Era uma família normal aos olhos dos que se acham úteis dando palpite até sobre famílias. Um casal de funcionários públicos sem grandes aspirações, motivados pelos agrados que a função lhes proporciona na forma de pequenos luxos, que se materializam em um condomínio num bairro nobre de São Paulo. Não me atreveria a especular sobre a natureza desses ganhos. Como filha da minha mãe, acredito que o ser humano é bom. Minha mãe não foi discípula de Roussou, então talvez acredite mais nela que no gênio francês.

Eles eram um casal com filhos que se converteu numa dupla e não quis seguir os próximos passos para aceitar uma amizade com independência. Pararam no “não dormir mais juntos”, “não comer na mesma mesa”, ocuparem suas semanas com viagens fúteis a trabalho, que duravam mais dias que existem em uma semana, e restringir seus carinhos a 5 minutos por noite em que ela se queixava de uma dor da bursite e ele fingia prestar atenção enquanto dormia.

Quando, em uma de suas habituais jornadas de fuga da própria casa, ele conheceu a dama de vermelho, parece até que simpatizou com ela. Uma dúzia de amigos envolvidos na história foram além: ele estava adolescentemente apaixonado por ela. A dama de vermelho, ciente das dificuldades satélites, não queria sangue, só batom carmim. Na boca dele. Mas esperava que aquele funcionário público tão brilhante em sua função não tivesse dificuldade em saltar a barreira do conforto com suas pernas ensolaradas que ela gostava de despentear. Ela sonhava com uma mudança dele para sua Nova York, porque lá é o reino dos devaneios.

Ele não acreditou no amor deles. Conteve ou até esqueceu o seu quinhão. Era um amor aromatizador de ambiente, em que o perfume acabou e só sobram varetas secas.

Depois de alguns anos daquela minissérie de primavera, quando ela já estava de malas prontas para ir morar no Butão – porque é o país mais feliz do mundo e ela ia tentar, mesmo que com outros personagens e outras tramas – chegou a notícia de que ele partiu para outro país, que nem o Butão é. Ele, esquerdinha caviar, indo morar NESSE lugar? Ahã. Era tudo que ela precisava confirmar sobre ele. Fugiu. Cagão. Foi para o Refúgio dos sem Culhão. Lá habitam os que fingem não saber que a vida passa rápido e que o amor chega num trem bala.

O céu que ele vê pela janela não é o mesmo para o qual ela suspira. As estrelas e a própria posição da lua já confundem. Talvez, seja melhor assim. Não dá pra amar de ponta cabeça. Eu acho.

Mas se na fuga dele ele tiver levado qualquer trouxa de amor pela dama de vermelho, seria melhor que ele fizesse como os gregos, transformando esse amor em uma estrela, avisando para ela procurar. Parece que ela sempre está em busca no céu de algo que não sabe se existe. Ela já transformou suas ternurinhas numa galáxia. Quem sabe até um dia lhe dê uma pista. Mas ela deixou algo em si. Não só no seu reino dos devaneios, mas microchipado em cada célula sua.

Agradece àquele estranho homem por lhe causar um desprezo tão sofisticado e sonha que um dia ele possa entender a habilidade dela para regar a árvore, seca seca, que ele deixou no reino dos devaneios.

(Ivy Cassa)

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