Era uma manhã de sábado que dava boas razões para que o dia não começasse: estava frio e a chuva batucava na janela do meu quarto.

Ainda no escuro, estiquei a mão no criado-mudo e tateei até encontrar meu iPhone.

3 mensagens no WhatsApp.

– Poliama-me – Dizia a primeira, de Caetano.

– O que é poliamor? Respondi.

– É uma nova forma de amar: eu continuo casado, mas te amo, daquele nosso jeito etéreo e trovadoresco. Não há mal em amar assim. Trocaremos poemas até o dia em que ficarmos entorpecidos de tanto amor.

– Entorpecidos de poliamor, né? Ser tua amante? Não, Caetano! Amor de poeta, pra mim, é por uma musa só!

Bem ofendida, fechei a mensagem e passei pra próxima. Era do Dr. P.

– Poliama-me!

– Por que poliamar? Você não é casado… nem eu! A gente pode se amar e até namorar.

– Jamais! Não sou homem de ter rabo preso! Mas proponho ser o teu amante fiel.

– O que é um amante fiel?

– É o cara que te ama. Só a ti. E tanto até a ponto de querer que tu te cases com outro. E, se isso acontecer, ficarei sendo o teu amante fiel. Só teu.

Apaguei a mensagem. O Dr. P não devia estar batendo bem. Outra hora a gente conversava direito.

A terceira mensagem era do Homem de Java:

– Ti amo, principessa!

– Não! Você ama a Antonella! Você é casado com a Antonella! Por isso não ficamos juntos, lembra?

– Ti poliamo então! Você vem para Java de vez em quando, a gente faz muitas luas de mel e o restante do tempo eu passo com a Antonella.

Não era possível. Tava todo mundo doido! Levantei e fui buscar um copo d’água na cozinha. No caminho, chegou uma quarta mensagem. Era da Flor, minha amiga Florbela Espanca:

“Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: Aqui… Além…

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…”

Florbela!! Mas até você?

Se até Florbela poliamava, será que eu também deveria experimentar esse tal de poliamor?

Resolvi dar uma chance: escrevi um poema para Caetano, um para o Dr. P e um para o Homem de Java. Escrever me extasiava, eu começaria poliamando assim. Marquei um jantar com o Dr. P. praquela noite e uma lua de mel com o Homem de Java para o dia seguinte.

Mas Caetano não me devolveu um poema. Só escreveu: “mata-me da tua vida. Tu escreves muitos poemas e não podes amar outro que não seja eu.”

– Mas não nos poliamamos?

– Eu posso te poliamar, tu não.

Algumas horas mais tarde, veio uma mensagem do Dr. P.

– Não vou mais jantar. Esqueci que preciso dar aula daqui a 3 meses.

– Mentira! Não poliamas-me mais!

– Tu amas a mim e a Caetano e ao Homem de Java. Eu interceptei teus poemas.

– Não se intercepta o que é público! Além disso, e se fosse Caetano ou o Homem de Java aquele com quem eu decidisse me casar como sugeriste? Não serias mais meu amante fiel?

– Não, eu não quero mais que me poliames. Não sou pra ser poliamado, na verdade. Eu quero ser apenas… amado.

Antecipei meu voo para Java para aquela noite mesmo. Há coisas que só os Homens de Java haveriam de me ensinar, afinal: poliamar! Cheguei ao aeroporto já imaginando a cor das flores do buquê que ele tinha trazido pra me buscar e que perfume ele estaria usando. Nada como um Homem de Java! Mas ele não estava lá. Só podia ser sacanagem! Até ele??

Nisso chegou uma mensagem no meu celular: “Amore, perdão, mas não posso te encontrar. Estou foragido.”

– Foragido? Como assim?

– Matei a Antonella.

– Matou? Mas por quê??

– Descobri que ela me poliamava com o Luigi. Imagina! A MINHA mulher poliamando! Que mundo é este, principessa?

– Que mundo é este… – repeti.

Peguei minha mala e, desolada, encostei num banco. Precisava escrever com urgência pra Florbela:

“Descobri o que é o poliamor. É quando os homens podem amar toda gente. Esta e Aquela, sem compromisso. E as mulheres não.

Flor: eu quero amar, amar… Perdidamente! Só um. Não! Flor, pensando bem, não quero mais amar alguém.”

(Ivy Cassa)

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