Vestido verde escuro longo com uma fenda na perna esquerda, um corpete dourado que revelava um decote nem tão discreto. Um par de sandálias douradas combinando com a bolsa e os brincos de bolinhas que faziam conjunto com a pulseira. E “aquele anel” de esmeralda. Mas, o que completava o look não era o tal anel – embora ele caísse realmente bem naquele contexto. O grand finale ficava por conta de uma máscara. Dourada, com uma delicada borboleta na lateral direita e uma fita preta grossa que a amarrava em um arranjo meio preso dos cabelos lisos que foram cacheados só para aquela noite e tinham algum desejo de desmaiar a qualquer momento.

Não era todo dia que aparecia programa assim: um baile de máscaras! Na verdade, eu tinha esperado 35 anos da minha vida para ser convidada para um. Aquele seria O grande dia. Só podia ser um sinal!

– Nina, tem certeza que meus cílios não vão desgrudar no meio da festa?

– Tenho!

– Conferi mais uma vez no espelho.

– Mas dá pra você levar a colinha na sua bolsa? É que esse aqui ao lado da borboleta cismou de ficar raspando nela. E na minha não cabe mais nada.

– Dá aqui. Agora vamos. Já estamos atrasadas.

– Nãaaao! Primeiro vamos tirar umas fotos.

– Ivy!! A gente prometeu que chegava pro coquetel! Deve estar cheio de príncipes mascarados perdidos e nós ainda aqui.

– Tá bom!

– Fiz só uma selfie meio sem jeito no corredor e já saí correndo atrás dela até o elevador.

Chegando lá, fomos recebidas de pronto por um garçom também mascarado servindo champanhe. Isso é o que chamo de uma boa recepção.

Adentrando o salão, a sensação era de que tinha mergulhado em um baile do século XVII. Eu estava em Versailles, na Galeria dos Espelhos. Minha vontade era de rodopiar e dançar uma valsa vienense. Tá, talvez não dançassem valsas vienenses na França. Tá, eu estava no Brasil e estava tocando uma música da Anitta. Mas… com um tanto de imaginação e algumas taças de champanhe, eu podia ir onde quisesse. Agora, era só encontrar onde estava o meu príncipe perdido.

Felizmente, os anos tinham passado e eles não usavam mais aquelas perucas da moda lançadas por Luís XIV. Por outro lado, infelizmente, eles não usavam mais saltos Luís XV, o que dificultava um pouco a vida de quem, com aquelas sandálias, já ultrapassava o limite do 1,80m. Mas, nem tudo eram más notícias: além do embelezador natural que alguns homens ganham depois de 2 taças de champanhe, eles estavam mascarados, o que lhes dava muitos pontos de vantagem.

– Ivy, mira nos que têm dentes (ou a maioria deles) e não têm aliança. A noite será um sucesso! Cheers! – profetizou Nina.

Ela logo se jogou na pista. Eu, mais recatada, sentei perto do bar e fiquei observando o movimento.

De repente, uma mão veio pelo meu ombro junto com uma voz:

– Me daria a honra dessa contradança?

– Que susto! – Saltei da cadeira. A gente se conhece? – perguntei para aquela imitação curiosa do Zorro.

Ele não era Antonio Banderas. O sorriso passava longe mas, pelo menos, tinha os dentes incisivos, molares e pré molares (que foram os que consegui enxergar), e ainda qualquer coisa de familiar.

– Vem. – E me puxou pela mão.

Aquilo não era exatamente música pra se dançar a dois, embora fosse até adequada para o tema da festa. Era uma da Pitty e dizia coisas como “Tira a máscara que cobre o seu rosto Se mostre e eu descubro se gosto Do seu verdadeiro jeito de ser”.

Ele não era propriamente um pé de valsa, mas eu já tinha dançado com piores.

– Como anda a vida? Notei que não tem escrito no Blog. Correria de fim de ano?

– Você é meu leitor?

– Claro, Ivy.

Fiquei com uma pontinha de vaidade. – Puxa! Achava que nem era famosa e já tenho um leitor que me reconhece numa festa. E isso eu estando mascarada!

– Como é seu nome?

– Grumercindo.

– Gumercindo?

– Não, Grumercindo mesmo. Mas você também pode me chamar de Agente AK 5078. Ou, simplesmente, de Gru. Huhuhu!

– Gru??? – Puxei a máscara do Zorro. O que você está fazendo aqui?

– Averiguações… e deu uma piscadinha. Você está sob investigação, lembra?

– Eu ainda não entendi o que está sob investigação. Nem do que sendo acusada. E acho que não preciso dançar com você por isso. – Cruzei os braços e saí da pista pisando duro, em forma de protesto.

– Aaaaah, Ivy! Não seja assim. Vem cá. Precisamos conversar sobre o seu livro.

– Não tá satisfeito ainda? Já roubou quase metade dele! Deve ter tirado as suas conclusões.

– O problema é bem esse. Vamos lá no bar um pouquinho?

– E eu tenho escolha? É uma condução coercitiva?

– É um convite.

Chegando lá, Gru tirou do bolso algumas folhas amassadas do manuscrito do meu livro.

– Estou muito confuso lendo isso tudo aqui. Não entendi até agora se isso é realidade ou ficção.

– É autoficção.

– Fiquei na mesma. – Disse, com um ar de dúvida.

– É a minha história, com pitadas de ficção.

– Mas tudo que você conta aqui aconteceu?

– Quem sabe?

– Você sabe.

– Mas não importa ao leitor. Não é uma biografia minha.

– E por que você não escreve uma biografia? Tem algo a esconder? Páginas que jogou pra baixo do tapete?

– Porque não me interessava esse gênero. Eu queria trabalhar de outra maneira.

– E por que então não escreve ficção então? Você me deixa confuso!

– Porque eu queria colocar elementos da minha vida e, por outro lado, queria fazer um jogo com o meu leitor. E, para isso, uso os meus personagens, que trazem pontos de vista diferentes ou sustentam as minhas opiniões para convencer o leitor da minha.

– Você está manipulando tudo! É fraude!!

– Gru! Eu não preciso ter um compromisso com a verdade. Há pedaços de histórias reais com recursos de linguagem que as tornam fictícias.

– É tudo mentira!!

– Não!! Há uma deformação de fatos por meio de artifícios. Mas o pano de fundo é verdade. Eu não preciso escancarar a minha vida. E, às vezes, a realidade, quando distorcida pela ficção, fica mais interessante do ponto de vista literário.

– E no seu dia a dia você também faz autoficção? Digo… se estamos em uma roda e você conta uma história pra essa Tati, por exemplo… a história é verdadeira?

– Sim! Eu sou eu na vida real e autora quando escrevo.

– E a Tati, o Carlão, essas pessoas com quem você conversa, existem?

– Quem sabe?

– Basta!!

– Essa fala é do Carlão. – risos.

– Você parece aquelas crianças que conversam com amigos imaginários.

– E que mal há nisso?

– Só falta dizer que eu também sou produto da sua imaginação.

– Será?

– Gru se beliscou. Eu acho que eu existo.

– Meus leitores também já acham. Assim como acham que meu porteiro existe, o síndico, os shampoos Cabelícia… Gru… – me aproximei dele e passei a mão no seu rosto. Tirei seu chapéu. Tá vendo essa máscara? Quando você coloca, você é o Zorro. Imagine que ela é a sua autoficção. Quando você tira – desamarrei a fita -, você volta a ser o Gru. O Zorro tem um pouco do Gru. Eu consigo ver o Gru pela máscara. Mas, hoje, aqui nessa festa, com chapéu e máscara, você pode ser o Zorro. É como no meu Blog. É como no meu livro.

– Você me embaralhou ainda mais, Ivy. Você definitivamente não bate muito bem, como diz a Dona Interpol.

– Gru, o pacto que tenho com meu leitor não é o da verdade, é o do prazer proporcionado pela leitura. O leitor não terá condições, em princípio, de fazer uma investigação profunda para saber se tudo que está escrito no meu Blog ou no meu livro aconteceu ou não

– Não?

– Não.

– Então aquelas coisas que eu andei lendo…

– Gru, eu vou ler um trecho de um poema bem conhecido pra ver se você entende melhor do que estou falando. Abri a bolsinha, peguei o celular e procurei no Google:

“O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente”

– Percebe, Gru? Gru??? Gru??????

Mas ele já tinha sumido. Certamente, pegou suas botas super saltitantes e escapou quando viu a Nina chegando no balcão, pra não ter sua identidade revelada. Outros, dirão ainda que Gru jamais foi àquele baile e que tudo não passou de delírio da autora.

– Ivy?? Tava aqui sozinha no celular em plena festa? – perguntou a Nina.

– Tava lendo um poema do Pessoa.

– Isso não é lugar pra poetar! Vamos pra pista. Vai arrasar com esse vestido! Tá cheio de bons partidos.

Aceitei. Nina me puxou pela mão.

– O que é isso? Tá segurando uma máscara do Zorro? De quem é?

– Ah… um amigo esqueceu enquanto conversava comigo…