Mulher também chora

O homem de terno alinhado passou cheio de pressa pelo corredor do shopping do aeroporto Bossa Nova com perfume Azzaro, porque eles quase sempre andam assim, sem prestar atenção às calças curtas cor de rosa desmaiado que estão na moda ou, nas camisetas com estampas de tucanos expostas nas vitrines do caminho do lounge até o Uber, na cor do céu e sequer às pombas atrevidas que se põem a furtar pipocas caídas dos pacotes das crianças mais estabanadas.

Apesar da suposta pressa que fazia parte do seu script de homem supostamente poderoso, algo o instigou para que interrompesse seu desfile de passadas largas e recuasse puxando a sua Samsonite de quatro rodas de ré e ficasse um tanto confuso, pra não dizer até estarrecido, ao ver a sua advogada – ou pelo menos parecia ela, talvez um rascunho dela, sentada na beira de uma lata de lixo chorando. Aquilo não era lugar pra uma doutora!

Bem, pelo menos ela não estava vomitando – ufa! Não aparentava estar comendo um sorvete que derretesse e pudesse sujar sua roupa – sua, dela, nem mesmo um saco de pipocas que deixasse resíduos para serem aproveitados pelas pombas. Ela estava sentada ao lado do lixo, descomposta, mas de certa maneira elegante – mesmo que não fardada como uma advogada supostamente deveria estar, já que não havia calça social, nem vestido de renda ou sapato de verniz bicudo; ela trajava apenas uma minissaia quase ousada de tão curta, uma miniblusa, mostrava as unhas dos seus pés azul piscina em uma sandália decorada com conchas.

Ela permanecia indiferente ao mundo, derramando suas lágrimas que escorriam sem pudor ao lado do latão de lixo, amparadas por pacotinhos de lenço com desenhos infantis, mostrando visível dificuldade em aparar aquelas que escorriam sem pudor e sem qualquer aparo por baixo dos seus óculos de grau.

Seu Gonçalo tentou se aproximar. Ela foi capaz de reconhecer seu vulto pela janela molhada dos óculos.

Apesar de a pauta proibida ser evidente, a discrição dele não lhe permitia romper qualquer protocolo de uma relação tão formal.

“Eu não sabia que o doutora usava óculos de graus!” Ele improvisou.

“É só quando chove”, inventou ela. “Porque só uso óculos de graus quando quero me esconder do mundo” – prosseguiu.

Seu Gonçalo é o produto de uma criação que lhe ensinou que ou as mulheres choram e tentam realizar atividades de menor engajamento, ou choram tanto que não tem como se dedicar a qualquer tarefa – teoria dele, eu desconheço. Ou eram como ela: mulheres em sapatos de salto sem choro.

Estou tentando me engajar em uma época em que as pessoas podem ser advogadas e “gente”, sem que um prejudique o outro.

Ela, talvez porque concordasse comigo, de qualquer modo, achou pouco oportuno contar ao Seu Gonçalo o motivo do seu choro: uma geleia de cupuaçu que acabou, um amor que há anos tenta ser e não é, novas possibilidade que não se concretizam e conduzem a uma vida amorosa bizarra. Clientes talvez não gostem disso, que não era seguro, tampouco era previdência. Não era mercado e nem direito. O Seu Gonçalo, se fosse um tantinho mais relaxado, poderia ter lhe dado um abraço – nada mais que fraterno – e ela não precisaria ter contado nada, de repente até parado de chorar. Mas ele não era de abraços.

Afinal ela se recompôs e propôs que, a caminho do portão de embarque, tomassem um sorvete, mas deu meia volta quando o ouviu falando no celular com o sócio dele de maneira pouco discreta:

“Precisamos repensar nossos prestadores. Você sabia que mulher chora?”

E ela, ferindo as regras de etiqueta ensinadas pela sua mãe, se intrometeu na conversa: “Você acha que porque estou aqui no aeroporto, vestida desta maneira, quando deveria estar “fardada” não deveria chorar? O hábito não faz o monge. Vocês deveriam experimentar chorar um dia também.”

Ela lhe deu um abraço carinhoso e de bochechas molhadas. Seu Gonçalo ficou estático no corredor entre o portão 3 e o 4.

“Sente-se melhor? É ocitocina!” – ela completou.

Ele tirou um lenço de seda do bolso do paletó. Naquele momento, um esboço de choro pareceu ter aparecido, muito tímido. Homem de terno alinhado e perfume Azarro deve fingir ou também se colocar a chorar na beira do lixo?

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