Talvez pouca gente saiba, mas a felicidade (ou algumas das suas formas) existe e tem endereço: ela mora em uma piscina de borda infinita, que fica no 57o andar de um luxuoso hotel em Singapura.

Pode-se afirmar que o seleto grupo de hóspedes que tem acesso à tal piscina é mesmo afortunado; não só pelos óculos de sol Prada que usam, pelos relógios de dezenas de milhares de reais que ostentam nos pulsos ou pelos corpos que desfilam, cuidadosamente esculpidos pelos melhores cirurgiões plásticos. A alegria está estampada no registro daquela fortuna – quer dizer, da felicidade – nas redes sociais.

Uma moça acomodou-se em uma cadeira à beira da piscina e escondeu-se atrás de um livro, óculos de sol e da aba de um chapéu para espiar o movimento.

Reparou na felicidade generalizada dos modelos de selfies, ainda que aquilo durasse poucos segundos e todos ficassem a maior parte do tempo mergulhados mais em seus celulares que na piscina. A felicidade é um tanto efêmera. Um suspiro, um abrir e fechar de lábios, um toque do dedo no botão da câmera – refletiu.

Um jovem casal era feliz enquanto ele a fotografava – de frente, de perfil, olhando para o infinito, de costas, cabelos ao vento… Mas, a cada pouco, a felicidade dela saía correndo e se convertia em um grito com ele, porque as fotos não estavam do seu gosto. Naqueles momentos, a felicidade dele também subitamente esmaecia. A moça do livro, olhando de longe a tela do celular dele, não era capaz de enxergar desenquadramento grave que justificasse tanta bronca, embora isso pudesse ser só porque ela não estava com seus óculos de grau. Ou então, de repente a jovem não era tão fotogênica ou se imaginava de um jeito diferente – supôs a moça do livro. A felicidade deles era intermitente, só durava enquanto ela posava. A felicidade é intermitente mesmo, ruminou a moça.

Perto deles havia outro casal. O senhor de uns 60 anos, usando uma bermuda de tartarugas da Vilebrequin, estava acompanhado de uma mulher visivelmente mais jovem, e ambos ostentavam robustas e reluzentes alianças douradas. Enquanto ele gravava um filme de si mesmo escorado na borda infinita da piscina, a esposa socializava (e também sensualizava) e sorria para um grupo de rapazes provavelmente da sua idade e possivelmente ex-personagens de alguma das sequências de American Pie, que estava na outra ponta da piscina. A moça do livro achou que o marido não reparava ou não ligava. A felicidade talvez esteja em fecharmos os olhos para certas coisas, pensou.

E foi quase assim que aconteceu ainda com um terceiro casal observado pela moça do livro: a senhora, de uns 50 e poucos anos, não admitia que seu filho perdesse um só registro dos seus peitos amparados, braços se esticando e pernas quase abrindo um espacate – tudo isso na borda infinita da piscina. A moça do livro ficou um pouco sem jeito porque reparou que o marido da outra revezava olhares entre ela própria, a senhora da volumosa aliança e boa parte das moças da piscina. A felicidade às vezes deve ser vista por vários ângulos – deduziu.

A moça do livro devia ser a única que, pelo menos naquele dia, não tirou qualquer foto. Largou o livro e entrou na piscina, caminhando até o muro onde a borda era infinita. Ficou pensando na última vez que tinha entrado naquela água, há alguns anos. Ela e o então namorado não fizeram qualquer registro fotográfico porque estavam muito ocupados: ficaram olhando o Skyline da cidade até os dedos das mãos e dos pés enrugarem enquanto ela enlaçava a bermuda verde dele com suas pernas e seu pescoço com suas unhas vermelhas. A felicidade dela tinha sido tão infinita quanto a borda daquela piscina quando ela viu Singapura no intervalo de um e outro beijo dele. Tão infinita que durou até aquela outra viagem, tanto tempo depois, porque a felicidade às vezes não posa pra fotos nem usa redes sociais. A felicidade pode morar em qualquer lugar e não necessariamente na piscina mais alta do mundo. Ela pode ser de mentirinha ou estar escondida num segredo, numa memória. A felicidade pode ser uma saudade – concluiu a moça do livro.

(Ivy Cassa)

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