POW

O Leitor Enamorado se matou.

Seu corpo foi encontrado em Nova York. Ele usava um robe azul de pelúcia, urso de óculos nas costas, que ficou todo ensaguentado – uma pena! Uma peça tão única. No bolso do robe, havia um bilhete:

“Ivy, minha vaidade me impede de viver no seu Reino dos Devaneios, coabitando com os seus personagens fictícios e respectivas aventuras. Preciso continuar vivendo separado de você, mas quero que construa um Reino só para mim.”

POW

Caetano matou o Leitor Enamorado.

Acharam o corpo da vítima espatifado em Nova York, entre letras, versos, crônicas e manuscritos.

Orgulhoso e trajando um robe azul de pelúcia, urso de óculos nas costas, Caetano ostentava o cadáver como se fosse uma caça.

“Ivy, agora estamos livres para viver o nosso capítulo no seu Reino dos Devaneios”.

Silêncio…

Já fazia quase duas semanas que eu estava meio atarantada por causa daqueles estranhos pedidos do Leitor Enamorado e de Caetano. Sentada no suave tapete de franjas de Nova York, meu olhar estava perdido entre um personagem e outro, que tinha prometido suas “revelações” para breve caso seu pleito fosse atendido.

Não havia revelações. Meu mundo era mesmo a minha imaginação.

“Mata-me! – pediu o Leitor Enamorado. Não faço parte da tua mais despretensiosa lembrança. Tu me confundes com teus outros personagens que certamente têm histórias melhores que as minhas.”

“Mata-o! – ordenava Caetano. Um impostor!! Diz-se Manuel mas é Abelardo. Faz a ti visitas inoportunas fingindo ser eu e te embala em sonhos que fui eu que desenhei. O insolente deu um jeito de fazer parte do teu cotidiano quando eu próprio me recusei a isso. Um desaforado! Eu… eu preciso revelar-me. Eu preciso responder tuas mensagens. Escrever-te e recitar-te versos. Estou tão atrasado! Mas preciso beber duas taças de vinho antes… Ah, se eu me permitisse a ousadia que tem esse Leitor Enamorado. Mata-o!”

Era uma madrugada fria e cortante, que perturbava como os amores mal resolvidos. Espiei pelo vidro da sala a neblina que brincava de ser nuvem na varanda. Ajeitei-me um pouco mais dentro do robe de pelúcia azul, com urso de óculos nas costas, e apertei o seu cinto macio em torno de mim.

Naquele momento, protegida pela pelúcia e pelo calor do robe, larguei no chão do tapete meus 36 anos de idade: eu era um bebê sendo carregado por uma cegonha dentro do aconchego de uma fralda. Tão diminuta perto das minhas dúvidas, mas tão poderosa que até sobrevoava o mundo.

Planei sobre um campo de maravilhas, que eram os amores da minha vida – tão simples vistos ali do céu, tão inocentes e incapazes de me fazer qualquer mal daquela distância. Voava e passava por cima de todos eles. Eu era capaz de recomeçar – tantas vezes quantas eles se colocassem no meu caminho. Que frio na barriga! Mas eu tenho um pouco de medo. De altura… De amores! De maldades. De recomeços…

Apertei as mãos muito forte no tecido que me embalava e eu estava de novo no tapete amigo de Nova York, no meu Reino dos Devaneios.

Já amanhecia. Desapertei um tanto o laço do robe. Eu queria liberdade. Não: a liberdade era minha!! Era carnaval dentro de mim. Tirei o robe azul e arremessei de qualquer jeito sobre o sofá cinza. O Leitor Enamorado e Caetano permaneciam ali, esperando que eu tomasse uma atitude. Tinha sempre de ser eu a saber tudo sobre nós?

O sol sabia sua coreografia: ele era feito de glitter e precisava entrar pela varanda até chegar ao tapete. O Leitor Enamorado e Caetano também eram feitos de glitter, mas estavam confinados em um tubo.

Abri aquele frasco e, imbuída pelo espírito do gênio do Alladin, deixei que o Leitor Enamorado e o Caetano, que eram uma pessoa só, se dissolvessem sobre o robe azul, tal como a neblina no sol, enquanto eu dançava nua ao som de Marvin Gaye.

(Ivy Cassa)

(Portas Abertas)

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