Há certas situações que nos colocam em extrema intimidade com um estranho: dormir ao seu lado na cadeira do avião e viver no mesmo prédio. Hoje vou falar da segunda.

Raramente paro em casa. Quando não estou trabalhando, estou comendo fora, passeando ou principalmente viajando. Turista do meu apartamento mesmo. Pouquíssimo tive tempo para reparar nos hábitos dos seres que vivem na mesma floresta de concreto que eu.

Sabia que o zelador era um tal seu Jeovaldo e que ele dedica seus dias a encher a paciência alheia. Nunca fez nada pra ser simpático ou cortês. Sei que não faz parte da sua descrição de cargo abrir o portão pro morador passar, oferecer ajuda pra carregar uma sacola pesada ou mesmo para suspender uma mala até o porta-malas. Mas gentileza ainda não saiu de moda, saiu? Sendo ou não o zelador…

Tivemos uma atração explosiva quando me mudei para cá. Hoje vejo que não foi meu “privilégio”, embora eu desconfie estar no top 5 das suas vítimas preferidas. 🤷🏼‍♀️ Como eu trabalhava durante a semana, só podia fazer a mudança no sábado. No prédio em que eu morava, a mudança só poderia ser iniciada a partir das 9h e no novo prédio até no máximo meio-dia. Foi aí que o furdunço começou. Eu não tenho nenhum mobiliário de palácio de Versailles, mas embalar sofá, geladeira, cama, fogão, tudo isso leva tempo. Talvez mais que três horas. “Não.” Seu Jeovaldo repetia como se fosse a única palavra de seu repertório. O que ele queria? Que eu dormisse num caminhão baú com minha mobília até 2a feira?

“Mas não vamos fazer barulho, não tem nada pra usar furadeira ou serra elétrica. É só colocar pra dentro – ponderei.

“Não.” Seu Jeovaldo era um poço de maleabilidade. Um oráculo da razão subaproveitado.

Faltavam 15 pro meio-dia. Mandei o caminhão entrar e seu Jeovaldo ia ver com quantos paus se faz uma canoa! Ivy 1 X Jeovaldo 0

Em retaliação, ou apenas porque ele era chato mesmo, encasquetou que eu precisava preencher uma ficha de nova condômina. Tá bom, o pleito até não era absurdo. O problema é que o caos pós mudança na minha casa era tão grande que o papel se perdeu entre caixas e móveis em menos de 5 minutos e até hoje não se encontrou. A partir de então, durante 12 dias consecutivos, seu Jeovaldo ficava parado de butuca na porta da garagem, esperando eu sair pra perguntar sobre o raio da ficha. “Amanhã, seu Jeovaldo”, eu resmungava pensando que ainda não tinha lâmpadas. “Amanhã”, lembrando que o forno não estava instalado. Até que no 9o dia: “Me dá outra, seu Jeovaldo, que não aguento mais essa aporrinhação”. Entreguei a porcaria da ficha, onde eu devia escrever meu nome, o de quem estaria autorizado a entrar em meu apê e o nome da minha faxineira. “Tá satisfeito, Seu Jeovaldo”? Ivy 1 X Jeovaldo 1

Durante quase dois meses seguidos, minha funcionária foi barrada pra entrar no prédio. Desorganização ou preconceito? Talvez os dois. Toca o interfone da Ivy às 7h. A Ivy odeia ser acordada pelo interfone. A Ivy raramente acorda às 7h. A Ivy quando é acordada às 7 tem ganas de… deixa pra lá! Viva a vida em comunidade!

“Então pra que serve a 💩 da fichinha se toda semana vocês me ligam pra saber quem é a funcionária?”

Seu Jeovaldo não soube responder. Ivy 1 X Jeovaldo 0.

Nas poucas vezes que minha mãe me visitou, também foi barrada. Eu própria já fui impedida de entrar no meu prédio. Jeovaldo 1 X Ivy 0. Eu devo ser mesmo muito esquisita.

Depois que saí do meu último trabalho e passei a ficar mais em casa, logo uma ideia maligna me ocorreu: e se colocássemos seu Jeovaldo no paredão? – sugeri. Os vizinhos com quem conversei acharam justo a gente combinar votos, mas os outros deviam estar muito ocupados – assim como eu na época em que ostentação de liberdade era fazer um almoço de uma hora e meia com uma amiga. Seu Jeovaldo foi salvo pelo colar do anjo.

Agora veio o confinamento definitivo. Confinamento de quem já tava meio confinada não tem tanta diferença. Exceto pelo fato da gente reparar que a vizinha de baixo faz 💩 duas vezes ao dia – às 8h e às 17h, e que a de cima sapateia durante a madrugada, o que me levou a trocar o dia pela noite, começando a dormir depois do 💩 da manhã da vizinha de baixo. Ah, e descobri também que o casal de vizinhos do fundo só transa aos sábados à tarde. Uma vezinha só, e dura 4 minutos – não falha.

É muita intimidade.

Outro dia fizeram obra ou dedetização em algum apartamento próximo e do nada começaram a entrar uns bichos esquisitos no meu. Logo eu, que moro no 10o já pra afastar insetos e que mal abro a janela porque me disseram que havia morcegos na vizinhança. Era o apocalipse: meu reino tinha sido invadido depois de 5 anos!

Liguei para a portaria sem voz, só o pavor falava. “Vou avisar o Seu Jeovaldo”, disse o porteiro. 10 minutos se passaram, e nada. Eu estava petrificada de medo vendo uma fileira de bichos estranhos desfilarem pela minha sala. Liguei pela segunda vez. “Tá indo”, disse o porteiro com uma irônica compaixão. Depois de quase 40 minutos – para mim, o equivalente ao tempo de uma gestação inteira, tocou o interfone. Era a minha mãe. Minha mãe? Eu tava com tanta paúra que nem me indispus lembrando que na desgraça da ficha tinha autorização pra ela entrar sempre. Mas o que minha mãe tava fazendo lá?

Ela, tadinha, esbaforida, foi o mais rápido que conseguiu, porque o babaca do seu Jeovaldo falou que algo muito grave tinha me acontecido. Largou trabalho e já tava quase certa que eu tinha morrido. Que o telefonema da portaria pra ela – primeiro, em 5 anos que eu morava lá – era um eufemismo: Ivy tinha batido as botas. Game over pra mim.

Mãe é sempre mãe. Me acalmou, jogou qualquer coisa pra tirar os bichinhos, até que tocou a campainha e chegou um exército de bananas. Capitaneado por seu Jeovaldo, estavam o porteiro, o subpoteiro, o subzelador, o faxineiro, o subfaxineiro e o coach em solução de problemas condominiais. Ah, já tava esquecendo do subcoach. Mesmo com todo esse batalhão disponível, eles se viram no direito de incomodar a minha mãe – logo a minha mãe!

“Moço, dá licença de eu alcançar a botoeira?”

“Claro, pra qual andar você vai?”

“É o botão de saída, seu Boninho. Não nasci pra esse reallity show da vida real.”

Placar: perdemos todos.

Ivy Cassa

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