O mundo são maçãs

Bananas

E algumas cerejas

Mas passamos a vida atrás de cupuaçu.

Maçãs são cotidianas, até vulgares. A paixão pelo trivial não perdura; deixa de ser paixão. Maçãs do amor? Trincam os dentes e são muito doces. O amor é delicado, tem sabor próprio, não precisa ser tão melado.

E mesmo que se suspeite que as maçãs sejam frutos proibidos, elas não se sobressaem.

Nada é tão proibido quanto o cupuaçu.

Bananas são mais banais ainda: se é a preço de banana, boa coisa não pode ser. Não nos afeiçoamos às bananas, sequer queremos ter bananas por perto. Queremos personalidade. Não gostamos do que é tão fácil. Gostamos do singular, do incomum, do pouco usual.

Gostamos de cupuaçu.

Cerejas moram em cima dos bolos de aniversário e dos pães doces da padaria. Aparecem penduradas em sacos transparentes nas barracas de feira na época de Natal. São ostentadas nos carrinhos de supermercado das madames nos Jardins.

Cerejas se enamoram com drinks e também com chantilly.

Gostamos de festa. Gostamos de sobremesa. Mas cerejas não são suficientes para satisfazer o nosso dia a dia.

Precisamos de cupuaçu.

No Jardim do Éden há cupuaçus. Cupuaçus libertam. Cupuaçus são transgressores. O sabor do cupuaçu persiste na boca, no corpo e no imaginário. Cupuaçu é amor. Cupuaçu é vida: a vida vivida e a saudade da vida que não vivemos juntos. Somos insaciáveis… por cupuaçu.

Seguimos pelos pomares da vida provando novos sabores: estamos abertos a experimentar o novo.

Colhemos frutos de outras árvores quando é preciso.

Comemos maçãs, bananas e cerejas se não tiver outro jeito. Às vezes, até nos empanturramos.

Mas,

quando queremos sentir o sabor da vida,

O gosto do pecado

A sensação de completude.

Comemos cupuaçu.

(Ivy Cassa, texto escrito no Pará)

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