Oi, tia!

Lembra daquele cartomante que era seu vizinho e disse uma vez que o “homem da minha vida” era um árabe?

Tá, eu sou cética, você sabe. Tanto sobre cartomantes quanto sobre “homens da vida”. Talvez, ainda mais sobre “homens da vida” do que cartomantes!

Mas não custava tentar encontrar, né, tia? Depois dos papelões que tenho vivido com os brasileiros. E também com os franceses, italianos, ingleses e australianos. Até com os homens de Java, tia! Podia ser que o problema estivesse na nacionalidade. Podia ser que eu estivesse apostando as fichas no país errado.

Bem, aquela coisa de que os árabes trocam mulheres por camelos… nem preciso dizer que deve ser lenda. Mas, ainda, que não fosse, não tava nos meus planos. Fique tranquila, tia! Esta carta não é uma maneira sutil de lhe avisar que está chegando um carregamento de camelos no seu apartamento. 😀 Eu podia trocar meus beijos por massagens nos pés. Meus carinhos por uma dança. Meus poemas por alguém que os ouvisse.

Mas, também, mesmo que os camelos fossem uma opção, não me ofereceram qualquer um.

Teve até um rapaz que me laçou (literalmente) com uma pashmina no souk, disse que estava enamorado por mim, que eu parecia a Shakira e que eu podia escolher qualquer modelo que me daria como presente. Depois de uns minutos de conversa e de tirar algumas fotos comigo, cobrou 40 euros pela que escolhi, que eu ainda consegui pechinchar por 35, porque parece que discutir o preço faz parte da cultura. As promessas continuam efêmeras em qualquer parte, tia!

Depois, teve um que me ofereceu vinho – aqui no Marrocos é uma preciosidade, quase não se encontra. Bebemos 2 taças e, quando achei que estávamos ficando “imunizados”, ele propôs uma troca: ele pagava as taças e eu passava a noite com ele. Ai, tia! Achei tão deselegante! Sério que ainda há homens que fazem esse tipo de proposta? Será que há mulheres que aceitam? É, tia… parece que acabou a Era da Gentileza.

No fim da noite, quando passei bem triste pelo saguão do hotel do bar para o quarto, foi um rapaz que serve chá quem me confortou. Não só com o chá marroquino, que é delicioso, mas também porque quis saber a razão da minha tristeza. Ainda há pessoas que ouvem, tia! Me deu um segundo copo de chá e, quando eu disse que era escritora, quis que eu lesse para ele alguns dos meus textos. Eu estava, afinal, imunizada pelo chá marroquino! Quando me ofereci para pagar, ele disse que era cortesia. Me senti então na obrigação de oferecer uma caixinha, mas ele ficou ofendido – eu talvez tenha sido mesmo indelicada. Não por maldade, mas talvez por estar acostumada a pouca gente ser gentil sem segundas intenções. Ele obviamente não se ofereceu para passar a noite comigo – eu nem passaria, embora precise registrar que era um rapaz no mínimo bem apessoado.

“E o que posso fazer por você?” perguntei.

“Escreve uma história sobre mim e publica no seu blog.”

Tia, continuo cética e sem acreditar em cartomantes ou em “homens da vida”. Mas refleti que talvez o problema não esteja na nacionalidade e, sim, na necessidade de retornarmos à Era da Gentileza. É bem provável que não exista mesmo “o homem da vida”: nem árabe, nem brasileiro, francês, italiano, inglês, australiano ou de Java. Mas é capaz que ainda exista gente do bem.

O amor definitivamente não é uma troca de centenas de camelos, embora não deixe de ser uma troca: uma troca justa. Menos camelos, menos promessas vãs, menos propostas indecentes. Mais ouvidos, mais carinho, mais chá, mais palavras gentis.

Um beijo, tia!

Ivy Cassa

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