos diriam que teriam largado o chapéu ali. Outros, que voltariam o chapéu pra cabeça e f@da-se. Mas estou tentando ser uma pessoa melhor. Catei o chapéu pela parte de cima e continuei minha caminhada usando apenas a touca de natação. Percebi buzinadas e pescoços virados que não havia notado na ida – de chapéu. Reparei que não eram buzinadas dos ogros que gritam um “gostosa” aleatoriamente. Não liguei. Pelo menos eu fazia alguém rir, mesmo que fosse pela minha alegórica figura. Já perto de casa, me perguntei: e as maçãs? Não tive coragem de ir ao hortifruti de touca de natação. Voltei ao meu apartamento, peguei outro chapéu, mantive a touca e continuei a saga: não vou lavar o cabelo e comprarei maçãs. 💪🏻 Deu certo. De volta ao meu ninho, larguei as maçãs e os dois chapéus no “canto da quarentena” – onde notei que podia ser um bom local inclusive pra deixar os namorados mais malas, na época que voltar a existir namorados – e fui tomar banho imediatamente. Tirei a touca. Meu cabelo, suado, estava pior do que a vez que fiquei mais dias sem lavar cabelo na vida 🤡 – quando peguei catapora criança e alguém disse que eu podia morrer se lavasse. Depois de quase 24 horas estudando o melhor método e 2 tentando driblar toucas de natação, chapéus que voam e cabelos que não queriam ser lavados, liguei o chuveiro, molhei os cabelos resignada e me peguei pensando: devo lava-los com Protex? Acho que vou abrir mais uma enquete pros amigos. Haja cuidado! 🤦🏼‍♀️