Nasceu na faísca da trombada de um par de olhos azuis-húngaros-romenos-sérvios vestidos de marinheiro com outro par de olhos-baixos-e-tristes usando um vestido curto de renda florido. Era noite de carnaval, dizia o jornalzinho do navio. Mas eu ainda estava com o espírito do Halloween – quiçá de finados – em plenos meados de novembro; o vestido com as cores da primavera não me coloria.

“Você tem olhos mas não enxerga”, ele logo me repreendeu. “Há dias os meus te farejam, mas você habita outro planeta”.

É porque eu ainda estava em terra firme, mesmo depois de quase uma semana navegando. Os pés nas rasteirinhas douradas estavam plantados no chão de um lugar onde eu achava que não pertencia. Talvez eu estivesse ancorada e não me dado conta nem das coordenadas do porto. Não balançava com o movimento do navio. Tomava Vonau, Dramin que dá e que não dá sono e Vertix. Tomava qualquer placebo pra não reparar que tinha gente em volta e que eu também era gente. Eu me achava uma coisa muito esquisita. Só meu vestido mesmo fingia, bem timidamente, que era carnaval.

O amor a bordo cresceu como um feijão no algodão. O feijão do João do Pé de Feijão. Em poucas horas ele já transbordava a minha cabine, ficou mais alto que a chaminé do navio e me levou pras nuvens. Tinha gosto de morango com chocolate, vinho rosé italiano e pro secco. Me explicou que o amor é como um Lego: tudo é uma questão de encontrar a peça que encaixa. “Mas eu não encaixo”, retruquei lembrando que só neste ano precisei enterrar 2 amores vivinhos, por uma questão de auto sobrevivência.

Amor a bordo – expliquei pra ele – é uma variação do affair de verão. Vai lá no meu blog que você entende do que tou falando. Não sobe a serra nem sai do porto. Mas tem um quê de platônico, de medieval, de disfarçado e até um pouco proibido, daí a graça.

O amor a bordo é a fotografia mais bonita das férias – férias em que quase nem se tiram fotos porque esse tipo de amor tem pressa. Às vezes tem só 5 minutos entre um turno e outro – nem dá tempo de fotografar! Deve evitar batom vermelho porque amor a bordo não pode desfilar pelo navio com boca vermelha carimbada na gola branca da roupa de marinheiro. É um amor sem maquiagem.

É cafona; azul como o oceano em águas profundas; claro como o mar do Caribe; sereno como um barco atracado no porto; intenso como as ondas em dia de tempestade. E triste como um navio no fundo do mar.

Ele me desafiou: explicou que o amor a bordo usa colete salva-vidas, que se cair na água não desmancha, acende uma luz e ainda apita, que pode até ser içado por helicóptero.

Meu amor… precisamos colocar os pés no chão. Ainda que o amor a bordo tenha planos pra férias em países húngaros-romenos-sérvios, ele acaba assim que o cartão que dá acesso à cabine passa pela última vez na catraca da segurança do porto final. Fica incomunicável como o Wifi do navio. É efêmero como os amores – sejam em terra, ar ou principalmente no mar.

Pra quem acredita que amor não tem fim, só se transforma, então digamos que o amor a bordo virou um souvenir na carteira. É uma onda alta que se desmanchou em espuma…

(Ivy Cassa)

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