A paranoia dos pseudopersonagens

– “Dotora Ívis”, boa tarde. A gente pode dar uma palavrinha?

– Pois não. – eu chegando de viagem cansada, tudo que não queria era chamadinha na guarita.

– Fiquei sabendo que a senhora criou uma página na internet. Eu não sou de ficar de conversê sobre a vida dos outros, a senhora sabe, mas o pessoal anda aí comentando…

– Comentando o quê?

– Bom. Primeiro, o síndico falou que vai mandar uma notificação pra senhora pintar a porta de entrada igual à de todo mundo, que ele não é “frouxo” não!

– Mas quem disse que era?

– Andam falando. Depois, a dona Gildete do sétimo falou também que vai pegar a senhora qualquer dia lá na garagem porque a senhora insinuou que no apartamento dela tem acontecido coisas estranhas.

– Mas quem é Dona Gildete? Que coisas estranhas? Não tou entendendo nada!

– É que ela traz aqueles bagulhos lá do Paraguai, a senhora sabe…

– Não sei! Nunca soube! Que piração é essa?

– Ela falou que entendeu a “indireta” que a senhora falou que o tal de Gru tinha ido fazer investigação num apartamento aqui no prédio e que é claro que era no dela.

– Aiaiaiaiai! Se ela soubesse o tanto de gente louca que tem aqui! Vai demorar pro Gru chegar até o apartamento dela, aposto!

– Bom, mas não é só isso. O síndico mandou avisar que vai aumentar o condomínio.

– Ah, eu imaginei. Por causa do aumento no consumo de água, né? Tá com vazamento na coluna?

– Não. É que vão contratar seguranças. E colocar câmeras na área externa.

– Ué? Alguma situação anormal na vizinhança?

– Não. É por causa da tal “invasão masculina” que a senhora relatou no outro dia. O indivíduo Gru entrou no seu apartamento pela varanda, já tinha vindo de outro. E tudo isso sem que a portaria visse!

Balancei a cabeça incrédula.

– E tem mais uma coisinha… – falou meio sem jeito. Eu gostei de aparecer na sua página, mas a senhora escreveu meu nome errado. Sabe como é. Vai que com essa coisa de internet a senhora fica famoooosa, esse tal de blog vai pra tv… já pensou? Eu gostaria de ser conhecido pelo meu nome de verdade.

– Olha, eu vou subir, a gente conversa outra hora? Pode ser? É muita informação pra minha cabeça!

– Mas dotora Ívis!!

Fechei a porta do elevador. Ele só podia estar de brincadeira.

Entrei em casa e fui conferir minha caixa de entrada do Blog. Mensagem privada de leitora nova.

“Parabéns pelo seu blog! Estou impressionada com o seu talento”.

“Obrigada pelo carinho, Vanessa! Seja bem vinda!” – respondi.

Valeska está digitando. (…)

“Acho que você deveria explorar mais todo esse potencial. Aceita uma dica?”

“Claro!”

“Você precisava colocar algum elemento “comercial” pra chamar a atenção dos seus leitores.”

“Como assim?”

“Sou representante exclusiva dos produtos “Cabelícia”. Por que a gente não faz uma parceria?”

“Continuo não entendendo.”

“Veja naquele primeiro post: você podia reescrever e dizer: “abri a porta para a Dona Interpol e ela disse: “Uau! Que cabelos reluzentes!” E eu respondi: “É porque eu acabei de usar meu shampoo Cabelícia”.”

“Puxa, Valeska. Ficaria muito legal, mas acho que foge um pouco do escopo do meu trabalho.”

“Bobinha! Eu mando para você uma cesta completa de produtos Cabelícia! Veja no segundo post: “Cheguei ao tal do Tal balançando meus cabelos recém lavados com o shampoo Cabelícia e logo consegui uma mesa”.”

“Valeska, muito obrigada, mas não posso aceitar sua doação. De qualquer vamos manter contato! Bjs”

E saí do Messenger. Tava tudo maluco???

Mensagem de WhatsApp. Karina. “Muito obrigada pela consideração. Carlão tá em todas. Pai Geraldo idem. Eu, até agora, nem um post mereci. É nessas horas que a gente reconhece as amigas. Estou te bloqueando. Portas fechadas pra você.”

Era só o que me faltava!

Fui tomar banho. Era dia de sair pra dançar. Há quanto tempo eu não dançava assim, junto? Anos!! O Marcelo era meu novo leitor e me fez a gentileza do convite pra gente se conhecer.

Enquanto eu escolhia um vestido, chegou mensagem dele.

“Gata, me responde uma coisa:”

“Claro.”

“Se a gente sair hoje, você vai escrever sobre mim no seu Blog?”

“Sei lá! Você acha que eu planejo meus posts? Eles vêm de repente. Eu tou fazendo qualquer coisa e, quando menos espero, Plim! Vem uma inspiração. Outras vezes, tou com a cabeça focada em outra coisa, no trabalho, em algum problema, daí nem a fórceps. Eu não saio com as pessoas pra ter assunto pra postar, nem me coloco de jeito em situações só pra forçar um post. Eles acontecem.”

“É que eu tou achando melhor a gente não sair.”

“Mas por quê?”

“É que eu vou passar a noite preocupado com o que você vai escrever sobre mim. Se eu vou sair bonito na história. Se meu desempenho será bom. Se não vou fazer presepada. Se você não vai me detonar depois. Se seus leitores vão gostar de mim.”

“Tá doido? Eu nem escrevo sobre você, então!! A gente só dança e pronto.”

“Tá vendo? Daí olha a frustração! Saí com a mina do Blog e nem uma notinha! De que adianta?”

“Olha, Marcelo. Vamos deixar pra outra hora. Daí a gente pensa em como “documentar” esse encontro, pode ser?”

“Beleza.”

“Esse mundo tá mesmo de cabeça pra baixo! Vou dormir. Chega de brincar de escritora por hoje.”

No dia seguinte, acordei com o interfone.

– “Dotora Ívis”, bom dia! Tem uma correspondência e uma caixa aqui embaixo pra senhora.

– Tá bom. Já desço pra buscar.

Comecei pela carta. O selo era de Lyon, mas o texto estava em português. Ufa! Menos trabalho pra ler.

“Prezada Ivy Cassa,

Como é de conhecimento, um de nossos agentes está encarregado de realizar averiguações em seu apartamento. Apesar de sua indiscutível semelhança com um conhecido personagem de animação da Universal Pictures, bem como do agente AK 50789 ser também conhecido pela alcunha de Gru, pedimos a gentileza de não confundir os leitores do seu com a imagem daquele personagem. Ele não é pai de Agnes, Margo e Edith, tampouco é servido por seres amarelos milenares. Ao reforçar essa imagem perante seus leitores, a senhora infantiliza o agente e menospreza a complexidade do seu trabalho.

Grata pela compreensão.

Dona Interpol”

Desmontei no tapete. O que mais vinha por aí?

Abri a caixinha e li o bilhete que acompanhava 5 frascos escuros:

“Bom dia, Ivy! Que tal começar assim? “A paranoia dos pseudopersonagens que usam shampoos e condicionadores “Cabelícia””? Beijos, Valeska”.

(Ivy Cassa)

#portasabertas #ivycassa #blog #literatura #crônica #pseudopersonagens

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