Nox – dine in the dark

Foto para o Carlão.

– Que tal?

– Muito bem, menina Ivy! Vai pra onde vestida de Dominatrix esta noite?

– 😡 Não é uma roupa de Dominatrix! Nós já conversamos sobre isso.

– Eu sei. É aquela roupa que você usou no Uruguai. De Dominatrix. Huahuahua!

– Basta! É uma frente única de couro com uma minissaia preta. E sandálias de amarrar. 😊 Tou bem assim?

– Já disse que sim. Onde é a balada de hoje?

– Vou sair pra jantar.

– Onde, com quem? Conta tudo, não vá esperando que eu faça uma entrevista. Não sou menina, nem sou da Revista Quem.

– Vou a um restaurante que chama Nox – Dine in the dark. Jantar no escuro. Digo, complemente no escuro. E sozinha.

– Você está cada dia pior…

– Aff!! Às vezes nem sei por que te conto as coisas!!

– Você precisa sair pra jantar em restaurantes iluminados. Com boa companhia, pra conversar e falar também sobre a comida, a bebida! De onde veio essa ideia de comer no escuro agora?

– Tá pra nascer o dia em que vou ficar esperando companhia pra sair pra jantar! Você me conhece.

– E que graça tem jantar no escuro?

– É uma experiência sensorial! Comer só pelo paladar. Sem qualquer outro sentido pra atrapalhar.

– Tá bom. Se você tá dizendo. 🙄 E vai vestida assim, com esse decote e com esse batom vermelho por quê, se é tudo no escuro? Vão brincar de gato mia no meio do jantar? 🤣🤣🤣

– Desde quando preciso de plateia pra me arrumar? 😡

– Então boa sorte, menina Ivy super independente! Tomara que nenhum pato ou avestruz pule para o seu prato no escuro. Vá que você coma e acabe gostando. 🤣🤣🤣

– Vou te mostrar onde se enfiam patos e avestruzes. Na volta. Que já tou atrasada. 😡

– 😘

Uber.

– Nox – Dine in the dark, please.

Chegando lá, recebi a primeira instrução: deixei a bolsa no armário junto com o relógio.

– Não pode mesmo levar o celular junto? É que meu celular é uma espécie de marca-passo pra mim… e se eu tiver um ataque cardíaco durante o jantar?

A atendente me olhou sem compaixão. Não teve jeito. As opções que eu tinha só diziam respeito a comida e bebida.

– Alguma restrição alimentar?

– Ovolactopescovegetariana…

– Hã?

– Quer dizer. Vegetariana. – corrigi a tempo.

Era melhor pedir uma refeição mais restrita do que arriscar receber no escuro alguma coisa vinda do mar que eu podia não gostar – uma cabeça de peixe, uma enguia, um ouriço… ia ser muito estranho. Pedi também uma sequência de coquetéis. Talvez fosse uma boa ideia beber um tanto pra entrar no clima. Afinal, sóbria, sozinha, comendo no escuro coisas que eu não sabia o que eram era muita informação a ser digerida por uma viúva sozinha numa sexta feira à noite.

Feitas as devidas escolhas, fui apresentada a uma moça com as feições orientais, baixinha, com trajes muçulmanos, chamada Arina. Ela era a minha “guia”.

Arina explicou as próximas regras:

– Primeiro, você pega nos meus ombros e eu te guiarei. Subiremos por uma escada. São 14 degraus, um plano e mais 5 degraus.

– Fácil.

Saímos da luz. Passamos por uma cortina e o breu se formou. Éramos Arina e eu.

– Arina!! Arina!! Já chegamos à escada?

– Agora sim.

– Arina! Ande devagar! Eu não posso te perder.

– Confie em mim.

– Arina! Eu sou muito alta! Tenho 1,75m, + 10 cm do salto alto! Vou bater a cabeça no teto!!!

– Não, o teto está longe. Continue com a mão esquerda no meu ombro e, se quiser, ponha a mão direita na parede.

– Me esfreguei naquele corrimão lembrando daquela única aula de pole dance que fiz.

– Arina! Posso comer aqui na escada?

– Faltam só mais 8 degraus.

– Ai meu Deus! – Me senti subindo a escadaria da Igreja da Penha. Eram 382 degraus. A Arina devia ter se enganado.

Cheguei dura de medo lá em cima.

– Acabou?

– Chegamos. Pode sentar.

Tateei.

– É pra sentar no chão?

– Não, tem uma cadeira.

– Ufa!

Acertei. Não caí. Ela explicou a terceira regra:

– Serão 12 pratos, que virão em 3 etapas. Um prato giratório com 4 cumbucas por vez. Você gira em sentido horário e vai provando. Junto com cada etapa virá um copo de drink.

Colocou minha mão direita sobre os talheres e o guardanapo.

– Eu preciso comer com talheres?? Não posso pegar com as mãos?

– O restaurante não é marroquino. Você se acostuma. Coloca a cumbuca perto da boca e espeta com o garfo ou pega com a colher.

Pensei. Bom, mas ninguém ia reparar se eu comesse com as mãos… tava tudo escuro! Ninguém, fora a Arina, sabia que eu estava ali. Aliás, havia alguém ali? Mas eu ia me esforçar.

– Arina! Arina!

– O que foi?

– Nada, só testando se você vem mesmo.

– Já volto com a comida e a bebida.

Os segundos pareceram minutos, ou foram minutos que se arrastaram por horas. Eu não tinha percepção alguma de tempo. Dali a um tanto, ela chegou com a primeira rodada. Dei um gole no drink pra iniciar. Lembrava um Cosmopolitan. Apalpei a primeira cumbuca e tentei espetar o que estava dentro. Deu certo. Parecia cogumelo. Era bom. Sucesso! Girei a tabuinha. Espetei o conteúdo da segunda. Parecia repolho. Argh! Esse não. Repolho eu detesto. Terceira cumbuca. Eu tava ficando craque. Tinha consistência de um bolinho. De repente, ele rolou pra dentro do decote da minha blusa frente única. O que fazer? Um tanto sem jeito, enfiei a mão no meio dos peitos e catei o bolinho. O que fazer com ele? Se estivesse num restaurante iluminado, àquela altura teria tratado de esconder o bolinho, esconder minha cara das pessoas das mesas ao lado, me desculpar com quem estivesse na mesa. Mas ninguém me via. Ninguém sabia que eu tinha um bolinho no decote! Resolvi comer. Achei pouco polido, mas, quem sabe, no escuro não houvesse dispensa daquela regra de etiqueta? Será que era preciso também limpar os lábios com o guardanapo antes de colocar o copo na boca ou aquela tradição só valia pra restaurantes de luz? Quarta cumbuca: aquilo devia ser alface. Que delícia comer salada sem ter de me preocupar com os resquícios de verdura presos aos dentes. Comi em fartas garfadas e ri pra mim mesma! Como é doce a vida de quem janta no escuro!

E se houvesse algum namorado comigo? Será que ele estaria palitando os dentes com os dedos ali ao lado? Será que estaria cutucando o nariz? Coçando o saco? Afastei o pensamento e virei o resto do drink.

– Arina! Arina? Arinaaa!!!!

– Calma, estou aqui. Cheguei.

– Ufa! Acabei. Estou satisfeita da comida e o drink acabou. Virei o copo e não sai mais nada.

– Já vou trazer o segundo copo e os pratos quentes.

Arina demorou um pouco. Tentei me situar. A porta pra escada estava na frente. Eu acho. Ao meu lado esquerdo devia ter uma parede. Ao lado direito, pelo menos umas 3 mesas, de onde ouvia vozes falando alto em línguas que não conseguia perceber muito bem. Eu estava em Singapura, podia ser inglês, “singlish” ou qualquer coisa parecida.

– Arina! Arina!!

Naqueles primeiros instantes, chamei a Arina mais vezes do que a minha mãe durante as primeiras fases da minha infância inteira.

Ela finalmente chegou!

Dei um gole generoso no drink. Tinha cheiro de amêndoa. Primeira garfada na cumbuca. Era uma coisa que parecia arroz com feijão. Aquilo caiu na minha roupa. Nem tentei limpar, pois não seria capaz de catar os grãos. Dane-se! Não tinha ninguém vendo. Decidi pular aquela cumbuca. Na próxima tinha tipo uma massa, era mais consistente. Não caiu. Depois, uma alcachofra com queijo. Aos poucos, fui pegando prática. Os drinks foram me deixando mais destemida. Eu tinha nascido pra jantar no escuro!

– Arina, Arina!!

– O que foi?

Estendi as mãos pra ela.

– Você é o meu Messias! – disse já com a voz embargada.

Na terceira rodada, terceiro drink, vez da sobremesa. Sorvete de coco, pudim de qualquer coisa, qualquer coisa com café e outra coisa com geleia que respingou na minha saia. Um drink de uma coisa que tinha gosto de ser vermelha.

– Arina, Arina!! Quero ir embora!

– Gostou?

– Sim, mas estou meio farta de comer e beber no escuro. E sozinha! Esse é o tipo de jantar que definitivamente merece ser partilhado!

Agarrei nos ombros da Arina, crente que iríamos sentido parede da frente, onde a minha porta imaginária ficava. Mas Arina me levou para a direita.

– Arina, tem certeza? A porta não está ali?

– Confia em mim!

– Arina! Eu sou muito alta! Tenho 1,75, + 10 cm do salto alto! Vou bater a cabeça no teto!!!

– Hahaha! Eu gosto do jeito que você pronuncia: “Arina”.

– Arina!! Isso não é nada engraçado!! Arina! A gente vai rolar esses 14 degraus da escada! Eu tomei 3 drinks e tenho 10cm de salto!!

– Vamos em frente.

Arina era o Moisés da escada escura. Não caímos. Ela abriu a cortina e fez-se luz!

– Arina, eu te devo a minha vida!!

Dei de cara com um espelho e vi a minha figura. Havia duas nódoas de gordura na minha frente única de couro vermelha, além da geleia escorrida pela saia. Meu batom estava todo borrado e tinha resquícios de alface pelos meus dentes. Felizes as mulheres que saem pra jantar no escuro desacompanhadas!

Fui levada até um sofá onde preenchi um quiz para tentar adivinhar o que tinha comido. Acertei em parte. Não havia repolho nem feijão, sequer café.

– Eu queria mesmo era pegar o meu celular. Meu coração está descompassado. – confessei para a atendente.

Mensagem para o Carlão:

– Promete que assim que eu voltar pra São Paulo a gente sai pra jantar? E não quero nada à luz de velas, tá? Uma coisa assim, tipo consultório de dentista, beeeeem iluminada! Pra gente conversar. Ah, e eu não vou com a roupa do Uruguai / “Dominatrix”… acho que vai demorar até a lavanderia remover as suas manchas.

(Ivy Cassa)

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