B53BAFC2-DBAC-4DA1-9D82-1DAAD8B6F270.jpeg

 

Hoje, quando os bicos finos dos meus sapatos altos de verniz pousaram no chão da calçada, bem ali na saída do edifício, meus pés de pronto tiveram uma intuição (presunçosa, admito) de que aquela sombra projetada ao lado da banca do jornaleiro, em frente à floricultura, era você.

Meus olhos enxergaram naquela silhueta de terno o seu habitual traje escuro um pouco surrado e, não fosse pela sombra ter caracóis na cabeça, ela poderia ser de qualquer um: mais um advogado desfilando pelas calçadas acidentadas do centro de São Paulo, com suas pastas puídas, indo em busca de um direito qualquer que prometeram dar a algum cliente embalado como sonho.

Mas você nunca foi só “terno e caracóis”. Se virasse um pouquinho na minha direção, eu poderia confirmar se os olhos da sombra eram os mesmos que exploravam meu corpo e decifravam meus escritos enigmáticos. Aqueles olhos misteriosos, ora meio apáticos e relutantes, ora olhos de um leãozinho amansado pela sua domadora…

A sombra permanecia imóvel, como que procurando algo do outro lado da Av. São Luiz. Se ao menos ele se virasse e eu pudesse ver seus lábios, era bem capaz de eu reconhecê-los. Aqueles lábios quase avermelhados, quase carnudos, que quase enquadravam sorrisos que não podiam ser sorridos porque eram proibidos. Que davam poucos beijos porque se beijos já eram proibidos, imagina o agravamento da pena pra muitos beijos!

Se eu tivesse me colocado na frente daquela sombra, entre a banca de flores e a rua, era bem capaz de você, em sendo o rapaz da sombra, me reconhecer. Porque eu estava usando aquele vestido vermelho nova-iorquino, o seu preferido, o nosso vestido. Sem a capa preta. Os sapatos de verniz também são seus velhos conhecidos; quantos pisões nos pés já levamos no desencontro das nossas pernas tentando se encontrar! Meus olhos, talvez um pouco tristes e escondidos atrás dos óculos de sol, brilhariam até mesmo com a mera esperança de aquela sombra ser você.

Se eu desse dois passos ali pra frente e você pudesse me ver, eu estaria sorrindo. Não aquele sorriso profissional de monalisa que você batizou um dia. Nem o sorriso que criei só pra você. Seria um outro: um sorriso ainda emoldurado por aquele batom vermelho vivo que você gostava, mas que agora é um pouco mais triste do que o aquele que sorríamos juntos. Foi o sorriso que sobrou em mim depois que nos afastamos. Que nós partimos e nos esfacelamos. Foi o sorriso que inventei pra me manter aqui, viva, respirando, em pé, à beira da calçada, sobre os sapatos de bicos finos, dando um ar de que a vida continuou na porta daquele edifício.

Chamo teu nome. Nada. A sombra não se mexe. Hesito, mas crio afinal coragem e me aproximo da sombra. Quase toco naqueles cabelos, e quero pegar nas mãos, e desalinhar o terno. Procuro os olhos, a boca, mas tudo é sombra!

A sua sombra me dá medo.

Você é a sombra de um amor que não consigo ver.

Eu não te alcanço.

Talvez esse amor só exista em mim. Só exista entre mim e essa sombra maldita de você.

Não posso viver à sombra de alguém que talvez não seja mais você. Não posso amar uma sombra.

Ninguém pode amar uma sombra!

Mas eu amo a sua sombra. Amo a sombra do que vivemos um dia. Só não sei se ainda amo você, porque talvez seja injusto gastar tanto amor amando apenas… uma sombra de você!

(Ivy Cassa)

(#portasabertas) (#portasabertasivycassa) (#literatura) (#literaturabrasileira) (#leiamulheres) (#autoficção)