29DC0E34-ED4E-4CE7-B572-F194E008C512.pngJá falou-se aqui nesta página sobre amores despossiveis, amores desobedientes, amores proibidos, amores mal resolvidos, amores clandestinos, amores que acabam, amores que começam, amores que transgridem, amores Abelardo e Heloisa, amores Romeu e Julieta…

Hoje falaremos sobre outra modalidade: os amores engasgados.

Amores engasgados são aqueles que precisam ser expelidos do nosso interior por questão de sobrevivência, já que não se pode viver sem ar.

São amores copo de suco de cupuaçu: o sabor pode até ser adorável, mas mesmo saborosos têm de ser cuspidos porque se perderam no labirinto digestivo.

São amores casquinhas de pão na traqueia, que, no desespero de tentar nos desestabilizar ou por pura falta de caráter, cortejam sem qualquer pudor até nossos próprios amigos, pra ver se o ar não chega até nossos pulmões.

São amores farofa de sorvete na laringe, que os nossos amigos tacham de babacas, imaturos, inseguros, confusos e até feios, só pra procurar nos convencer que “foi melhor assim” e que um amor como aquele só nos sufocava.

São amores fiapos de coco ralado, que nos deixam esperando por um telefonema, um WhatsApp, um e-mail, uma visita… gostam de nos deixar remoendo situações pelo maldoso prazer de ver a epiglote se confundindo no fechar e abrir da válvula.

Amores engasgados causam até saudade… Dão vontade… Acendem o desejo. Mas é mandatório expulsa-los de dentro de nós. Não porque esquecemos; afinal, amores engasgados não são amores que chegaram ao fim. Acontece que amores engasgados são paçoquinhas de festa junina esquecidas no fundo do armário: nos lembram periodicamente que amar pode ser delicioso, mas que viver com o alívio de não ser asfixiado é libertador.

(Ivy Cassa) #portasabertas #portasabertasivycassa #amor #amorengasgado #poesia #leiamulheres #literaturabrasileira