Oi, tia!

Há tanto tempo não mando um postal que já nem sei se começo com bom dia, boa tarde ou boa noite.

Já faz uns tantos dias que iniciei essa fuga para Paris e posso dizer com alguma propriedade: não foi à toa que Neruda, Sartre, Beauvoir, Hemingway e tantas outras personalidades se abrigaram aqui para escrever. Paris é uma festa, ao mesmo tempo em que tem um tanto de lamúria. Tudo depende do que se escoher para beber: champanhe, vinho tinto ou conhaque.

E digo isso porque, nas noites mais frias, não tem jeito, viu, tia: um cálice de qualquer coisa é o melhor (quando não o único) amigo. Nem venha me falar sobre o tal do cobertor de orelha, que isso já não existe mais. Bom, na verdade, eu até vim pra Paris tentando esquecer essas bobagens. Vou te contar como tudo começou:

Eu, que nunca fui de tomar café, (você sabe que sempre sofri com refluxo do esôfago), dei pra tomar uma xicrinha ao amanhecer nos meus útimos meses de Brasil. Nem sei explicar se por causa da cafeína pra dar alguma energia, ou se por culpa da Marisa Monte. O problema todo é aquela música: “Todo dia de manhã enquanto eu tomo o meu café amargo… Ainda boto fé de um dia ter ao meu lado”. Entende, tia?

Precisei vir pra Pa-ris! Tentar parar de tomar café. Digo. Parar de ouvir Marisa. Ou… parar de pensar em Caetano.

Mas, às vezes, a cura vem pelo distanciamento. Ou a estratégia de inventar alguém pra colocar no lugar do outro. Algum dia ainda vai dar certo! Veja só o que me aconteceu.

Conheci um rapaz de Java. Java, tia!! Qual a chance disso acontecer? Tá, eu sei que eles estão estratégica e perigosamente espalhados pela Europa… eu mesma já tinha conhecido alguns em outras partes e até por isso já carregava comigo o sinal de PERIGO!! Aquele mesmo alerta que a mamãe e a senhora ensinaram desde cedo: não entre em carro de estranhos nem aceite balas (a não ser que seja de Uber). E não se meta com caras de Java, porque eles são criaturas mitológicas, lendárias, feito o Boto da Amazônia.

Os homens de Java são os Homo Erectus Erectus, pra começo de conversa. Tia… desculpe a franqueza, mas os homens de hoje nem erectus são!!! Você acredita que Viagra e Cialis passaram a fazer parte daquela minha necessaire dos comprimidinhos básicos? É, Dramin, Aspirina, Dorflex, Gelmax… Viagra e Cialis! Tia, porque ele nem carregam o próprio arsenal! Chegam cheios de banca, como se fossem capaz de povoar o mundo e… “ah, fica pra outra vez. Vamos jogar paciência? Candy Crush?” “Mas com esta camisola da Victoria´s Secret que paguei 200 dólares???”

Só que os homens de Java definitivamente são diferenciados. Tia, a gente se conheceu no café da manhã, enquanto eu pegava um pain au chocolat que eu mal enxergava – não pela falta de óculos, mas pela cortina de sono que semicerrava meus olhos àquela hora da matina. A sala de café estava cheia e ele pediu pra dividir a mesa comigo. Achei engraçado aquele sotaquele de Java e concordei. Quando dei por mim, eu nem tinha pego café! Talvez, fosse o fim da era do café amargo sonhando ter Caetano ao meu lado: tudo sem planejar. Ficamos ali até acabar o horário do petit dejeuner e a sósia da Whoopy Goldberg, que cuidava do esquema da refeição, com aquelas unhas protuberantes, começar a batucar na máquina de café e a dizer que havia outros cafés na praça pra gente conhecer. Uma simpatia de moça!

Sem jeito, levantei logo da mesa e me despedi, mas ele me deixou um cartão e perguntou se eu aceitaria sair para jantar à noite.

Eu disse que a gente podia ir se falando ao longo do dia… um homem de Java!! Um homem de Java!! Eu precisava digerir aquilo. Mas, até a metade da tarde, estava decidida: eu iria!

Ah, tia! Há quantas semanas um homem não me convidava para jantar? Tá, eu sei que o Dênis me levou pra jantar outro dia – mas era no Podrão! E só acabamos indo a um bistrô mais ou menos porque eu inisiti. E ele passou o jantar reclamando dos preços do cardápio. Dizendo que comida boa era a da avó dele. Bebeu água da casa e comeu salada. Bebericou minha taça de vinho com os lábios cheios de azeite. Enfiou o garfo cheio de atum enlatado na minha polenta de funghi. E ainda avançou no meu brigadeiro de colher – brigadeiro de colher não se divide! Eu aposto que ele devia estar saindo de um período de jejum intermitente de 18h, por isso o desespero. E eu fui obrigada a deixá-lo em jejum sexual, porque, depois daquela presepada, não havia clima pra mais nada. Pra que eu o tivesse chutado da mesa, só faltou ele ter pedido um pato, o que realmente me dá aversão.

Mas o Homem de Java não. Perto da hora do jantar, ele me mandou um WhattsApp: “Bella (ai, que lindo!!), escolhi o melhor restaurante da cidade para nós.” Tia, você sabe o que significa isso? Tá, eu sei que você vai dizer que eu não preciso de convite, que volta e meia eu vou a esse tipo de restaurante, blá blá blá. É verdade. Mas eu tou falando de iniciativa. Homens de Java tomam à frente. Não fui eu quem precisou escolher o lugar ou dizer que queria comer bem. Estava implícito. Ele sabia como tratar uma mulher. Eu só precisava brilhar, escolher um casaco rosa, meias pretas, vestido, batom vermelho e o meu melhor sorriso. O resto aconteceria como mágica. Era a minha noite de cinderela.

Quando no encontramos no lobby, caía uma fina chuva, e ele prontamente se ofereceu para ir buscar um guarda-chuva para me levar até a porta do táxi. Bobagem, pensei eu. Mas me senti uma princesa escoltava por aqueles braços firmes cuidando de cada mecha do meu cabelo para que não molhasse com a garoa parisiense.

O restaurante era acolhedor. Tinha uma decoração de casa de avó rica, com lustres de antiquários ostentando lâmpadas coloridas, tapetes persas, bonecas de louça vindas das mais longínquas partes do mundo expostas em cristaleiras. Nossa mesa era discreta, ficava no fundo do salão, de frente para uma janela decorada com abajures e patos, de frente para um quintal que fazia a cidade parecer um pequeno bairro, esquecido no meio daquela imensidão. Patos. Lembrei mais uma vez da minha aversão aos bichinhos. Mortos, digo.

O garçom apareceu com os cardápios e ele prontamente escolheu o vinho. De Java, claro! Era um especialista.

– Pra comer? – perguntou.

– Eu vou querer uns camarões. E você?

– Pato. E fechou o cardápio despachando o garçom.

Não… tudo menos pato! Como é que eu ia dividir a mesa com alguém comendo pato? E se ele resolvesse me beijar depois de tudo aquilo, o que era até capaz de acontecer, e os fiapos de pato dançando na boca dele viessem invadir o meu palato? Aquilo arruinaria a noite!

Fui sutil:

– Detesto pato.

E ele, sem dar muita bola:

– Ainda bem então que você pediu o camarão. E já engatou outro assunto.

Incomodada com a situação, fui elaborando mentalmente planos para quando o prato (e o pato) chegasse. Havia entre nós uma garrafa de vinho, 2 de água, 4 taças, um vaso de flor e uma vela. De pronto, assim que o garçom chegou com os pratos, antes que ele percebesse, fiz um arranjo na mesa, de forma a construir uma muralha entre ele e eu; assim, eu não conseguiria ver o pato. Ele, quando se deu conta daquilo, se pôs a desfazer a construção: “mas o que é isso? Assim nem consigo ver você direito.” “Ah, é que eu gosto de jantar assim, mais escondida.” Inventei. “Não comigo, Ivy! Tá Louca?” Antes que ele pensasse que eu tava mesmo louca, precisei contar… Sabe quando nas empresas existe o “chinese wall”? Este é o meu duck wall…” – falei bem sem jeito.

Naquela altura, tia, quando eu achei que o encontro ia descambar, que nada!! Ele teve um ataque de riso, desculpou-se pelo pato, respeitou o meu “duck wall” e tivemos uma noite de sonho, até incluindo poemas declamados em javanês e dançamos músicas javanesas românticas pelas ruas de Paris.

Quando chegamos ao hotel, fizemos a despedida de praxe e eu, já escolada com os homens de Java, disse que a gente se via um dia, quem sabe em Java, porque… sim, eu conhecia o ritual, homens de Java não passavam a noite juntos, não se apegavam.

Foi quando ele me surpreendeu: “tá louca de novo? Só se EU fosse louco é que ia deixar de passar esta noite com você.”

Ai, tia Dinorah!! Mas pensa que foi só isso? Ele complementou: “Vou até meu quarto buscar minha necessaire e já subo para encontrar você.”

Tia! Que homem hoje em dia tem uma necessaire? Sabe o que tenho visto dos rapazes que aparecem lá em casa quando pergunto se não vão escovar os dentes? (a) não, amanhã eu escovo em casa; (b) me empresta a pasta que eu dou uma bochechadinha; (c) eu já escovei antes de sair de casa; (d) você tem chiclete? Mas nãaao, tia! Homens de Java têm uma necessaire! Eu tirei a sorte grande.

Pena que, no dia seguinte, era hora da despedida. Por coincidência ou sincronicidade, nossos voos saíam quase no mesmo horário, e do mesmo aeroporto. Seguimos juntos. nos despedimos com um abraço grudado no corpo e a promessa de que tornaríamos a nos ver – em Java, em Paris, no Brasil, em quaquer parte desse mundo.

O voo dele saiu um tantinho antes que o meu, e foi quando me dei conta que a necessaire dele tinha ficado na minha bolsa na hora da confusão de fechar as malas. Não resisti à curiosidade de ver quais era as colônias que perfumavam aquela pele, quais os segredos daquele sorriso tão branquinho. Até que encontrei uma pequena caixinha. Curiosidade já estava ali mesmo, segui em frente. Ué… uma caixa tão pequenina. Seriam comprimidos de Viagra ou de Cialis? Mas era algo que brilhava. Enfiei os dedos até o fundo da caixa: Era uma aliança de casamento. “Antonella – 28-05-03”.

Tia Dinorah, como pode perceber, isso não é mais um postal, é uma carta longa Voltairiana, porque não tive tempo de escrever uma carta curta.

Tia, Paris à vezes é uma festa, mas esses dias eu venho tomando conhaque. Com café.

Hoje é 14 de maio de 2018. Aniversário de mamãe. Aniversário de Caetano. Não é fácil. É estranho.

(Ivy Cassa)

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