“É só meu o teu livro; guarda-o bem;

Nele floresce o nosso casto amor

Nascido nesse dia em que o destino

Uniu o teu olhar à minha dor”

(Florbela Espanca)

Meu leitor enamorado compreende a necessidade de haver um dia no ano para que se celebre o amor. Ele não repete o clichê de que “dia 12 de junho é mera data comercial”. É capaz de ainda protestar: um único dia é muito pouco para um amor tão grande assim!

Meu leitor enamorado talvez ainda esteja se acostumando com os sentimentos desta autora, o que é até compreensível em se tratando de um leitor que se transforma em personagem ou vice-versa.

Meu querido leitor: hoje – mas tomara que não só – vamos saudar o fervor do amor de Borges em contraste com o friozinho de Buenos Aires, ou até mesmo de Paris naqueles dias de janeiro? Pode ser que pouco importe estarmos à Beira do Rio da Prata ou do Sena. Quando se ama e é correspondido, a vida pode virar baile em qualquer esquina. Venha: em seis tempos, como em um tango, mas se a gente se enganar é só fingir que era cancan e cair na gargalhada. Essa sempre foi a melhor parte, não? Você próprio assumiu que ri fácil do meu riso. Mais alguma coisa em mim lhe faz rir? Hoje quero passar cada minuto sentindo a sua barba mal feita espetada em verdadeiro paradoxo na penugem da minha nuca. E, no fim do dia, lhe batizar com o nome do personagem de um conto que estou escrevendo sobre nós dois. Aqui de dentro das suas mãos, o mundo em que meus dedos deslizam é tão macio que parece o meu cobertorzinho de pelúcia. E já lhe falei que tenho especial predileção pelas zebrinhas que se formam nas paredes do meu quarto quando grudo os olhos nos seus e vejo o mundo através dos seus cílios? E que o tapete peludo da minha sala de TV se amarra na pegada do seu pé, como se um urso tivesse pisoteado a neve a caminho do sofá cinza?

Aí chega o Drummond e fala que o amor bate na porta. Toc toc.

A porta do meu apartamento zomba do meu leitor enamorado um tanto perdido.

– E quando é que ele vai começar a entender? – Ela me pergunta.

– Acho que nunca! – Respondi meio desanimada. Eu falo de amores e de ilusões, mas esse leitor enamorado é um pouco biruta.

E a porta retruca:

– Ivy, biruta é você! Porque até eu que sou a porta de Drummond vejo aqui no abrir e fechar coisas que não ouso compreender.

Meu querido leitor enamorado me desperta uma ansiedade que dilacera o coração. Amor crepuscular não devia ser para calar! Ainda mais uma amante como eu.

– Ai, porta! Acho que você tem razão. Não tenho paciência pra isso não. Metade de mim é amor, outra metade é Rivotril, e as nossas almas manuelinas andam tão incomunicáveis…

– Ei, leitor, venha aqui! Nossos corpos se entendem, deixe a alma hoje pra lá! Venha! É hora da arte de amar. É dia de amar. É dia 12 de junho, mas também poderia ser qualquer outro. Você pode vir quando quiser, claro! Eu te amo.

– Ivy. Você é engraçada. Você parece uma lagarta listada.

– Do ponto de vista dos seus cílios ou dos meus?

– Nem de um nem de outro… Ivy, você parece louca. Mas… você quer ser a minha namorada?

– Ai, Manuel!!!

– Não sou Manuel, sou Borges. Você está me confundindo.

– Leitor… se você for embora de novo, a sua ausência fará ciranda de arame farpado no meu pescoço. Veja: eu já comprei até um vaso de primavera cor de cereja pra ver se trazia alegria pra varanda de casa. Só que o vaso teima em tombar. Me lembra aquele quadro de Magritte, a “Girafa Triste”, que eu vi no museu em Paris. Eu às vezes sou a própria girafa triste. Nem sei se por causa de você ou se por um monte de coisas. Mas aquele pequeno vaso morre todo dia um tantinho ali na varanda feito eu, que nem à varanda mais tenho ido, e sequer uso batons cor de cereja.

– Ivy… você está arrependida?

– De ter amado? Naaaao!! É um amor tão grande que…

– Mas o amor é a véspera do escarro. Ou seria o beijo?

– “Os remos já caíram na água?”

– Ainda não.

– “Eu sou aquela de quem tens saudades.” Sente aqui do meu lado. É só o meu livro. Vamos celebrar.

– É só o dia 12. Uma data comercial.

– Não diz isso! Meus personagens não falam assim!

– Ele fechou a porta porque falou que “o amor batia na aorta.”

– Carlos?

Ele fez sinal de silêncio e andou em minha direção, com os pés afundando sobre o tapete. E nem havia neve no meio da minha sala!

– “Há tanta suavidade em nada se dizer.” Completou. – e mergulhou de volta dentro do livro, sem dizer mais nada.

Drummond depois disse que viu o amor se estrepar, mas eu sei que ele viu foi nossos beijos se beijarem antes de virar a última página do livro.

Ivy Cassa

(Portas Abertas)

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