Ele era um enigma escondido atrás de um par de óculos de grau de aros grossos.

Ela era o desatino dando piscadinhas maliciosas enquanto baixava seus óculos de sol espelhadinhos.

Ele oscilava seus humores como a energia elétrica de um prédio antigo.

Ela desequilibrava seus humores com a mesma frequência das oscilações dele.

Ele dizia pouco. Era silêncio, mas dissertava.

Ela era um palavrório. Era prosa e poesia.

Ele era mato-natureza-bicho.

Ela era praia-tela-na-janela-e-Nova-York.

Ele era Samello e ela Jimmy Choo.

Ele era cerveja e churrasco.

Ela era vinho e Ifood.

Um dia, ela se propôs a decifrar tanto mistério. Escreveu-lhe um poema e foi até o meio do mato pra ler, cheia de desatino, mas sem os sapatos de grife. Com pouca cerimônia, porque ela era assim, puxou-lhe com alguma sensualidade os óculos de leitura para atingir o brilho de seus olhos e arrancou seus sapatos Samello (“tribons”, ele dizia em protesto). Já era hora de se despir de tudo. Aquilo cheirava caos.

Antes que ela iniciasse a leitura, ele lhe chamou de canto. Ela logo intuiu que não devia ser hora de prosa nem poesia, que ele não era dessas coisas. Nem tinha cara de dissertação. Tampouco seria pra oferecer uma picanha, já que ela era vegetariana.

Ele, tão lacônico, tinha se encarregado de contar o fim da história. Inverteu a ordem dos personagens e explanou assim, com pouco rodeio:

“Ela gostava de rapazes.

Ele também.”

(Ivy Cassa)

(Portas Abertas)

#ivycassa #ivycassaportasabertas #portasabertas #blog #cronica #literatura #leiamulheres #literaturafeminina #poesia #literaturabrasileira #eleeela #amoresimpossiveis #autoficcao #autofiction #novasformasdeamar