Jet lag

– S’il vous plaît, quelle heure est-il?

– Il est 6 heures du matin, madame.

6h da manhã! Não. Isso é uma grande sacanagem. Saí ontem às 22h40 de Singapura. Voei 13 horas. E ainda o sol não nasceu em Paris!

Olhei desorientada para o painel de voos. O meu só parte daqui a 4h! O que fazer com tanto tempo no aeroporto? Dormir, claro! Mas lembrei que dormi umas tantas horas no voo, anestesiada, morta, desmaiada. Maldita alergia, maldita e bendita fenilefrina. Maldito francês que sentou ao meu lado! Eu tinha acabado de comer uma baguete antes de embarcar (pensei: hoje o Josair não me pega, vou ignorar o jantar!), tomar um antialérgico, colocar meus fones e dormir. Dito e feito. Eu nem vi o avião levantar voo e já tinha adormecido. (Logo eu que sou cheia de rituais pré decolagem!)

Pois não é que algum tempo depois – sei lá quanto, pois os alérgicos sob efeito de anti-histamínicos perdem a noção do tempo quando dormem, eu fui cutucada pelo francês do lado por causa da comida que tinha chegado?

– Não!!! Você tá louco? Eu estou com alergia! Tomei remédio pra não tossir e nem olhar pra cara dessa comida! Eu detesto o Josair! Você não leu o meu Blog? Eu quero dormir!!!

Mas falei tudo em português, ele não entendeu nada, eu repeti em francês, mas meu francês é horrível, então falei pela terceira vez em inglês e… depois de tanta repetição e alguma reflexão, eu já não sabia se xingava ou se agradecia. Ele certamente tinha apreço pela comida do avião, mas eu estava em outro planeta! Como consequência desse episódio, perdi o sono e arranjei um inimigo vizinho de assento.

Peguei aquele folheto de instruções para emergência e resolvi, apenas por precaução, repassar as lições. Afinal, se o avião caísse na água, não era ele quem ia me ajudar a inflar o colete. Nem a localizar o apito. Mas e se caísse na selva e precisássemos localizar alimentos para nossa sobrevivência até que alguém viesse nos resgatar? E ele fosse uma espécie de Survivorman e dominasse todas as técnicas de sobrevivência na selva e, apenas por revanche, me desse uma planta não comestível e envenenada?

Afastei aquele pensamento. Não devia haver selva no caminho entre Singapura e Paris.

Decidi assistir alguma coisa. 3 episódios de Friends! Nada de sono. O francês estava estrebuchado ao meu lado. Eu precisava tomar um remedinho pra dormir. Não ia ter jeito. Tinha muito voo pela frente. Apaguei pela segunda vez. Em Singapura, já passava de 9h. Era hora de despertar! Mas lá fora tava tudo escuro. O francês roncava. Tive uma ligeira vontade de cutucá-lo, mas lembrei que não se deve retribuir o mal com o mal. Recoloquei os fones e aumentei o volume.

Assisti o filme sobre a vida da Elis Regina. Já era hora do café da manhã. Eu ainda não tinha fome. O francês acordou sozinho. Ele deve ser movido a comida de avião! Dessa vez, fingiu que eu nem existia: eu que me virasse com a minha bandeja. Claro. Uma louca ao lado. Mas ele não compreendia os efeitos da fenilefrina.

Andei pelo aeroporto. 4h de espera. Eu tinha os olhos pesados, mas não queria estragar o sono para o próximo voo. Uma longa jornada até o Brasil ainda. E se eu comesse alguma coisinha? Entrei em uma lanchonete e pedi o cardápio. O que escolher? Bom… No Brasil são 3h e pouco da manhã. Podia até ser um jantar mais atrasado. Em Singapura, hora do almoço. Em Paris, hora do petit dejeuner. Fiz a média dos 3 e achei que o correto seria pedir uma salada.

– Não há salada a essa hora, senhora. Não são nem 8 da manhã, me olhou com repúdio o garçom francês.

– Tá, então um pain au chocolat…

Hora do embarque. Mais 11 horas de voo até o Brasil. Uma luta entre o sono e o despertar. Assisti “Le parapluies de Cherbourg”, mas eu gosto mesmo é de Lalaland. Eu sempre assisto Lalaland no avião e choro como se nunca tivesse assistido. O Carlão diz que nada no mundo é mais demorado que Lalaland. É porque ele nunca foi para Singapura. A senhora ao meu lado me dava agonia. Engolia os dedos, bocejava de boca aberta, se esparramava para o meu assento. Tive vontade de lhe dar um cutucão francês. A fenilefrina já não era o bastante para minha alergia. Faltava o xarope. Vinguei-me com uma tosse potente.

Eu era Ulisses de Tróia regressando de uma Odisseia.

Quando, finalmente, cheguei a São Paulo, depois de 30h de viagem, já era quase noite. Minha mãe tinha ido me buscar no aeroporto.

– Vamos jantar uma pizza?

– Só se for um pain au chocolat. Já é hora do café da manhã em Singapura. – contestei com repúdio de quem acaba de chegar a Ítaca depois de passar por mil tormentos.

E ainda tem gente que reclama do horário de verão…

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