Quando descobri que existia a mínima chance da gente se esbarrar ali… Logo nós! Por que nós, entre tanto mais de meia dúzia de milhão de gente nesse mundo, nós dois sentadinhos lá, de repente, como se nada fosse? Aquilo era caso pra Rivotril, não era? Doutor, hoje eu posso? Um? Não! Eu tinha pensado em seis! Um pra hora de sair da cama e não pensar que era hoje – justo hoje! – que eu ia ter de fingir que não o conhecia desde aquele dia em que a gente fingiu que ia fingir pra vida inteira que não se conhecia mais. Outro pra hora de ligar a playlist do iPhone e não ficar muito emocionada ouvindo aquelas músicas que escolhi especialmente pra chorar pensando nele enquanto tomava banho – o problema todo é aquela música da Ana Carolina, Doutor! Aquela do vozeirão. Ela tem uma música que foi feita pra mim: já ouviu a letra de “Aqui”? Larga o que o senhor tá fazendo e ouve, então! Essa coisa de represa pronta pra jorrar. Sou eu! O terceiro comprimido é pra me arrumar sem pânico – já pensou se eu, uma pessoa tão pouco inqueita, fico de repente agitada e passo o lápis como se fosse uma máquina de imprimir eletrocardiograma? Ia ficar parecendo que estou indo para a festa adiantada de Halloween! Ou se o batom vermelho sai do contorno dos lábios e eu chego com cara de palhaça? Um quarto para esperar o Uber. Doutor, você já viu como esses motoristas se perdem? Preciso te contar! Tem um bug no waze que volta e meia manda os carros virarem na Pensilvânia ao invés de seguirem reto na Nova York! Sabia que outro dia eu quase perdi um voo por causa disso? É, o motorista jogava sudoku (Su-do-ku!) no quarteirão debaixo, enquanto eu fabricava um suco de mioglobina com troponina no meu próprio sangue! E o quinto para aguentar o trânsito. Doutor, você mora em São Paulo, não preciso explicar. Pra que o sexto? Doutor!! Até cruzar a cidade inteira, nesse ritmo de retorno de Ubatuba em réveillon, toooodos os outros 5 comprimidos já terão deixado de fazer efeito. Doutor, você não tava acompanhando o meu raciocínio! Tá. Entendi. UM Rivotril, e só se eu estiver quase morrendo… E chá de camomila. Anotei. Doutor, no ano passado eu fui para o Peru e comprei chá de coca. Será que ele dá uma “bombadinha” na camomila? Ah. Tá. Efeito nenhum. Claro. Só serve pra aliviar os efeitos da altitude. Foi exatamente o que pensei.

– Tati! Vou tomar o tal chá! Estou me sentindo na altitude. Quer dizer… tou me sentindo na beira do abismo, né! Se ele vier falar comigo? Eu vou… acho que não vou! Não terei voz! Vou sair correndo, lógico. Mas me faltarão as pernas. Vou ficar ali, feito… eu nem sei feito o quê! Meu cérebro não tá funcionando direito. O que não tem voz, nem pernas nem cérebro? Uma goiaba! Isso, ficarei ali, feito uma goiaba! Mas uma goiaba de vestido azul! E com cabelos cacheados, feito a Gisele Bundchen. Não muito, pra eu não parecer a Maisa! Um sapato bem alto, pra manter distância! Mas goiabas não usam Luís XV… Tampouco batom vermelho…

Cheguei lá e escondi-me dentro de um vaso. De violetas. Apequenei-me nas minhas náuseas entre aquelas folhinhas de camurça e esperei cinco milhões de pessoas passarem. Cinco milhões, novecentas e noventa e nove mil e noventa e nove. Estavam faltando uns tantos chineses, eu tinha contado! Entraram 3 chineses e 2 indianos. Ufa! Todos estavam lá dentro, mas ele não chegou.

Saí dali do vaso meio estabanada. Ploft! Me esborrachei naquele carpete pisado de gente do mundo todo. Eu também estava pisoteada. Encaixotei-me. Eu tinha virado uma goiabada. Era a verdadeira Julieta sem Romeu.

(Ivy Cassa)

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