Em sua redação de fim de ano, Kiki escreveu na primeira linha:

“O mundo se divide em duas categorias de pessoas: as que têm espírito natalino e as que não têm.”

A professora não entendeu de pronto. Talvez, seria um pouco precipitado afirmar que Kiki, pelos seus tenros anos de vida, não tinha espírito natalino, mas quem conhecesse sua história haveria de compreender de certa forma suas razões. Nada grave; nenhum falecimento ou doença. Alguns dissabores foram suficientes para Kiki pegar alguma aversão à data.

Joana Leopoldina e Kiki cresceram na mesma rua e estudaram na mesma escola, mas a primeira se desenvolveu contando histórias fantásticas dos seus natais, que só não eram mais cheios de luz do que os que Kiki via nos anúncios de viagens da CVC para Gramado. A menina se gabava de nunca terem faltado a ela convites para a ceia do dia 24 ou o almoço do dia 25.

Na vida de Kiki, que era filha de uma filha única e, portanto, primos só tinha de um lado, os convites não eram tão fartos. Todo ano passava a véspera na casa de um dos avós e o dia na casa dos outros. E fazia parte da cesta de natal uma desavença entre os pais, porque a avó paterna sempre alertava seu pai sobre a sua idade avançada:

– Se este for meu último natal, você há de se lembrar no meu caixão que estava lá com a sua sogra e não comigo.

Foi assim também que Kiki aprendeu com a mãe que as mulheres precisam tomar decisões na época de natal: engolir sapos ou a cara amarrada do marido na ceia.

Na família de Joana Leopoldina, sobravam tios e primos que, segundo ela, eram os próprios protagonistas dos comerciais daquela antiga margarina. Kiki inclusive desconfiava que a tal margarina havia se inspirado na família de Joana Leopoldina para criar tais comerciais. Nunca houve relato de quiproquó. Joana Leopoldina narrava, com orgulho, em suas redações de “minhas férias”, o momento em que aquelas dezenas de primos e tios reunidos pelo mais puro amor davam as mãos em paz na hora da refeição (em que nao havia uma única uva passa no arroz) para entoar cantigas natalinas e orar.

Já nos natais de Kiki, a hora da comida era o retrato do pandemônio. O avô destampava as panelas e desembrulhava as assadeiras antes dos convidados chegarem – porque cada um vinha numa hora, e comia antes de todo mundo. A avó, quando percebia, distribuía-lhe tabefes nas mãos, sobretudo quando ele arrancava uma das coxas do peru antes de servir à mesa e tirar “A foto”. Mas o avô não ligava – ou porque se fazia de surdo, ou porque já estava surdo mesmo. Deitava no sofá e dormia com a mão dentro da calça do pijama, antes mesmo dos outros convidados chegarem. O pai de Kiki se empolgava com as batidas de coco e maracujá da mesa de aperitivos e a mãe dela ia ficando aflita com tamanha empolgação. Suplicava para a avó servir logo a comida, porque era uma falta de respeito as tias Nazaré e Veruska chegarem tão tarde! A ceia acabava sendo servida pela metade.

Quando tia Nazaré chegava naquele sossego, de ônibus, carregando uma maionese que estava pronta sei lá desde que hora, a mãe de Kiki logo alertava a filha pra ficar longe daquilo, que devia estar cheio de salmonela. Kiki nem ligava. Ela não ia comer de qualquer jeito – onde ja se viu colocar maçã em maionese? Só a tia Nazaré mesmo!

Nisso, chegava tia Veruska, com os gêmeos e o resto da comida. Brava, muito brava! Porque o tio Gênesio nao ajudava a colocar um-sa-pa-to nas crianças! E ela tinha passado a tarde enfiando cravo em tender, pra quê? Pra chegar na ceia e ja estar tudo comido. E o peru só ter uma coxa! Que era feito da outra coxa do peru? Aposto que tinha ficado pro filho preferido, o pai da Kiki, lógico! Os 3 irmãos passavam a meia noite imbuídos do mais genuíno espírito natalino.

Voltemos ao natal da Joana Leopoldina…

A decoração narrada remetia quase a uma réplica da Rua Normandia – naqueles tempos em que tinha até chuva de neve artificial. Os presentes – meros detalhes para seres tão evoluídos espiritualmente – eram sempre um sucesso, pois cada um conhecia exatamente o gosto do outro familiar. O Papai Noel tinha feições tão verídicas que parecia mesmo ter descido delicadamente de um trenó vindo da Lapônia.

Os natais de Kiki eram um pouco diferentes. A começar pela decoração. Os enfeites, assim como seus ancestrais, também eram veteranos sobreviventes que deviam ter passado por algumas gerações da sua família e resistido à primeira guerra mundial e, talvez, também à segunda, no meio do bombardeio. O presépio, na verdade, era um mix de 2 ou 3 presépios que formavam um conjunto pouco harmônico, inclusive quanto à proporção. O sapo era do tamanho de Jesus. Havia não só uma, mas duas Marias, e nem um José. Aquilo devia ser um prenúncio dos tempos modernos. Mas o que mais intrigava Kiki era um carneiro que, indubitavelmente, era um herói de guerra, pois só tinha 3 patas e, mesmo assim, havia sobrevivido e ainda provia calor àquele Jesus que jazia sem manjedoura, porque sabe-se lá em qual batalha ela ficou perdida.

Os presentes na família de Kiki eram lembrancinhas. A tia Veruska sempre improvisava alguma coisa pra um convidado que aparecia de última hora:

– Aninha, peraí que vou até o armário “escarafunchar” alguma coisa pra dar pro namorado novo da Paula.

“Escarafunchar”. Kiki adorava aquela palavra.

Velas, sabonetes e aromatizantes de feiras vagabundas de artesanatos, além de caixas de bombons artesanais, tudo na família de Kiki era reciclado.

– Vai essa caixa de bombons artesanais que a dona Jandira fez pra ele. Escreve aí: Joel. Emenda com Daniel, que é o ex. Essa aí também troca tanto de namorado que a gente nem dá conta. Nem dá pra perceber.

Quando o Papai Noel chegava, com uma máscara que certamente tinha sido comprada em uma loja de Halloween e não de Natal, as crianças se escondiam no quintal.

– Que que a gente fez pro capeta ter vindo ao invés do Papai Noel? – perguntou um dos gêmeos.

– Foi aquela bola que você chutou na janela da dona Odila. Eu avisei. – respondeu o outro.

Mas a máscara era sempre a mesma, porque a tia Veruska. achava o máximo.

Depois, quando todos os avós de Kiki morreram, os convites deixaram de existir. Tia Veruska sumia no começo do mês de dezembro só pra não ter de organizar o natal. Não queria nem se fosse na casa da mãe da Kiki. Tia Nazaré também não dava o ar da graça.

Muito sem jeito, Kiki perguntou para Joana Leopoldina se ela não podia, pelo menos naquele ano, tomar parte daquela tão famosa festa de natal. Pelo menos uma lembrança a menina haveria de ter de um natal dos sonhos.

Chegando lá, Kiki foi recebida por dona Irene, a mãe de Joana Leopoldina, com bobs na cabeça.

– Quem é essa, minha filha?

– A Kiki, mãe! Lembra dela? Minha amiga de infância.

– Claro!

E dona Irene correu lá pra dentro. Ainda deu tempo de ouvi-la dizer pra dona Gertrudes, a governanta:

– Deixa eu ir lá dentro escarafunchar qualquer coisa pra essa gente não sair de mãos abanando. Olha lá na lata de lixo se tem algum papel que dá pra reaproveitar. E se tem durex também, que o da casa acabou. Olha esse pedaço aqui que veio embrulhando a torta. Já separa que serve.

Um pouco antes da ceia, Kiki estava ansiosa pelo momento da oração e da cantoria, de que Joana Leopoldina tanto se orgulhava.

– E então, dona Irene? Quem é o cantor da família?

– É o tio Orestes. Mas hoje acho que ele não está muito inspirado pra puxar a reza…

Kiki olhou de canto de olho para o tio, que fatiava um pedaço de pernil defumado de porco em formato de bola, enquanto cantava, encarnando Elves Presley: “Love me Tender, love me true… Never let me go”

Kiki não conseguia entender… Talvez o coro começasse mais tarde.

Mas não houve nem coro nem reza. Foi um salve-se quem puder quando colocaram o peru sobre a mesa. Salvou-se quem conseguiu arrancar as coxas primeiro. Dois primos saíram no braço e uma das tias passou a noite de cara feia com dona Irene.

Chegou a hora da troca dos presentes. A mãe de Kiki havia caprichado. Tinha comprado uma camisa da Dudalina para Dona Irene. Um pingente da Swarowsky para Joana Leopoldina. Um jogo para Felipe José, o irmão de Joana Leopoldina. E uma garrafa de Blue Label para o pai dela.

Entrou o Papai Noel. Ele não usava máscara, e Kiki achou aquilo fantástico.

Kiki olhou com atenção para tentar reconhecer o bom velhinho. Ele não coincidia com aquele exemplar vindo da Lapônia dos seus sonhos, mas trazia algo familiar.

Papai Noel chamou Felipe.

– Eu!!

Dona Irene conteve o filho.

É Fernando, Papai Noel. Veja a setinha.

Fernando era o irmãozinho de Kiki. Kiki percebeu a rasura no papel de presente, onde se lia, de fato, na versão original do pacote, Felipe.

Fernando abriu o pacote. Era um boneco do Hulk. Fernando, no seu jeito pueril, virou para o Papai Noel e reclamou:

– Eu já tenho esse presente.

Nisso, o irmãozinho de Joana Leopoldina, Felipe, ingressou na conversa:

– Eu também. Por isso minha mãe escarafunchou no armário e botou no saco do Papai Noel pra dar pra você.

– Ah! Mas foi a minha mãe que deu o meu pra você no último aniversário. Esse boneco já era meu e eu não gostava.

Dona Irene e a mãe de Kiki, visivelmente embaraçadas, pediram para o Papai Noel dar seguimento.

Mas Papai Noel estava muito longe da Lapônia. Ele estava era pra lá de Bagdá, segurando um copo de whisky. Ele voltou a cantar Love me Tender, chamou a mãe de Kiki e, ao invés de lhe dar um presente, tascou-lhe “O beijo”.

– Tio Orestes!!

Foi aquele furdunço.

A família de Kiki decidiu ir imediatamente embora de Bagdá, ou de Belém, ou da casa de Joana Leopoldina Francisca Bragança, tanto faz. Não havia mais espírito natalino naquela noite.

A mãe de Kiki ainda entrou no carro meio atordoada, dedilhando no banco da frente “And I love you so”…

Depois daquele dia, Kiki escreveu no seu caderno de redações:

“O mundo se divide em três categorias de pessoas: As que têm natais fantásticos. As que fingem que têm natais fantásticos. E as que ficam caladas.”

Ivy Cassa

#portasabertasivycassa #portasabertas #blog #literatura #cronica #natal #nataldossonhos