Gente de perna curta e comprida, roupa passada e recém saída da 5 a sec. No geral, todo mundo parece ter alguma glamour no aeroporto.

Mesmo com calça sem fazer barra, fragmentos de sapatos dando as caras, calças curtas demais (de defuntos menores?), meias que ficam perdidas nas metades das panturrilhas, pelos expostos em canelas quase sempre finas.

Ombros de ternos maiores que os corpos. Sandálias passeiam tanto com unhas com esmaltes cintilantes, cascões na solas dos pés e micoses. Esmaltes lascados. Xales nas costas, ai que frio, ai que ar condicionado, a que pressa!

Ai que cheiro de pipoca, de pão de queijo, de nutz e de tapioca. R$ 10 por um pão de queijo e uma água Cada um m? Cê tá ficando maluco!

Ai! Não tem Dramin? Vonau flash?

Tem pelo um carregador para o iPhone? Um que funcione já tá bom.

Tem tanta gente amontoada no totem pra carregar celular que parece que estão dando pão de queijo com água de graça ali.

Falta muito, moça? É que eu sofro da coluna. Falta muito, moço? É que eu tenho uma reunião, meu cliente pode perder bilhões se não chegar lá.

“É culpa do Lula! Do Bolsonaro” gritam aleatoriamente na fila.

Nisso, sempre aparece um advogado pra tentar botar ordem no caos – que não tem solução – , mas ajuda a tumultuar ainda mais a situação, enquanto uma criança tem um ataque de birra. Todo mundo se alivia quando abre a porta da esperança – digo, a porta de embarque. Pobres comissários. Até hoje não sei como nunca foram pisoteados antes do embarque no avião.

Existe grupo de prioridade, mas parece mera frescura.

“Primeiro, embarque prioritário”, grita a comissária que não deve ir casa há uma semana -, exagerando no tom de voz. “Depois, os grupos de A a F.”

Não adianta. Todos se amontoam ao mesmo tempo, fazendo valer seus direitos na base do grito e do empurrão. Não raro, capitaneados por aquele advogado agitado. Um artista brilhoso, com a barra da calça mal feita, pior que sua polidez, passa na frente da senhora de muleta. Deve ser prática da companhia. Oras! Afinal, o que deve ser importante deve ser todo mundo sair correndo, como se entrar no avião fosse uma grande gincana maldita, com direito a carrinhadas de malas nos tornozelos dos outros a cada 40 cm! Dá a impressão de que a aeronave vai partir e deixar alguém daquele grupo ficar só por maldade. Deixa-se também a gentileza pra lá. O importante é colocar bundinhas na cadeiras e socar as malas que claramente têm peso proibido no compartimento de cima, matando um desgraçado que levar uma malada na cabeça num solavanco de turbulência.

No meio desse fundunço, eu ainda procuro mais um vez por ele. Por quê, se a gente nem marcou um encontro? Por quê, se há tantos anos? Por que seu nome estaria numa lista de passageiros, em plena quarta-feira de setembro? Ele talvez estaria com seus fones grandes, muito grandes. Porque todo mundo hoje em dia usa fones grandes pra não ouvir os sons da vida, do aeroporto, dos avisos das companhia aéreas. E se ele usasse aqueles fones, talvez não me ouvisse. Talvez não quisesse me ouvir. Não prestasse atenção a mim ou ao poema que eu teria improvisado pra ele na fila do embarque. E eu passaria mais uns tantos anos tentando encontrá-lo, por um prazer masoquista, nos aeroportos e na vida.

(Ivy Cassa)

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