Tia Gê trabalha em casa há uns tantos anos. Menos anos que os amores que tive, mas mais anos que as vezes em que acreditei que eles seriam “pra valer”.

É do tipo cuja presença pouco se nota, assim como faz de conta – e desempenha muito bem esse papel – que é invisível pra não interferir em certas intimidades do lar.

Tia Gê não comenta sobre escovas de dentes de visitas no lavabo – sou paranóica com bocas, dentes e escovas, sempre tenho umas tantas de reserva para pernoites eventuais. Não fala de taças de vinho esquecidas sobre o criado-mudo, camisinhas no lixo, vibradores em gavetas de calcinhas.

Tia Gê entende que quando peço “capricha porque hoje tem visita” não significa que serei anfitriã da Tati ou da minha mãe – por mais que eu as receba muito bem em casa. Ela sabe que a palavra “visita” é sinônimo de colocar na cama a colcha de algodão egípcio penteado, de esconder as calças de flanela do mickey, as pantufas de urso de pelúcia, os cílios postiços e o spray descongestionante para o nariz.

Mesmo com os nossos horários pouco coincidindo, tia Gê me conhece bem: sabe que a felicidade são rosas amarelas no vaso vermelho de murano da sala de jantar; que o trabalho tá pesado quando faltam ovos, iogurtes e frutas para o café da manhã; que época de dar aula é de esparramar não um ou dois livros, mas a biblioteca toda pelo tapete da sala; que tempo de viagem emendada em viagem é não só de tropeçar em mala na porta da cozinha, mas também sinal de que estou fugindo da minha própria vida; que stress são chumaços de cabelos loiros caídos sobre o piso; que o prazer coabita com um sutiã arremessado em cima da TV; e que a tristeza mora em caixas de Rivotril e nas bolinhas de lenços de papel jogadas ao lado da cama.

E quando é dia de tristeza, tia Gê finalmente sai da sua invisibilidade e faz questão de deixar um bilhete solidário: “Filha, hoje a faxina saiu no capricho! Esfreguei cada cantinho da casa com a escova de dentes que estava no lavabo, principalmente os banheiros. Deus te abençoe.”

Obrigada, tia Gê! Dessa vez também não foi “pra valer”… mas, quem sabe na próxima?

Ivy Cassa

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