Baita sorte você passar por aqui justo hoje, hein?! Acredita que sonhei com você no sábado? Parecia até um anúncio do universo. Aposto que você é capaz de desenvolver uma teoria Junguiana pra justificar a sua visita.

Ah, foi sem motivo… entendi.

Da minha parte? Eu só precisava fazer uma reunião em um cliente que fica aqui no bairro; foi o trabalho de ajustar o horário pra esse encontro dar certo. Lógico que não mudei minha agenda apenas porque você me ligou… Tá se achando o Príncipe Harry agora, né? – mas ele era único e já está casado. Se bem que você também… Deixa pra lá! E pelo que me conhece, você deve imaginar que ele não fazia muito meu tipo… não me parece ser daqueles que declamam poemas no tapete da sala pras suas musas. Não faça esse sorriso malandro de “então eu sou melhor que ele”. Foi só uma comparação besta.

Aceita uma taça de vinho? É aquele que você gosta. Por acaso tinha aqui na geladeira, olha que coincidência! Vou colocar uma musiquinha pra descontrair. Ah! Veja o que é o destino dando uma mãozinha: você lembra dessa do Leo Jaime? “Nada me resta a não ser a vontade de te encontrar, o motivo eu já nem sei”… Você cantou pra mim assim que começamos a nos “enamorar”. Sincronicidade? Ai, você ainda com essas viagens Junguianas! Mais uma! A música tava aí numa playlist qualquer do meu Iphone… só falta dizer que eu ainda tive tempo de ontem pra hoje pra armar a trilha sonora pra essa sua visita de última hora!

Ah, obrigada, você reparou na minha roupa… é um vestidinho bem simples, comprei numa viagem qualquer a Nova York, daquelas que fiz depois de você… Não pra ESQUECER VOCÊ… foi uma viagem corriqueira, só isso. Fiz muitas delas. Não chame de fugas, foram passeios arejadores de mente e coração. Esse vestido, por exemplo, uso em casa, feito pijama, sabe?

Por que meu cabelo tá arrumado? Não tá! Você que tá por fora da moda… Hoje em dia a gente acorda e, enquanto escova os dentes com a mão direita, já faz babyliss com a esquerda. Até pra fazer faxina. Tá, eu sei que não faço muuuita faxina aqui em casa, mas pra botar o lixo pra fora, a roupa na máquina..

Maquiagem profissional?! Hahaha! Cada ideia!! Cê tá reparando MESMO em mim! Óbvio que eu não fiz uma só porque você vinha aqui! Eu… praticamente acordo assim. Esqueceu? Só passei um batonzinho e um rímel incolor. Você gostou? Ah… Não tou vermelha. É o vinho. Duas taças pra gente ficar “imunizado” – lembra como você falava? Mas só vamos tomar uma hoje…

O tempo também fez bem pra você! Tá vendo? Sinal de que não era mesmo pra termos ficado juntos… Não, não tou falando da boca pra fora. Emagreci um pouco, é verdade. Ginástica, zumba, ballet! Você também podia fazer. Eu sei que você corre no parque – que dias da semana mesmo? Não que eu tenha ido alguma vez ao Villa Lobos tentando “stalkear” você ao vivo…! Claro que não! Mas… voltando à corrida… a idade chega pra todo mundo, né? – especialmente pra você que tem mais de década que eu. Hahaha! Desculpa, eu não podia perder a chance de te dar uma alfinetadinha. Já perdi o namorado mesmo. Não tou reclamando do seu corpo… Sempre achei você charmoso e você está tão… tão… ufa! Isso não é uma cantada!

Mentira que minhas pupilas estão dilatadas olhando pra você! Ups! Caiu um pouco de vinho na minha coxa. Deixa eu pegar um pano. Tira a mão! Eu trato disso.

Não, nada a ver eu ter emagrecido porque fiquei deprimida depois que paramos de nos ver… se for assim, você deu uma engordadinha de saudades de mim? Deu? Ah. Bom… sabe que saudades também emagrecem, né? Digo… não que tenha sido meu caso. O importante é que eu me reinventei depois da nossa história e imagino que tenha feito o mesmo. Como? Fiz de tudo… Terapia, igreja, remédio, viagem, vinho, chocolate, personal trainer, yoga… tá, yoga é mentira. Você sabe que sou um pouquinho acelerada pra essa coisa de respirar em 4 etapas… É, continuo! Só não fui pras drogas ilícitas e nem pros rituais xamânicos.

Já se passaram duas primaveras! Duas primaveras sem flores! Achou poético? Não… poeta é você… eu sou só uma apaixonada. Uma pretensa escritora, quero dizer. Enfim! Ah, e teve o meu grande projeto desses últimos tempos: o meu livro… Não! Nada jurídico! É um livro sobre a minha vida. Você lembra? Ok, foi uma pergunta retórica. Eu sei que você lembra de uma porção de coisas, como ia esquecer justo disso, logo você que foi o meu primeiro leitor? Só aposto que não botava fé que eu iria adiante. Ai, como você está cada dia mais metido! Não… não foi um livro SOBRE você. Tá doido? Tou falando de 300 páginas! Quantas dessas sobre você? Ah! Espera publicar e lê, ué!

O coração? Vai muito bem, apesar do nosso último encontro ter sido no hospital por causa dele. Até arranjei um namorado nesse tempo. Um não: uma dúzia! Tá bom. Não quer que eu fale, não falo: eu sei que você me stalkeia. Ah, tá! Vai dizer que aqueles seus colegas de repartição que eu nunca vi na vida ficaram meus amigos nas redes sociais a troco de quê mesmo? Ahã…

Se eu me apaixonei por algum desses namorados que inventei? Digo… que eu tive? Acho que isso não vem ao caso, vem? Quer falar da sua vida amorosa? Eu sei que não. Também não quero saber. Tá, talvez não tenha sido uma dúzia. Importa? Se eram melhores que você? Hahaha! Adoro homem querendo confete!

Foram namorados daquele tipo que a gente precisa colocar no lugar do outro pra não ficar doida. Por quê eu continuo doida? Hahaha!

Eles foram bons o suficiente pra eu NUNCA mais querer receber homem algum aqui em casa, entende? Jamais mudarei radicalmente a agenda por um homem, criarei uma playlist de músicas românticas, escolherei o melhor vestido do armário, chamarei a cabeleireira e o maquiador logo cedo em domicílio e ficarei esperando o amor da vida com a garrafa do seu vinho predileto. Nunca mais!

Ei, você já reparou que parece que essa música do Leo Jaime tá no modo “repetição” do meu Iphone…? “Nada me move nem me faz parar”.

Você não se importa? Quer dançar?

Mais uma taça de vinho? Agora imunizou!

O quê??

Fala no meu ouvido…

Você não precisa ler o manuscrito do meu livro. Tá bem aqui nos meus lábios a mensagem de amor que você veio ler no meu rosto.

(Ivy Cassa)

(Portas Abertas)

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