– Sou Caetano Abelardo, filho de Lucia e Berengario, cavaleiro do castelo de Pallet. Irmão de Dagoberto e Raul. Ivy Heloisa, minha Estrela da Manhã: vim hoje aqui contar a história das minhas calamidades…

– “Estrela da Manhã”? Então você não é Abelardo! É Caetano Manuel!! Ou algum personagem perdido de Game of Thrones: uma espécie de Daenerys Targaryen!

– Minha Doutorinha, não assimile meu discurso sob o prisma daqueles seus leitores mais alheios a nós 2. Não é assim que eu faço com seus escritos – e olhe que fica bastante evidente que muitos deles são direcionados. Estou (e estamos) demais atentos ao que os outros não conhecem e além dos limites dos que acreditam que os dominam. Você sabe que temos nossos símbolos: inclusive, outro dia, me deparei com um texto seu na internet, que encontrei por acaso googlando seu nome. Eu sei, é uma mentira deslavada, porque tenho o pensamento e mesmo o subconsciente obstinados em você. Aquelas suas palavras foram suficientes (como se necessárias) para recriarem na minha alma a sua imagem embrulhada em um robe de seda branco em certa quinta-feira de primavera: era o início de uma terna primavera de ano bissexto! Embora fosse só o princípio, você já se expandia pelo seu apartamento nova-iorquino, como se fosse, por si só, um campo todo de girassóis em que eu queria me espalhar também como abelhas em pinturas de Van Gogh.

– Formidável a sua lembrança! Mas absolutamente distante de ser uma calamidade… não era esse o seu tema do dia?

– Ivy: tenho respirado e me alimentado dos ecos e sombras daquele nosso namorisco. Ai de mim! E, como se não bastasse todo o meu empenho para tentá-la esquecer, de repente descubro (ou confirmo) que me transformei em um personagem da sua vida, blog, livro – sei lá o que é isso?! Não era suficiente todo o resto? Confesso que já nem sei se sou de carne e sangue ou se feito de letras: das suas letras manuscritas ou digitadas desse seu jeito amalucado num celular qualquer quando lhe baixa sei lá qual entidade! Eu próprio às vezes chego a acreditar em algumas passagens do seu blog em que nós dois contracenamos, como se tivesse vivido aquelas situações! Ivy, com isso, estou perdendo minhas bordas entre o ser Eu e o ser Seu Personagem! Nem sei quem eu sou ou desejo ser. Abelardo? Caetano? Manuel?

– E o quê você pretende? Quem você afinal quer ser? Deseja que eu incendeie os manuscritos do meu livro? Que apague os posts do meu blog? Ora! Seja razoável: quem você acha que reviraria meia dúzia das minhas entrelinhas em busca de algum sinal que, apenas em um regime qualquer, poderia ser condenável? Aliás, é condenável amar alguém? Escrevo ou imagino heresias sobre nós?

– Minha Doutorinha Ivy Heloisa: a sociedade seria provavelmente impiedosa com o nosso amor. Sempre procurei me manter alheio aos jogos amorosos, mas continuo inflamado por você! Não podemos ser amantes nem mesmo de um amor secreto, sabe bem disso. Nem como personagens! Os amantes cuidam tanto de fingir que não se amam que acabam caindo na contradição de serem os mais descuidados! Não podemos continuar a nos ver ou mesmo a inventar encontros e poemas furtivos. Há tanta impropriedade nisso! Só que agora já não somos só você e eu e o seu apartamento nova-iorquino como testemunhas: há mais de milhares de leitores observando, torcendo e fazendo suposições sobre nós dois ou sobre eles personagens (quem são eles?). Sei lá se não há até algum personagem da sua vida real que cuja trajetória estou abalroando nessa minha corrida até você.

– Exagerado! Eles não conhecem todos os símbolos.

– Minha Estrela… Não seria razoável dizer que lamento a nossa sorte. Reafirmo meu amor por você a cada pensamento que produzo. As volúpias que experimentamos foram tão ternas que nem em meus sonhos me poupo das nossas memórias. E quando eu – logo eu, ateu!! – talvez deveria me penitenciar pelos nossos desvios, é justamente quando suspiro de dor por não tê-la da forma como gostaria. Como me acaricia a alma ver com que carinho e riqueza você entesourou cada detalhe dos nossos descaminhos, a ponto de escrever um livro sobre eles. “O livro dos nossos pecados”, seria esse o nome?

– Um livro manuelino no sentido mais ingênuo: de um amor que deveria ter sido, mas não foi.

– Não seja simplista! Isso sim é uma fidedigna calamidade!

– E o que sugere para revertermos essa má sorte? Que eu fuja vestida de monja, contigo em trajes de padre rumo as terras da sua irmã? Você sabe que não precisamos de matrimônio nem de bem casados! Nossos encontros já são tão doces e exóticos… parecem trufas de cupuaçu.

– Minha Estrelinha: não posso extirpar da minha alma esse nosso amor que, ainda que possa machucar um e outro, é de intenções puras. Por isso o meu lamento e a minha calamidade: nosso relacionamento é um tortuoso labirinto de Creta.

– Extirpar não iremos… Sobrou muita coisa. Lembra daquele poema do Drummond? “De tudo ficou um pouco. Do meu medo. Do teu asco. Dos gritos gagos. Da rosa ficou um pouco”. Mas eu sou Ivy Hera, a mulher de Zeus, a deusa dos deuses. Devo ter qualquer serventia pra abrir alguma passagem nesse labirinto.

– Esse poema não, Ivy Heloisa! Não sobraram só resíduos por você. Nosso amor viverá eternamente como as cartas e os amores de Abelardo e Heloisa. Ler seus textos depois de tanto tempo foi como ter os seus lábios na ponta dos meus dedos enquanto lhe oferecia morangos molhados na Nutella. Suas palavras ainda me fazem, mesmo que naquele mundo aliciano e despossível que você me fez supor existir, acreditar que nós somos. E somos… apesar de não podermos. Aqueles nossos encontros, ocorridos nesses lugares mágicos e místicos que você proporciona para que matemos nossas saudades e despertemos a curiosidade dos seus leitores, escancaram a fragilidade dos meu ser: um homem decidido, mas totalmente dividido, um cérebro dominado por um coração trepidante que ecoa em seus neurônios as três enigmáticas letrinhas do seu nome. I-V-Y. Minha Ivy Heloisa. Minha Estrela da Manhã. Eu quero ter você, mas preciso tomar tanta coragem cada vez que tenho ímpetos de vir correndo dizer aquelas coisas manuelinas que lhe fazem desfalecer…

– Mas se você é Caetano Abelardo, pretende que levemos o mesmo fim daquele que lhe precede? Que nossa união seja concretizada apenas no túmulo? E ainda tendo de passar por uma mutilação até chegar o dia em que descansaremos desse labirinto de sentimentos e perseguições?

– Não! Por isso você é Hera! Minha deusa! Minha Estrela!

– Sendo assim… não aceito esse seu discurso de calamidade. A nossa história é muito representativa para não ser verdadeira, mesmo que seja em algum plano místico…

– Ivy, você não está entendendo…

– Não… Se “de tudo fica um pouco, Se até de Abelardo ficou… Por que não ficaria um pouco de mim? “

– Ivy!!! Eu também quero escrever um livro de amor. Mas veja quanto infortúnio! Eu continuo contraditório: sendo aquele que te impõe me esquecer, e proíbe você mesma de me amar, mas que se dói com a tua lembrança e infringe os próprios deveres. Você precisa entender a minha calamidade, Ivy! Você que tanto escreve, que tanto imagina, que tanto cria, me diz: como sairemos desse labirinto (realidade e ficção) e que rumo daremos ao próximo capítulo dos nossos livros – nas vidas e nos livros?! Não quero que o nosso livro conjunto seja de calamidades, mas é urgente a reescrita desse novo capítulo da nossa história.

– Caetano Abelardo: meus personagens ganham vida e são subordinados aos meus desejos na minha imaginação. Contra isso não há o que fazer. Seu personagem já me pretende demais a você. Mas, saltando os muros da ficção, se o seu enredo for mais interessante e o objetivo for justo, deixe de lado o personagem e assuma suas calamidades. Enfrentar adversidades fortalece o indivíduo. De repente, podemos deixar Abelardo, Manuel e Carlos em outro patamar e registrar a história de nós dois de alguma outra forma. Nossa. Talvez com poucas calamidades. Eu sei que você volta e meia tenta me matar acordado em pensamento, mas que me ama, tanto nos seus pensamentos quanto nos seus sonhos. O seu amor por mim é o meu melhor enredo para a vida.

(Ivy Cassa)

(Portas Abertas)

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