Eram 3h. Abri a porta e tirei os sapatos de verniz ainda respingados daquela chuva toda. Deixei a pequena mala de cabine que estava molhada num cantinho da sala dos livros, tirei o trench coat e estendi no encosto da cadeira da sala de jantar. Caminhei com minhas meias cor de pó de arroz pelo corredor da sala de TV, quando tive aquela sensação de estar sendo espiada.

– Bu!

– Aaaaaaaaaah!

– Huhuhuhuhu!

– Gru! Que você tá fazendo aqui?

– Vim fazer uma visita técnica. Já faz 2 semanas que você não posta nada no seu blog e eu fiquei preocupad… quer dizer… Achei muito suspeito! De onde você está vindo?

– Do aniversário do pai Geraldo.

– De mala? Que festa é essa? Uma rave? Há quantos dias está lá?

– Não! É porque eu estava em Florianópolis em um Congresso e de lá fui direto pra festa porque… não importa! Como conseguiu entrar aqui? Isso é invasão de privacidade! Vou chamar o seu Genivaldo!

– Calma. – disse com um sorriso de labrador. Vim em paz. Eu tinha uma outra missão aqui no seu prédio. Você até pode imaginar em qual apartamento… – levantou uma sobrancelha. E reparei que podia pular com as minhas botas super saltitantes pela porta da varanda. Mas eu deixei as botas lá fora! Não estou sujando nada! E mostrou os pés descalçados, em meias listradas.

– Gru, tem um furo na sua meia esquerda!

– Ops! Puxou o furo para debaixo do pé, escondendo o dedão por cima do buraco.

– Preciso tomar banho e dormir. Não costumo ter invasores na minha casa, e muito menos a essa hora da noite. Você pode sair, por favor? Por onde entrou, pela porta, por onde quer que seja, mas me deixe sozinha.

– Ah, não! Vamos papear!

– Gru!! São 3h! Faz quase 20h que estou acordada. Olha o ta-ma-nho das minhas olheiras! Eu só quero papear com a fronha do meu travesseiro. E talvez ainda babe nela.

– Não seja assim. Vamos tomar aquele chazinho que você ficou me devendo outro dia!

– Você é maluco, não?

– Olha quem fala! Meia xícara de chá, conversamos quinze minutinhos e eu vou embora.

– Jura de mindinho?

– Juro.

– Então vai preparando as coisas enquanto eu tomo banho.

Quando saí do banheiro, encontrei Gru sentado calmamente no sofá cinza, recostado no Lucas e no Bruno, lendo umas folhas.

– Belo pijama! Gosto muito da Vila Sésamo.

– E aí, Gru? Cadê o chá?

– Eu estava te esperando.

– Mas não te pedi pra adiantar?

– Ué. Mas essa é uma função de me-ni-na! Quem faz o chá em casa é a minha mãe.

– Mas eu não sou a sua mãe! Gru, eu tou cansada. Vem aqui aprender. Gavetas de chás! Chaleira elétrica! Filtro! Água! Canecas! Infusores! Quer chá de quê?

Ele revirou as caixas e latas.

– Winterschokolade?

– É um chá alemão que meu primo trouxe de Aachen.

– E é feito de quê?

– Não sei. Mas tem cheiro de canela e chocolate. Vamos nesse, você vai gostar. E ligamos a chaleira.

– Mas então me conte… o que você foi fazer em Florianópolis?

– Fui dar uma palestra sobre o papel da mulher.

– Ué. Virou feminista agora?

– Não era bem esse o tom… fui falar sobre as diferenças entre os homens e as mulheres no mercado de trabalho e a importância de corrigirmos “distorções”.

– Ah, que bobagem! Isso não existe. Veja a Dona Interpol! Ela é minha chefe.

– É uma mulher inteligente e certamente conquistou seu espaço por meio do seu trabalho e competência. Mas nem todas têm as mesmas oportunidades. O exemplo da Dona Interpol ainda é minoria. Sabia que a chance de um homem se tornar executivo é três vezes e meia maior que a de uma mulher no mercado segurador?

– Não. Chá bom! Vou pedir pra Dona Interpol trazer pra mim da sua próxima viagem. Sabe quanto ela ganha? – olhou para os lados pra se assegurar que não teria ninguém ouvindo. Umas 200 vezes o valor do meu salário!

– Mas a média brasileira do salário da mulher é de cerca de 70% o salário do homem, Gru.

– Hum, não tinha ideia. Mas mesmo assim é tolice. Você não precisava ter ido até Florianópolis pra falar sobre isso. Aposto que foi pra lá pra ver se arranjava um marido! Colocou um decote, uma saia curta. Confessa? Jogou esses cabelos loooooiros… E deu uma piscadinha.

– Gru, olha a foto da roupa que usei na apresentação. Não tem nada aparecendo. E outra: você com esse discurso tá parecendo os mais antigos, que achavam que marido é troféu pra mulher exibir. Veja lá o que é conquista: e mostrei o tinha recebido da organização do evento.

– Humpf. Você está muito inflamada. O mundo é bom. Daqui a 10 anos tudo isso estará resolvido.

– Tomara, Gru. Mas a perspectiva não é assim tão animadora. O Relatório de Desigualdade Global de Gênero de 2016, que foi apresentado no Fórum Econômico Mundial, indicou que ainda pode levar 170 anos para ocorrer a paridade de remuneração entre os gêneros.

– Balela!! As mulheres é que não querem estudar. Vão pra academia, pro salão de beleza, ficam de papo com as amigas! Por isso não ganham dinheiro.

– Gru! Olha aqui esse estudo! – abri a pasta que estava dentro da mala. Mesmo com a formação acadêmica superior, existe um achatamento salarial. Há muitos fatores envolvidos. A gente não tem tempo pra conversar sobre tudo agora, quem sabe outro dia. Mas, por exemplo, um deles é a dupla jornada: quem cuida da casa, dos filhos, dos pais, na maioria dos casos? Você é casado?

– Não… eu estou… “tentando” ser. Mas eu ajudo a minha mãe.

– É mesmo? “Ajuda”? E o que você faz?

– Lavo e seco a louça do almoço. Todo domingo.

Revirei os olhos.

– Você sabia que as mulheres italianas gastam quase 22 horas a mais que os seus parceiros nos afazeres domésticos? E que nos países nórdicos essa diferença cai pra 5 horas?

– Ai, aposto que tudo isso pra você dizer que aquele nóoooordico e lindo e alto do Rodrigo Hilbert faz crochê, cozinha, faz casinha pras crianças, blá-blá-blá.

– Por exemplo!

– Você acha que eu também posso me tornar um “homão da porra”? Será que eu consigo arrumar uma namorada como a Fernanda Lima? – ele esfregou as mãos e arregalou os olhos.

– Ai, Gru… a gente precisava conversar um tanto. Mas eu estou mesmo exausta. Faz assim: vou te emprestar uns livros pra você se situar, que acha? Tem o “Um teto todo seu”, da Virgínia Woolf, “O segundo sexo”, da Simone de Beauvoir, “Para educar crianças feministas”, da Chimamanda Ngozi Adichie…

– Posso começar por esse? – mostrou as folhas que estava lendo há pouco.

– Gruuuuu!! O que você está fazendo com o manuscrito do MEU livro?

– Averiguações!! Franziu as sobrancelhas dando um ar de mau.

– Dá aqui! Isso ainda não está pronto!

Avancei pra cima dele. Caiu a caneca de porquinho e derramou o resto do chá no chão. Gru escorregou com as meias listradas e o dedão do pé reapareceu. Puxei o calhamaço com força, mas ele se partiu em dois, ficando metade nas minhas mãos. Ele saiu correndo pela sala com parte das folhas soltas penduradas. Num pinote, chegou até a varanda e segurou a porta com um cotovelo, me impedindo de chegar até o lado de fora. Gritei, esmurrei o vidro enquanto ele calçava suas botas super saltitantes. De súbito, ele sumiu na escuridão.

– Gru! Gru! Volta! Traz meu manuscrito aqui!! Isso precisa ser finalizado, senão as conclusões que você vai tirar daí podem ser equivocadas!!!

– Huhuhuhuhuhuhu!!!!

(Ivy Cassa)

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