Tia Dinorah é daquelas pessoas que têm chiliques quando alguém joga migalhas de pão dentro da pia da sua cozinha, “que não é lixeira nem refeitório pra pombos”. Tem piripaques quando vê grãos de arroz caídos do prato de qualquer visita em cima da toalha de mesa.

Tia Dinorah gosta de comentar eventos aleatórios durante os jogos de futebol. No último jogo do Brasil na Copa, ela competiu de maneira acirrada e desleal com o Galvão Bueno – justo com ele! – sobre quem falava mais durante o jogo. E ela venceu. Passei aqueles 90 minutos sem saber se o Arnaldo César Coelho estava ali ao lado, se tinha mesmo sido pênalti ou como seriam os próximos capítulos da nova novela das 7, porque Tia Dinorah se pôs a contar nos mínimos detalhes como havia sido a quermesse da Igreja do bairro, desde o concurso da Miss caipirinha até as bombas de chocolate com baunilha do Seu Paulo Conchas, que na verdade só se chamava Paulo, mas a Tia Dinorah botava o Conchas ao lado para que eu não esquecesse que ele era o que vendia conchiglione recheado com 4 queijos, que ela só comprava quando vinha visita “mais ou menos” em casa.

Tia Dinorah não gosta de investir na poupança, em fundos de investimento ou na Bolsa. O negócio dela é guardar dinheiro no sutiã.

– Você descostura um sutiã velho e coloca o dinheiro dentro do bojo. Mas, se for viajar, não esquece de colocar os sutiãs no cofre do hotel!

Nem adianta falar com ela sobre desvalorização de moeda e que ninguém mais usa dinheiro em espécie. Tia Dinorah não tem jeito.

Ela conta religiosamente os azulejos da cozinha enquanto almoça sobre o balcão calçando os chinelos só pela metade dos pés, mas sempre se perde na conta das Ave-Marias do terço das dez da noite, porque é a hora em que o casal que mora no apartamento 115 aproveita para mandar ver e o barulho confunde qualquer um.

– Vivi! Parece aqueles filmes que passam de madrugada nos canais que os moços solteiros assistem, sabe? – Tia Dinorah cochichou, colocando a mão na frente da boca, como se os vizinhos pudessem ouvir. Você precisava arranjar alguém assim, como o do 115, completava: bem disposto!

A frustração de Tia Dinorah era eu ter ficado viúva tão cedo.

– De um homem tão distinto! O raio não cai duas vezes no mesmo lugar! – ela alertava.

Para ajudar, Tia Dinorah fazia uma novena diária por mim, que eu nunca soube se não termina porque ela perde as contas dos dias ou se porque o Santo não tem se empenhado mesmo.

– Vem mais cedo semana que vem que tem reunião de condomínio!

– Mas tia, eu não vou nem às do prédio em que eu mesma moro!

– Vou fazer sopa de beteRRaba! – Ela apelou apertando os RR. E o sobrinho do seu RRomeu vai secretariar! Ela, afinal, confidenciou.

O sonho de Tia Dinorah era dar um fim ao meu estado civil de viúva com qualquer parente do Seu RRomeu – “um homem tão bom, foi gerente da Garbo por 30 anos! Não é pra qualquer um. Aquilo era muito estilo, muita RResponsabilidade!” A conversa sempre começava do mesmo jeito:

– Descobri um sobrinho / neto / primo de 5o grau dele que você precisa conhecer. Tão bonito de RRosto!

Era o sinal! Um brucutu de corpo, mas se salvavam um ou dois dentes inteiros.

Dessa vez, o alerta veio em letras garrafais:

– Tão bonito de alma!

Ai, meu Deus! Nem o rosto devia se salvar!

O sobrinho do seu Romeu tinha um nome impronunciável até mesmo para mim, que fui agraciada com uma sopa de letras pela minha mãe.

Tia Dinorah logo convidou o rapaz secretário de reunião de condomínio do capeta para tomar a tal sopa de beteRRaba com a gente.

Ele ria como um castor. Tinha cara de castor. Tinha o corpo de castor. Ele era um castor secretário de reuniões do condomínio.

– Você aceita uma vodka RRussa? Perguntou tia Dinorah.

– Não, tia!!! Dei aquela olhada fatal.

Já era tarde. O castor subiu pra “salgar o galo”, nas palavras dele mesmo.

– Vivi, serve a vodka pra ele enquanto eu esquento a sopa.

Abri o freezer e peguei a cubeta. Quando entortei pra virar no copo, caiu uma pedra de gelo com um mini Santo encapsulado dentro.

– Que é isso, tia? – me assustei!

– Ai, meu Santo Antônio!! Volta ele pra lá que só sai quando as “coisas” se resolverem.

Olhei meio desconsolada o pobre Santo congelado sabe-se desde quando e para o castor chupando a sopa de beteRRaba na mesa por entre os dentes, fazendo barulho.

– Tia. Eu acho que vou embora… sabe… nada pessoal, mas eu não gosto muito de homens que usam camisa cor de vinho… de manga curta… com calça marrom, meia branca e sapato preto. Acho que a gente não combina a respeito de moda.

Tia Dinorah concordou em parte. Ele não devia ter aprendido a se vestir com o tio RRomeu. 30 anos de Garbo! Tanto estilo! Mas não me deixou partir:

– Vou servir umas toRRadinnhas! Fique.

Mas o destino se encarregou de providenciar a gota d’água quando o castor pegou o prato todo migalhento e se pôs a espanar dentro da pia. Ah, não!! Foi só o tempo de esperar o chilique de Tia Dinorah e a visita se tocar de partir. Com um chilique daqueles, quem não iria?

– Tia! Vamos combinar uma coisa? Eu tou bem assim… não precisa me apresentar mais nenhum parente do Seu Romeu. Eu estou inclusive com alguns “projetos entabulados”, percebe?

– Sabe o que é, Vivi?! Ela olhou para um lado e para o outro, e segredou, com as mãos na frente da boca: eu queria um jeitinho de me aproximar do seu RRomeu. Um homem tão distinto! 30 anos de Garbo!

(Ivy Cassa)

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