– Eu gostaria de registrar um boletim de ocorrência.

– Pois não. Qual a ocorrência?

– Atentado contra os ovolactopescovegetarianos que voam.

– Perdão. Como?

– Sim. Aquelas pessoas que não comem carne, nem frango, nem porco, nem nada que ande ou rasteje ou salte na terra, exceto siri, mas não caranguejo.

A escrevente arregalou os olhos.

– Tá. Esse é um conceito stricto sensu do ovolactopescovegetarianismo adaptado por mim mesma. É que eu sou assim.

– E o que você come?

– Vegetais, ovos, alguns peixes, crustáceos e frutos do mar.

– É cada doido que aparece. – E revirou os olhos. E contra quem é a denúncia?

– Contra as companhias aéreas.

– Que mal lhe fizeram?

– Privação de comida.

– Ué! E não tem comida vegetariana nos voos? Essa denúncia é falsa.

– Aaaah! Mas aí que está. Dizem que comida de avião não é grande coisa. Não tou falando da comida da primeira classe, mas da classe da maioria, dos que de vez em quando pagam o valor mínimo na fatura do cartão de crédito, que parcelam as viagens em 12 vezes, viajam com milhas na promoção e fazem voos malucos com escalas em países exóticos. Aqueles que recebem volta e meia ligação do gerente avisando que a conta está no vermelho e que sentem vontade de responder: “Tou ciente, vai fazer uma doação? Quer criar uma campanha de crowdfunding pras minhas próximas férias?” Mas, mesmo assim, não perdem uma oportunidade de viajar. Afinal, entre viajar com a patela espetada no cóccix do passageiro da frente várias vezes por ano ou viajar uma única vez no vez no ano, deitadinha numa cama da primeira classe, eu ainda prefiro disfarçar os joelhos arroxeados em fartas camadas de hirudoid e continuar peregrinando num ritmo mais intenso.

– Senhora, voltemos à comida…

– Sim, o problema está na comida. Ricos e pobres ainda não se diferenciam quanto a essa necessidade tão primitiva. Acontece que, se a comida já não tem fama de ser grande coisa nos aviões em geral, imagina da cortina da primeira classe pra cá! Agora você nem sonha como é a cortina imaginária dos ovolactopescovegetarianos!

– Há uma cortina?

– Vou explicar. Nos aviões, as pessoas são classificadas em duas categorias: (i) as que comem bichos e tem direito a um belo doce e (ii) as que não comem e vão se danar na sobremesa. De acordo com a minha definição de ovolactopescovegetariana, eu me enquadro mais na segunda do que na primeira, já que o risco da comida com bicho ser frango ou carne é de cerca de 90%.

– E qual o problema com a opção número 2?

– São as pessoas que prepararam os pratos das companhias aéreas! Eu aposto que são carnívoros e maldosos. Eles têm ataques de ira quando recebem uma ordem dizendo:

– Ivy Cassa – refeição vegetariana. Ivy? Cassa? Que nome! Vamos ter que fazer uma comida especial só pra ela? Ah, Josair! Pega o que tiver de pior na cozinha e vamos sacanear essa aí!

– E então o Josair manda preparar um prato que é sempre a mesma coisa: arroz, pimentão, milho e berinjela.

– Argh! Pimentão e berinjela são indigestos pra quem viaja pelo ar. Você come?

– Não! Detesto no ar, na terra e na água. Acabo comendo milho e arroz!

– Meu Deus! E a sobremesa?

– Aí o Josair pega ainda mais pesado! Ao invés de me dar um bolinho de chocolate, ele manda também sempre a mesma tortura: 3 uvas Itália. Verdes de cortar a língua! Pra não dar nem pra reclamar.

– Não é possível. Você tá falando isso porque deve ter viajado em poucas companhias aéreas. O que tem a dizer da AirFrance?

– Veio-me uma lágrima no olho direito.

– Não sei se sou capaz de verbalizar. Ainda dói muito.

– Vamos. O que houve?

– Uma vez, pedi a tal comida vegetariana. E todos os passageiros ganharam como “mimo” da companhia um queijo brie e um brownie.

– E você?

– Arroz, milho, pimentão e berinjela. E 3 uvas azedas.

– Naaaaao! E você não pediu um queijinho? E um brownie?

– Pedi. Chamei a comissária pelo botãozinho, falei da minha tristeza, da vontade que eu tinha de comer um brie com brownie. Brie com brownie. Brownie e brie. Ela me repreendeu: mas a sua refeição é vegetariana!

– Mas não é vegana, argumentei!Arranja um queijinho e um chocolate pra mim, por favor. – implorei. Ela sumiu. Depois de meia hora, voltou.

– Não foi possível. Acabaram os bries e os brownies. Da próxima vez, você presta mais atenção ao que pede. – me repreendeu.

– Claro. Olhei com desejo para o meio brie mordido do francês ao meu lado e tive vontade de morder a outra metade, mas a aeromoça passou e arrancou-lhe a bandeja. Espichei os olhos pelo corredor e vi um desfile de bries e brownies meio mordidos ou nem mordidos dançando cancan, dando seus últimos passos em direção ao lixo, enquanto aquele ameaço de Maria Antonieta dos ares me condenava a passar 11h com arroz, milho e 3 uvas verdes. E sem brioche!

– Dona Ivy, você tá precisando viajar melhor! Já viajou pelas companhias do oriente? Há váaaaarias opções para vegetarianos! Comida vegetariana que nasce debaixo da terra. Que nasce acima da terra. Comida que cai do pé. Comida com ovo e sem ovo. Comida em estilo indiano. É uma loucura!

– E eu não sei? Fui pra Qatar no último carnaval! Fiquei quase uma hora avaliando cada uma das alternativas disponíveis. Mas eu aposto que o Josair também trabalha na Companhia que me levou pra lá. Escolhi a comida que parecia mais apetitosa. A mais exótica! A mais temperada. Estava em êxtase com a minha própria escolha. Quando chegou a marmitinha prateada e abri: Arroz. Berinjela. Milho. Pimentão. E limão espremido.

– Limão espremido?

– Sim! Era o “tempero do arroz”.

– E você comeu?

– Não. Chamei a aeromoça, lembrei pra ela quanto eu tinha pago por aquela passagem (mesmo na classe econômica) e disse que o nome daquilo que eles tinham me servido era piada, mas que eu não estava no circo e nem estava achando graça nenhuma. E que ou eles me arranjavam comida que não fosse piada, ou eu ia ficar sem comer e, se estrebuchasse ao longo do voo, avisaria todo mundo que a culpa era do Josair.

– Depois de 15 minutos apareceu um ravioli de queijo e um flan!

– Ufa! Bem, mas e a reclamação de hoje, é contra qual companhia aérea?

– Na verdade, é contra o próprio Josair! Ele permanece me seguindo! Dessa vez, ele foi longe demais. Descobriu que eu estava indo viajar pra Kuala Lumpur e me mandou servir a comida do Scooby Doo.

– Scooby Doo?

– É, seu cachorro. Veja só.

Abri a marmitinha. A escrivã tapou os olhos. Tapou o nariz. Senhora, as refeições ovolactopescovegetarianas são caso de polícia.

(Ivy Cassa)