Era uma noite de segunda feira com cara de fim de domingo. Era tempo em que os mais chegados morriam – morrer não era mais o verbo de uma frase com sujeito indeterminado. Era época em que os pactos – até mesmo os mais estrambólicos – eram promessas malditas, letra morta. Não era mais tempo de Chico nem de Caetano. Era o tempo de Hilda.

Não era dia pra passar

Camisa de seda

Lápis nos olhos

Batom vermelho

Escova quente no cabelo

Aquela gente que saía de casa numa segunda-feira à noite não batia muito bem. Nem ela.

Mas passou a camisa de seda azul

Batom vermelho

Lápis nos olhos

E escovou os cabelos

Quase como se fosse sexta-feira.

Subiu em um par de sapatilhas douradas e foi se encontrar com Hilda.

Aquela gente estava bonita. Tinha vestido de festa e calça saruel. Franja muito curta e cabelos maximizados. Gravata borboleta e All Star nos pés. Tinha uma atriz vistosa, um fotógrafo galanteador e um garçom que trombava nas pessoas com a bandeja na mão.

Tem vinho? Água aromatizada só? Ah, deixa pra lá.

Tinha os dedos dela amassando o bilhete com as unhas pintadas de esmalte nude. Apertava o papelinho quase como se fosse a mão de um ou de outro.

De repente, entraram. Sentaram. Ficou escuro. Abriu-se um portão e principiou-se a falar da morte. Da vida. Da vida depois da morte e dos mortos vindo ao encontro da vida. Da doçura de morrer em vida. Da tristeza de viver em vão.

Não se falava sobre amor. Era época de se perpetuar pelas palavras e não pelos sentimentos.

Ela saiu antes que os últimos letreiros passassem pela tela. Já era tarde, a segunda-feira precisava passar logo. Tudo nesses tempos era passagem.

Quando se viu cara a cara com a Avenida Paulista, estava chorando. Digo: chovendo.

E ela nem podia entender porque tanta molhadeira sem previsão. Rapidamente, a camisa de seda azul ficou grudada no sutiã de renda cinza. Os olhos de pronto borraram. O batom vermelho não saía nem com chuva – a boca era um convite permanente. Os cabelos ficaram com um ar de maresia.

As sapatilhas douradas se fizeram de barquinhos. Por cima delas, navegou até seu Reino. Deixou as sapatilhas ensopadas na porta, tirou a camisa e se sentou no chão do deck da varanda meio úmido, só de batom vermelho.

Chovia. Não chovia porque ela chorava. Chovia porque era preciso. Porque eles não gostavam de chavões nem de clichês. Eles gostavam de quase nada. Eles diziam nada. Pouquíssimo lhes despertava paixões. E ela ficava sabendo pouco sobre tanta coisa…

Se pelo menos fosse domingo, ela descansava… se os conhecidos morressem menos. Se os pactos estrambólicos fossem cumpridos. Se não fosse tudo tão perene. Se se falasse mais de amor e menos da morte… Se se falasse, ao menos!

Ela era uma boca querendo beijar. Querendo perguntar. Querendo dizer. Querendo gritar, até. Mas era só uma boca com batom vermelho. E nem era sexta-feira.

Foi então que Hilda, ela, Hilda Hilst, arrematou:

“Estou morta. Mas a morte é amor.”

(Ivy Cassa)

(Portas Abertas)

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