Moço, tira uma foto de mim?

Uma das muitas saudades que sinto do Pedro é a da época em que ele foi um fotógrafo namorado apaixonado por mim.

Os apaixonados, por si sós, veem o objeto amado como algo mais bonito do que efetivamente é. Afinal, se a beleza está nos olhos de quem vê, se para quem ama o feio, bonito lhe parece, nada como ter alguém que lhe olha com aquelas famigeradas lentes cor de rosa da paixão e que tenha um mínimo de bom senso ao manejar as lentes de uma boa máquina fotográfica pra lhe fazer sentir uma celebridade, mesmo que você não tenha sequer cara ou corpo pra isso.

O bom fotógrafo extrai o que temos de melhor: um olhar perdido, um músculo bem desenhado escondido, um lábio entreaberto que tinha a intenção de dizer qualquer coisa. Fotografia tem nuances de poesia. Vai ver, era esse um dos elos entre Pedro e eu: cada um com a sua arte.

Mas, depois de alguns clicks feitos por ele, como aquela foto em que estou debruçada em um Fiat antigo cor de rosa em Buenos Aires, pouca coisa me encanta.

Umas das pouquíssimas coisas que me desagradam em viajar sozinha é ter de depender dos outros pra ter recordações com paisagens. A maioria das pessoas não tem jeito, noção, paciência ou bom gosto mesmo. Tenho um pau de selfie que não me satisfaz e, porque já passei dos 30 há 5 anos, tomo alguma cautela com as selfies sem o pau. Além disso, acho uma baita sacanagem com a minha coleção de vestidos e de sapatos desprestigiá-los nas fotos.

– Moço, tira uma foto de mim?

– Vê se ficou bom.

– Ah, ficou ótimo. Só ficou faltando a paisagem… Dá pra tirar uma segunda, assim com o título “eu E a paisagem”?

– Vê agora.

– Muito obrigada, perfeito! – o jeito é mentir deslavadamente e colecionar fotos mal batidas. Nem que seja pra escrever uma crônica sobre elas no futuro.

Houve tempo em que apostei na “técnica do oriental”, porque diz a lenda que são os melhores fotógrafos – ainda mais se estiverem munidos daqueles equipamentos com lentes superpoderosas.

– Moço, tira uma foto de mim? Tipo: “corpo inteiro, paisagem, pés…”, sabe?

Balela… Os japoneses que cruzam o meu caminho não são bons fotógrafos como os outros. Eu aposto que eles só andam “armados” com canhões pendurados no pescoço por uma questão de status.

Depois de tantas fotos mal enquadradas, desenvolvi uma teoria de que, talvez, o problema, esteja com a minha altura. Ninguém consegue colocar 1,75m em uma única foto. Raramente há pés. Com sorte, há joelhos. Às vezes, falta a tampa da cabeça. Quando há corpo, não há paisagem. Sim, a culpa é minha. A gente precisa aprender a assumir.

Mas o problema das fotos não se restringe às viagens desacompanhada. Viajar com a mãe também lhe coloca em maus lençóis. Digo, em más lentes. Ainda mais se a sua mãe for da geração das fotos das “máquinas de slides”.

Confesso que não tinha me dado tanto conta disso até casar. Acho que eu não tinha esse senso crítico que tenho hoje. De repente, pode ser que tenha ficado mais chata depois de ter conhecido o Pedro. Ou então porque as fotos melhoraram sensivelmente de qualidade nos últimos tempos, em função do desenvolvimento da tecnologia. Ou porque, depois de uns tempos sem viajar com a minha mãe, eu tinha esquecido das suas habilidades como fotógrafa.

A primeira viagem que fizemos juntas nessa era da modernidade foi a Paris. Sentei à beira do Sena, cruzei as pernas na frente do corpo e minha mãe bateu a foto apressada e aos berros. Saí pela metade. O rio apareceu de relance.

– Que houve?

– Você ia cair no Sena e morrer afogada!

– Mas o muro tem mais de um metro de largura! Ainda que caia dele, tem uma calçada lá embaixo. Nem morro, sequer afogada. Quanto muito, um traumatismo craniano. – zombei.

Mas a mesma quantidade de paixão que tenho por tirar fotos nas alturas minha mãe tem de pânico por fotos nesses lugares. No Cerro San Cristóbal, em Santiago, a cena se repetiu.

– Você vai cair do morro!!

Apenas saíram minhas botas e um pedaço da bolsa. Ela queria me segurar, não bater a foto.

Só que o problema nao se restringia às alturas. Nossas viagens passaram a ter perrengues a cada momento de registro fotográfico.

– Mãe, não pode por o dedo no flash.

– Mãe! Não pode por o dedo na lente.

– Mãe, você filmou, ao invés de fotografar.

– Mãe, inverte a câmera.

– Mãe! No botão branco. Não, mãe!! O de baixo não! Esse desliga o celular.

– Mãe, tá contra a luz!

– Mãe, tira 200 se for preciso, que isso não tem filme! Uma há de ficar boa!

– Mãe… Deixa pra lá. Nessas férias decidi que vai ficar tudo na memória…

Depois de muito refletir, cheguei à conclusão: não era culpa da minha mãe. Ela se esforçava. Era culpa das mães em geral. Constatei isso quando testemunhamos uma briga num jantar de cruzeiro. Mãe e filha que dividiam a mesa do navio conosco se desentenderam por causa de um camelo.

A filha mostrou a foto e fui solidária a ela. A moca era dançarina do ventre e blogueira, e a foto em cima do camelídeo era peça chave para conseguir algumas centenas de likes no seu Instagram. Tudo teria sido um sucesso, não fosse a mãe ter ignorado a cabeça e o traseiro do bicho.

– Mas dá pra entender que é um camelo! – Se defendia a mãe. Veja as corcovas. Qualquer um, com um tantinho de imaginação, percebe.

Minha mãe concordava mentalmente, lembrando daquela foto que ela tinha tirado de mim na parede de Medina na mesma tarde, em que eu me chateei porque não dava pra compreender que era uma Medina. Para as mães, tudo é uma questão de imaginação.

Quando visitamos o Grand Canyon, tive uma das minhas maiores frustrações fotográficas. Nem uma só foto saltando. Dezenas de poses desperdiçadas. Um calor de fritar as carnes sentada numa pedra, sorrindo, 5 minutos posando e nenhuma foto batida.

– Mãe, você só pode estar de sacanagem comigo! Nós em uma das 7 maravilhas da natureza e nenhuma foto?? Que se passou?

– É que fiquei tensa.

– Tensa? Tensa tou eu com as nádegas em brasa nesse calor de quase 50 graus e nem uma foto do Canyon, mãe!!

– Fiquei com medo de você cair no precipício.

O medo procedia. Passou-me vagamente a vontade de me jogar ou jogar o celular no precipício depois daquilo tudo.

O arranca rabo foi tamanho que, no dia seguinte, ficamos uma pra cada lado na piscina do hotel. Eu estava tomando sol quando um rapaz se aproximou.

– Posso sentar?

– Pode.

Perguntou o que eu estava fazendo. Contei das férias e do passeio no Canyon.

– Puxa! Deixa eu ver as suas fotos.

Expliquei, meio sem jeito, que não havia muito pra mostrar.

Ele percebeu minha frustração.

– Quer que eu tire umas fotos de você?

Não sou muito fã de pedir pra desconhecidos tirarem fotos minhas de biquíni, mas lembrei que não tinha uma única lembrança na piscina do Bellaggio, e acabei aceitando. Ele até que mandava bem: corpo, pés, biquíni, cabeça, chapéu, piscina. Ufa!

– Obrigada. Vou continuar aqui tomando meu sol. Prazer te conhecer.

Passaram uns minutos, eu estava tomando sol de costas, biquíni desamarrado na parte de cima, fones nos ouvidos, quando uma mão veio no meu ombro.

– Oi. Eu tava aqui te olhando tomar sol… não quer que eu tire umas fotos suas por outro “ângulo“ agora?

Me recompus rapidinho.

– Não, obrigada. Já chega de fotos. E você também pode ir pra lá. Isso já está queimando seu filme.

E tranquei a cara. Era cada uma!

Peguei minhas coisas e fui para o outro lado da piscina, onde minha mãe estava meio murcha. Brigas com mães nunca passam de meros incidentes.

– Ô mãe… eu tava ali pensando. Vamos procurar um curso de fotografia pra mães quando chegar ao Brasil?

(Ivy Cassa)

#portasabertasivycassa #blog #literatura #autoficção #fotografia #maesefotos

2 comentários em “Moço, tira uma foto de mim?”

  1. Adorei!!! Outro dia pedi pra uma senhora tirar uma foto e ela espera meu marido q ele tira como profissional…ok…minutos depois vejo a foto a o marido fez e sai toda borrada…imagina como seriam as fotos q ela tira kkkk agora so selfie stick e tripe!!!

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