Amores reconciliados são uma camisa masculina azul da Dudalina (“escolhi porque você gosta de azul”) e um vestido branco de renda (“escolhi ao acaso, nem tava me arrumando pra isso”) se encontrando em plena quarta feira à tarde. Porque reconciliações às vezes não podem esperar o expediente acabar.

Amores reconciliados são dois copos sobre a mesa daquele bar de sempre, ali perto da casa dela (o que ela apelida de “meu bar”).

No copo dele, whisky. Porque ele precisava de um empurrãozinho pra tentar explicar a sua ausência e a sequência de mancadas nos últimos meses. No copo dela, suco de melancia. Porque ela precisava estar muito lúcida para não se deixar levar por uma desculpa qualquer. Mas não era só isso: ela conhecia bem o efeito que duas taças de champanhe poderiam provocar. Duas taças de champanhe e a boca dele. Duas taças e as mãos dele. Duas taças e os braços dele. A boca dele, as mãos e os braços, mesmo sem qualquer champanhe. Então se conteve como pode:

– Sem borbulhas hoje. – sentenciou.

– Pede. – ele sugeriu. “Borbulhas de amor”. – arriscou ainda uma piadinha pra ver se quebrava o gelo.

– E cadê o amor? Sumiu nos últimos meses?

Ele tomou mais dois copos de whisky. Perguntou da vida dela, da saúde, do trabalho, da família. Ela, recolhida atrás do copo, só se questionava mentalmente: “por onde você andou esse tempo todo?”

Depois de muito blá blá blá, ele finalmente conseguir convencê-la a irem a um outro local – de repente, mudando de cenário ele conseguia facilitar as coisas – ele pensou. Sugeriu um restaurante novo na cidade, moderninho, daqueles que têm uma fonte luminosa com uma escultura de algum artista famoso na porta, um banheiro com uma pia que dá a impressão de que ao abrir a torneira virá uma tromba d’água nos pés e que servem as refeições em pratos ovais, que só servem pra derrubar os talheres cada vez que são pousados na borda. O lugar era a cara dela.

– Agora você divide comigo uma garrafa de vinho, né? Rosé, aquele que a gente gosta.

Ela, ainda relutante, acabou aceitando, mas só porque imaginou que ia ser muito chato jantar num restaurante com uma fonte tão iluminada, uma pia tão transparente e pratos tão ovais bebendo só água.

Ele já havia explicado o que era possível. Reiterou desculpas pela ausência e pelos erros. Disse que tinha mudado. Ela desfiou seu rosário de mágoas. Eles lamentaram o tempo perdido:

– Sou esquisito. Você é complexa. E eu estava em outra fase. Agora será diferente.

– Você é esquisito E complexo – ela rebateu.

– Mas nós somos pra ficar juntos.

Amores reconciliados são duas taças de vinho rosé tilintando sobre a mesa enquanto os talheres despencam dos pratos ovais – e quem foi mesmo que inventou pratos nesses formatos?

Amores reconciliados são 3 ou 4 beijos dados na saída do restaurante moderninho, na borda da fonte da escultura do artista famoso que eles desconheciam, sob a censura do segurança.

– Mas você NÃO vai dormir lá em casa hoje. – ela advertiu. Que a minha mágoa ainda não passou. Quem garante que amanhã não lhe baixará o espírito de Shrek de novo? Não pense que minhas feridas cicatrizaram assim de uma hora pra outra com duas taças de vinho rosé.

Amores reconciliados são ele e ela indo embora em táxis separados, mas trocando mensagens de WhatsApp até chegarem a um consenso depois de 7 ou 8 quarteirões de percurso: que só haveria reconciliação de verdade quando os sapatos Samello dele estivessem na porta da casa dela, junto com as sandálias de salto alto Jimmy Choe dela (“porque aqui em casa a sujeira da rua fica do lado de fora” – ela dizia).

Amores reconciliados são rabiscos do batom magenta dela pela gola da camisa azul dele, e também nos ombros e até no umbigo, porque ela sempre ri do umbigo dele por causa daquela música do Chico que ele dizia que era feita pra eles.

Amores reconciliados são a camisa azul dele amarrotada e enroscada nas rendas do vestido branco dela, jogados no tapete da sala.

Amores reconciliados são ele saindo do prédio dela antes do sol nascer vestindo uma camiseta dela 2 números menor que o dele por baixo do paletó, porque ela quis ficar dormindo no tapete da sala com a camisa azul dele e ele afinal achou que a tal camisa ficava mais bonita nela do que nele.

Amores reconciliados são a música do Chico que ele manda pra ela do táxi na hora de ir embora: “Eu te amo”.

Amores reconciliados são a promessa que ele fez pra ela de ser menos ausente e dar menos mancada dali pra frente. E o sim que ela disse pra ele, pra camisa azul, pra boca, pras mãos e pros braços dele.

(Texto continua…)

(Por Ivy Cassa, texto escrito de Singapura)

#portasabertas #portasabertasivycassa #quemnunca #crônica #autoficção #literatura #leiamulheres #amor #reconciliação #amoresreconciliados