O ciclo da vida

Era sábado de manhã. Minha mãe entrou no quarto:

– Vivi, já são 11h. Precisa levantar e comer alguma coisinha.

– Ai, mãe… só mais 5 minutinhos.

– Levanta. Tem hora no salão de beleza daqui a pouco, não vai sair de estômago vazio.

Bem a contragosto, saí da cama. Tinha figo cortado e bisnaguinha com requeijão na cozinha. O suco de laranja ela espremeu na hora.

– Precisa beber?

– Precisa. Tem vitamina C.

Nunca fui muito chegada em café da manhã.

Coloquei meu vestido florido comprido que escondia minhas pernas, a camisetinha branca por baixo, que disfarçava que eu mal tinha peitos, e os keds brancos, que encobertavam meus pés.

Chegando no salão de beleza, escolhi o esmalte: Misturinha. Esmalte sempre tinha de ser branco.

– Vai sair hoje? – perguntou a dona do salão.

– Vou à matinê do Moinho Santo Antonio.

– Matinê com esse tamanho?

– É que só tenho 15…

Fiquei pensando: “E precisava ter crescido tanto? Veja a Dani. 1,50m. Deve ter, no mínimo, 25 cm a menos de pernas, de braços, de tudo. Claro que, condensando as coisas, ficou mais fácil ter coxas, ter bunda, ter peito. E que eu faço com os pés? 37! Minha mãe calça 35. Meu pai, 42. Se eu, com 15, já estou por aqui, imagina quando chegar aos 30? Já vou estar calçando uns 50, no mínimo!”

Voltei pra casa. No caminho, passei na banca e comprei a Todateen. Na capa tinha o Rodrigo Santoro. Cabeludo. Eu estava na fase dos cabeludos.

Liguei pra Gabi, minha melhor amiga de todo o mundo pra sempre.

– Que horas sua mãe passa aqui?

– Minha mãe disse que tá muito cansada e não vai poder levar. Não dá pro seu pai levar?

Ferrou. Era dia de jogo do Palmeiras. Nem ia tentar.

– Dani, será que o seu pai podia dar a carona?

Santo pai da Gabi! Tava tudo resolvido. Dani, Gabi e eu. As melhores amigas do mundo. A Dani e a Gabi eram as duas únicas pessoas que eu já tinha deixado ler o meu diário. Que sabiam exatamente com quantos meninos eu já tinha ficado e o ranking de cada um. E vice versa. Aquele tipo de amizade que a gente sabe que nunca vai acabar na vida.

A tarde demorou um milhão de horas pra passar. Abri minha Toda Teen e fiz um teste: “Ele está a fim de você ou é só enrolação?”

Em uma escala de 0 a 10, o Gus marcou 5 pontos: “Você tem grandes chances, mas ele ainda precisa ser mais decidido nas suas atitudes.”

Liguei pra Gabi. Liguei pra Dani.

– Acho que o Gus tá a fim de mim!

Li meu horóscopo. “Hoje você terá uma grande surpresa. Se nada acontecer, é porque ainda não era o momento.”

Liguei de novo pra Dani e pra Gabi.

– A única chance do Gus não ficar comigo hoje é não ter chegado o momento ainda.

A Gabi fez outro teste. “Ivy e Gus, 17 de maio de 1997. Domingo. Sapino.”

– O Sapino não falha! Deu paixão! É hoje!!

Fui para o quarto, liguei meu walkman e coloquei a fita da Shakira: “Estoy Aqui”. Fiquei tentando lembrar os passos do clip que tinha visto na MTV, repetindo na frente do espelho. Bati o cotovelo direito no armário. Dizem que os adolescentes se batem muito nos móveis, vai ver era isso. Mas eu precisava treinar. Era com aquela música que eu ia conquistar o Gus.

Comecei a preparar a roupa pra sair. Calça jeans. Enquanto eu não criasse pernas musculosas, saias nem pensar! A calça devia ser de marca, por que as roupas precisam ter selo de qualidade. Onde não se vê uma bunda, tem de se enxergar uma etiqueta: Ellus. Uma blusa preta de renda. Preto, sempre, porque é sexy. Bota, porque encurta as pernas e encolhe os pés. Mas sem salto, pra eu não ficar ainda maior que os meninos, nem muito maior que o Gus. Perfume: Thaty. No bolso, ballas Halls pretas.

Às 17h a mãe da Dani chegou. Fomos buscar a Gabi.

Chegamos ao Moinho e estava aquela muvuca na porta.

Um desfile de Handbooks, Sideplays, OPs, Fioruccis, 775, Big Johnson´s, Nautica, Gap. Lá dentro, o cheiro de cigarro tomava conta.

Começamos a dançar. Encontramos o Fer, o Neto, o Dani e o Gus. Joguei os cabelos pra um lado e pro outro. A noite prometia. Ainda mais depois do que tinha acontecido naquela semana: Gus tinha me dado um bombom – e não era qualquer bombom. Era um Serenata de Amor. Eu grudei o papel na minha agenda da Pakalolo bem no dia: 13 de maio. E ele escreveu embaixo: Amor com amor se paga. O Neto cismou de vir dançar do meu lado. Ai, Neto! Você não é o Gus!! Você vai atrapalhar a minha noite. Fiz sinal pra Gabi e pra Dani – quando a gente coçava a cabeça, era hora de ir até o banheiro pra fugir de qualquer coisa. Mas a Dani não estava lá. Só a Gabi foi comigo.

– Que saco, o Neto não me largava!

Nisso, começou a tocar Shakira.

Gritamos histéricas e saímos correndo do banheiro. Era a minha hora de brilhar.

Quando chegamos ao grupo, o Gus também não estava lá. Ué. Cadê o Gus? E cadê a Dani, que continuava sumida? Foi quando o Fer colocou a língua pra fora, pra um lado e pro outro, e fez uma mímica, apontando pra parede, onde o Gus estava praticamente engolindo a Dani.

Imediatamente, comecei a chorar. A Gabi, minha melhor amiga de verdade pra toda a vida, quis bater na Dani, mas eu não deixei. O Fer segurou. O Neto insistiu pra me beijar, já que eu não ia beijar o Gus. Eu não quis. O Neto quis então beijar a Gabi. A Gabi também não quis. O Neto acabou ficando com uma menina desconhecida e a Gabi ficou com o Fer.

Comprei uma ficha e fui até o orelhão. Liguei pra minha mãe.

– Já acabou o jogo do Palmeiras? Dá pra vocês virem me buscar? É que não tou passando muito bem.

“Dani e Gus. 17 de maio de 1997. Domingo. Sapino.” Deu amor. Amor era mais que paixão. Mas a Dani era uma vaca mesmo assim.

*************************

Era sábado de manhã. O despertador tocou. Eram 11h. Eu precisava ir à manicure, que estava marcada pras 11h mesmo. Saí correndo e sem café da manhã, já que não tinha nada na geladeira, além de vinho branco e champanhe.

Coloquei a primeira roupa que apareceu pela frente. Levei meu próprio esmalte, o vermelho de sempre.

– Qual é a festa de hoje? perguntou a dona do salão.

– Aniversário de um amigo.

– Não sei como não cansa de tanta festa.

– Tou exausta. Queria ter o pique dos meus 15 de novo. Só nessa semana não almocei 2 vezes e virei uma noite em claro.

Do salão, fui combinando sobre a festa com a Nina, a Tati, a Mari e o Carlão no grupo de WhattsApp “Bebedores dançantes”.

– Vamos todos de Uber. Se quiserem fazer esquenta, passem em casa antes.

Tati: – Acha que é hoje que o Rick vem falar com você? – perguntou a Tati.

Eu: – Tava aqui na cabeleireira lendo meu horóscopo: “Hoje você terá uma grande surpresa. Se nada acontecer, é porque ainda não era o momento.”

Carlão: – E quem acredita nessas bobagens? O cara é um babaca, todo mundo sabe.

Mari: – Se até hoje, depois de 3 festas que ele encontrou com você, ele não fez nada, eu não botaria muita fé.

A tarde demorou um milhão de horas pra passar. Entrei no facebook e fiz um teste: “pessoas que podem mudar seu futuro”: E quem saiu? “Rick.” Rick?? Será??

Compartilhei no grupo dos Bebedores dançantes.

Eu: – Acho que o Rick tá a fim de mim.

Fui para o quarto. Abri o Ipad e coloquei o clip do Shape of You. Fiquei repetindo a coreografia na frente do espelho do closet. Bati o cotovelo direito na porta do armário, mesmo não sendo mais adolescente. Mas eu precisava treinar. Era com aquela música que eu iria seduzir o Rick na pista de dança.

Comecei a preparar a roupa pra sair. Vestido vermelho curto com um decote. Ah, como 19 anos de musculação tinham facilitado as coisas. Só por precaução, fiz 3 séries de 20 agachamentos antes de sair. Coloquei uma sandália preta tamanho 37 de salto alto, mas não muito alto. O Rick não era um jogador de basquete. Perfume: Coco Mademoiselle Chanel.

Às 22h os bebedores chegaram. Às 23h, o Uber chegou.

Um desfile de Le Lis Blanc, Bobô, Ralph Rauren, Moschino e Guess.

Lá fora, algum cheiro de charuto. Lá dentro, taças de cristal brindavam champanhe e outros copos, whisky.

Começamos a dançar. Joguei os cabelos pra um lado e pro outro. A noite prometia. Ainda mais depois do que tinha acontecido naquela semana. Rick tinha curtido a foto que postei na praia no Facebook. Uma foto antiga! Do tipo: “eu estava te stalkeando na madrugada”. O estagiário cabeludo do Carlão cismou de vir dançar do meu lado. Ai, moleque! Você é muito novinho pra mim. Eu tou esperando o Rick aparecer. O Rick, entendeu? Mari, Nina, Tati entenderam quando eu dei aquela coçada na cabeça. No caminho para o banheiro, encontramos o Rick.

– Oi, sumida. Vi sua foto no Facebook.

– Sério? Que foto?

– Uma que você tá na praia. Em Sentosa Beach.

– Ah! – Nem reparei. Ri, balançando os cabelos.

Começou a tocar Shape of You. Era a minha vez de dar um show.

– Vamos até a pista dançar? – Convidei.

– Claro. Deixa só eu te apresentar. Ah! Tá aqui. Ivy, essa é a Marcela, minha namorada.

– Ah, prazer, Marcela… – falei completamente desconcertada. Eu… Hã. Tava indo até o banheiro com as meninas e já vou encontrar vocês.

Parei no bar.

– Garçom, você pode me arranjar um guardanapo e uma caneta, por favor?

“Ivy e Rick. 18 de Novembro de 2017. Sábado. Sapino – F@deu!!!”

(Ivy Cassa)

#portasabertasivycassa #blog #literatura #autoficção #adolescencia #ciclodavida #juventude #anos90

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s