De madrugada, com um blá-blá-blá incoerente mas cheio de sentido pelo telefone. Na verdade, o amor começa com um 😘 de boa noite na mensagem do WhatsApp.

O amor começa quando, naquela mesma noite, a gente prolonga um tantinho mais o horário de dormir, só pra trocar o som das mensagens dele pelo badalo de um sino, e ainda adiciona o telefone dele à lista de “favoritos” do iPhone, junto com o número da mãe.

O amor começa com a primeira stalkeada nas redes sociais dele e o print das melhores fotos pra mandar pras amigas. E da melhor foto de todas, que já vai para o fundo de tela do aparelho.

O amor nasce muito rápido: no beijo molhado dado no meio da Avenida Paulista entre um abrir e fechar de semáforo. No pé que descalça as sandálias para esfregar o tornozelo dele embaixo da mesa do restaurante. Na mão dele que se esconde na minha coxa na viagem no banco de trás do táxi.

O amor começa quando os olhos fecham suspirando. E começa nos braços que fecham pra que a gente não desengate.

O amor começa no táxi, mas sobe pelo elevador só pra dizer tchau. Mais um beijo na porta do elevador: o elevador escapa. O amor fica.

O amor começa na porta do apartamento que abre.

O amor é empurrado pelo corredor da sala. O amor começa na porta do box da suíte que abre junto com o registro do chuveiro. O amor começa em qualquer porta que abre.

No laço do robe que abre. No fecho do sutiã que abre. O amor abre portas…

O amor começa com a mistura impregnada dos perfumes de um e de outro no vestido da noite de sábado, que fica esquecido em cima do sofá da sala.

O amor começa no nariz que gruda no cangote na hora de dormir.

O amor começa com o primeiro selfie pós “um monte de coisas” naquela noite. O amor evolui pra Boomerangs pra registrar beijos de olhos viradinhos e outras gracinhas. O amor é tão bobinho quando começa…

O amor começa com pequenos registros: a foto do ovo com a gema molinha do café da manhã: “tava comendo e pensei em você”

O amor começa no plano do roteiro de uma viagem. “Pra onde?” “Quem se importa? A gente se ama.”

Amor, você deixa a barba crescer? – O meu amor tem uma barba malfeita que me deixa maluca.

O amor começa numa dança. Da música do Chico Buarque que diz: “o meu amor tem um jeito manso que é só seu”.

O amor acaba

Com uma noite em claro expulsando demônios no telefone. Porque um diz “não quero mais falar com você”. O amor acaba com um telefone mudo: Caiu? Desligou? Bloqueou? Morreu?

O amor acaba quando a gente muda o sobrenome dele por um “babaca” na lista de contatos e apaga todas as 5.689 mensagens trocadas – até os áudios.

O amor acaba quando deletamos todas as fotos, vídeos e Boomerangs (inclusive os Boomerangs!), do celular, do e-mail, da nuvem, dos nossos aparelhos e de todas as amigas e da própria mãe. Exceto aquela foto que tiramos dele fazendo careta com os olhos revirados, pra todos os dias lembrar que, conforme o ângulo, a cara dele podia ser de pangaré e, afinal, não foi uma grande perda…

O amor acaba na porta do apartamento que é arremessada contra o batente. Acaba na porta do elevador que foge com ele dentro pra um outro planeta onde não há pescoços que viram pra trás.

O amor acaba numa porta de qualquer coisa que fecha, de caixão a porta de carro batendo.

O amor, quando acaba, fecha portas.

O amor acaba num “a gente vai se falando”…

Na transição de um “Oi!” Para um mero oi. Na mudança do 😘 para o 👍🏻

O amor acaba num dormir na mesma cama virados para pontos cardeais opostos. O amor acaba mesmo num dormir no sofá.

O amor acaba numa fechada brusca do laço do robe, num amarrar apressado de cadarços de sapatos.

O amor acaba quando se joga a escova de dentes dele no lixo.

O amor não gosta mais de ver fotos de ovos de café da manhã com a gema molinha. Ele não tem mais tempo pra essas coisas bobinhas. O amor acabou.

O amor acaba antes mesmo que a viagem comece. “Pra onde?” “Quem se importa quando já não há amor?”

O amor acaba na metade de uma dança. De uma música que lembra uma letra… do Chico Buarque, seria?

Porque parece que sua barba malfeita passou a machucar a minha nuca. E meu jeito manso agora lhe deixa irritado…?

Mas…

Quando sobra um restinho de perfume dele no vestido jogado em cima do sofá…

Uma bobagem qualquer pra comentar, nem que seja um vídeo do YouTube ou o clipping das notícias da semana na madrugada.

Quando encontro numa pasta oculta uma foto daquela barba malfeita…

Quando entro no táxi sem as mãos dele escondidas nas minhas coxas, mas o Chico está cantando na rádio… “meu corpo é testemunha do bem que ele me faz”…

Às vezes, dá uma dúvida se o amor acabou…

Talvez, só tenha mudado de forma…

(Ivy Cassa)

(Portas Abertas)

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