Os “Úberes” (como diz o Carlão) em Kuala Lumpur funcionam de maneira curiosa. O preço é muito barato. Muito mais barato mesmo do que no Brasil, que já é relativamente barato. Uma corrida pode chegar a custar menos de R$ 3. O problema é que o número de carros deve ser insuficiente perante a demanda o que, somado ao trânsito parecido ou pior com o de São Paulo, faz com que a demora seja absurda. Logo no primeiro dia, pedi um carro pra um trajeto que levaria cerca de 5 minutos, o preço era alguma coisa perto de R$ 5 reais e fiquei quase 50 minutos esperando. Vocês devem estar se perguntando: e por que raios ela não foi andando? Kuala Lumpur tem questões de segurança e não se recomenda – só por isso.

Mas naquele sábado eu estava exausta – já fazia 3 noites que não dormia direito por causa do jet lag de 10h e eu parecia uma morta viva vagando em círculos depois do jantar no restaurante giratório. Quando o reloginho do Uber começou a marcar que faltavam 15 minutos pra chegar, e de 15 foi pra 20, e aqueles 20 não baixavam nunca, eu resolvi abrir mão do aplicativo e pedir um táxi. Foi assim que conheci o Lim.

– Tava bom o jantar?

– A vista era linda, mas a comida deixou a desejar. Saiu bem caro para o que eu comi. Não curti muito.

– Sim “Atmosphere very expensive”, ele disse com o sotaque malaio bastante marcado.

– Vai ficar aqui até quando?

– Até segunda-feira. Depois vou pra Singapura.

– Ah, então, se você quiser, amanhã eu te levo num restaurante chinês muito bom. Gosta de comida chinesa?

– Adoro! – Já intuí: esse cara deve manjar de comida chinesa. Imaginei-me num daqueles banquetes com arroz frito e toda sorte de camarões empanados, molhos exóticos…

– Quer fazer uns passeios? Te levo ao aquário, ao borboletário, ao palácio do rei, ao templo chinês, à mesquita. E, no final, um belo almoço chinês.

Não sou propriamente uma fã de tours. Sou do tipo que gosta de conhecer a cidade com os pés, em ritmo próprio. Mas, dadas as circunstâncias de segurança do local e depois dele ter me assustado com um “os motoristas de Uber raptam pessoas aqui”, acabei topando, mesmo constatando que se ele próprio quisesse me raptar ninguém ia ficar sabendo.

– Are you married? – me perguntou.

– Não… e você?

– Não. Não tenho dinheiro. Aqui se diz: “no money, no honey”. Aaaaah! Hum!

Ele tinha uma risada engraçada. Saía um riso e depois um “Hum” de confirmação.

Marcamos que ele me buscaria às 10h no hotel.

No dia seguinte, pontualmente, enquanto eu terminava de escovar os dentes e fingia que não tinha ouvido o interfone tocar da primeira vez, ele já tinha ligado pela segunda.

Saí apressada e lá estava ele a postos. Tinha trazido o tio, sei lá se pra ser cicerone também.

Partimos rumo ao tour, com exceção da parte dos bichos, que descartei por julgar desnecessária. Um e outro se revezavam nas explicações, com as quais eu concordava sem refilar, já que se eu entendia 1/3 do que o Lim dizia, a parte do tio eu compreendia apenas 1/10. Fiquei com a suspeita de que talvez não seja bem inglês o que eles falam por lá. Quando eu não entendia pela 5a vez alguma coisa, o tio arremessava para o banco de trás um guia plastificado e apontava uma foto. Eu concordava novamente:

– Ah, sim! Era nisso que eu tinha pensado!

Na metade do passeio o tio foi embora. Assim como não entendi porque ele tinha vindo, tampouco compreendi porque ele tinha saído. Mas fazia tanto calor e eu já tonta com aquele entra e sai do carro, bate foto, veste abaia, tira sapato, só concordei e fiz uma reverência quando ele saltou.

O Lim era incansável. Fotografava, inventava lugares, contava histórias. E eu derretia feito manteiga na chapa no banco de couro.

Passamos duas vezes na frente do borboletário.

– Não vai mesmo querer entrar?

– Não, Lim. Deve ser o máximo, e eu nunca estive em um, mas estou realmente cansada. Só quero trocar dinheiro e comer. Não quero ver mais nada.

– E por que você não casou?

Expliquei a minha trajetória enquanto chegávamos à casa de câmbio e as gotas de água das minhas coxas formavam minúsculas poças nas intersecções do couro do banco de trás.

Depois de muito trânsito e uma manhã inteira dentro daquele táxi, chegamos a uma rua muito esquisita. Eu, semi desfalecida, perguntei:

– Falta muito pra chegar?

Lim, orgulhoso, disse:

– Chegamos. Pode escolher qual você quiser. Eu te espero por 30 minutos e depois vamos ao borboletário.

Ergui o corpo buscando forças. Arregalei os olhos. Olhei para um lado e para o outro. Era um restaurante mais medonho que o outro! Boteco era bistrô perto daquilo!! Aquilo era pegadinha. Lim era o Sérgio Malandro e tinha uma câmera escondida atrás do espelho.

– Lim! Acho que você não entendeu direito. Eu tou pensando em comer em um “bom” restaurante chinês. Tipo “o melhor de Kuala Lumpur”. Um que tenha uma bela vista. Um rooftop. Onde fica alho assim?

Ele torceu o nariz.

– Mas você falou que o de ontem era caro. Esses todos são baratinhos.

– Não, Lim. Isso foi ontem! Eu quero uma vista bonita, um restaurante estrelado! Estou de férias.

Sem paciência e dominada pelo mais primitivo sentimento de fome, peguei o celular, abri o trip advisor e encontrei um a poucos metros dali.

– Lim, vou almoçar no Lemon Garden. Toca para o Shangri La, por favor.

– Naaaao! Tá louca! O Shangri La é um hotel 5 estrelas. O restaurante vai ser caro como o de ontem. Você reclamou que era caro, não vai.

– Lim! Eu preciso!!

Naquele momento, me ocorreu gritar:

– Lim, eu me-re-ço ir ao Lemon Garden agora!! Há quase 3 horas tenho meu labirinto balançando feito xícara maluca dentro do seu carro. Faz 35 graus lá fora e a sensação térmica que meu celular marca é de 42! Eu estou menstruada!! Lim, se eu ficar aqui mais 5 minutos, meu útero vai explodir dentro do seu táxi como uma panela de pressão e você ficará uma semana sem trabalhar encontrando pedaços do meu endométrio pelo chão, pelo tapete e pelos bancos! Preciso de um banheiro!! De ar condicionado! De um buffet com comidas exóticas. Preciso esfregar ostras frescas pelo meu corpo e ter uma bebida gelada no meu meu copo pra refrescar a palma da mão e a goela! E não comer num pé sujo!! E eu nem vou pagar com o seu cartão de crédito, oras!

Mas então lembrei que o Lim não era meu namorado. Eu não precisava fazer aquele esperneio. O Lim entendeu tudo pelo meu olhar.

– Toca para o Shangri La. Eu assumo o prejuízo.

Durante aqueles poucos minutos de trajeto, pelo menos 3 namorados me visitaram em pensamento.

– Vamos ao Shangri La! Mas nunca mais reclame de conta cara na vida!

– Vai você ao Shangri La! Eu fico no pé sujo. Mulher doida, não sabe o que quer.

– Vai comer aqui no pé sujo pra aprender a ser coerente nos seus comentários.

– Sabe, Lim. Vocês homens têm de entender que nem tudo que a gente fala é tão literal. Há exageros literários na nossa fala. Mas há verdades. O segredo é filtrar pra aprender uma convivência pacífica. Nós somos tão polissemânticas.

– Hum. Será que foi por isso que não casei?

Não respondi. Tínhamos chegado ao Shangri La. Paguei a corrida ao Lim.

– Sem borboletário então?

– Sem borboletário. Sem horário mais por hoje. Só quero relaxar, sem hora pra terminar. Amanhã a gente se vê na hora combinada. Obrigada por tudo, Lim.

– No marriage, no problems. Aaaaah! Hum!

O Lim tinha entendido!