Quando eu tinha 11 anos, namorava o Paulinho. Ele tinha 12 e aquilo me admirava: imagina quanta experiência ele não havia acumulado naqueles 12 meses de vida que separavam nossos nascimentos?! Bom, na verdade, eu achava que namorava o Paulinho, porque uma vez demos um beijinho na rua Mesquita e, depois disso, foi só desilusão. O Paulinho, afinal, não dava conta de simples iniciativas perfeitamente expectáveis para um homem de 12 anos, como organizar piqueniques vitorianos no parque da Aclimação, deixar ursos com corações na barriga à minha espera na carteira da escola e escrever poemas (ainda que com rimas pobres) na minha agenda da Minnie. Não consegui lidar com aquilo. O máximo que deu pra extrair dele foi um sorvete na Gela Guela num sábado à tarde.

Os homens de verdade estavam no colegial, constatei. Os pêlos eram o prenúncio da maturidade, virilidade e sabedoria. Não devia haver uma única pergunta que um rapaz de seus 16 anos não me fosse capaz de responder. “Gabriel, que curso devo prestar? Tou na dúvida entre Direito e Engenharia. Se tiver de escolher entre assumir uma embaixada na Namíbia ou fazer um estágio numa plataforma de petróleo, para onde vou? Você acha que devo votar aos 16? Quais são exatamente as diferenças ideológicas entre a plataforma política do Lula e do FHC?” Mas o Gabriel só entendia daqueles hormônios que lhe cresciam e se manifestavam sobretudo pelo meio das suas pernas! Sorte a minha que logo em seguida comecei a namorar o Sérgio, que já tinha 23! Era formado em engenharia da computação e tinha uma carreira promissora, porque trabalhava como Analista Júnior, ganhava dois mil reais e sabia falar alemão. Tinha carteira de motorista e um Escort cor de vinho doado pelos pais. “Sérgio, a gente precisa casar! Marcar buffet e degustar salgadinhos – ou você vai querer sua mãe reclamando que passou o dia seguinte arrotando croquetinhos de caldo Knorr? O meu vestido eu vou encomendar pra Madame Juliette. Pra lua de mel não me ocorre nada que não seja o Alasca… Você gosta de girafinhas pro quarto dos gêmeos?” “Sérgio, você é muito banana mesmo, não? Não consegue organizar nem um fim de semana no Playcenter! Cadê os passaportes da alegria? Acha que virão até nós caminhando sozinhos, de tanta felicidade?”

Foi bom porque logo depois dele apareceu o Daniel Clark. 35 anos, recém chegado de Londres. Tinha ido fazer um LLM e repetia aquilo com orgulho, marcando as sílabas, batendo com força a língua no lábio superior: “el el em”. Assistia Simpsons em inglês e sem legendas – um gênio! Daniel morou na minha casa por um mês, enquanto procurava alguma coisa à altura da sua inteligência pra fazer no Brasil. Mas eu precisei sugerir que ele fosse viver em outro lugar. Não lhe ensinaram no “el el em” a tirar o lixo da cozinha, estender a toalha de banho molhada, nem a abrir uma garrafa de vinho. Além disso, ele usava meu cartão de crédito e comia todo o meu estoque de línguas de gato.

Depois dele, conheci o Dr. Gilberto Leopoldo Magalhães de Alcântara Bragança. Ele era um dos mais renomados e brilhantes cirurgiões dentistas do país. Um homem com H maiúsculo! 52 anos e um currículo lattes de 14 páginas. Fui fazer um procedimento simples que acabamos, por afinidade ou conveniência, estendendo por dez sessões. “Na próxima, se você quiser, saímos daqui e vamos beber uma champanhe no bistrô do Erick Jacquin” – Ele propôs logo na primeira vez. Ah! Nada como um relacionamento com um homem mais velho e definitivamente maduro! Durante 8 sessões fiquei esperando o tão anunciado encontro: “E aí, é hoje que vamos ao bistrô do Erick Jacquin?” Mas cada dia tinha uma coincidência: dor de cabeça, cansaço, gripe… Da nona vez, quando eu já nem botava mais fé e meus dentes brilhavam mais que vaga lumes de um milhão de watts em terreno baldio, Dr. Gilberto me abordou na saída da consulta. Infelizmente, não pude conhecer o tal bistrô, porque tinha passado tanto tempo que eu já estava de rolo com o Rafa, que me esperava na porta do consultório. O Rafa sim era um cara bacana, 40 e tantos anos, mestre e doutor em Direito. E ainda era poeta! Sabia tudo da vida e de mim. Tinha tudo pra dar certo! Só que ele era casado e indeciso: queria que a gente tivesse um casinho literário – ele iria à minha casa uma vez por semana e nós trocaríamos poemas. Achei aquilo meio tresloucado e Augusto dos Anjos demais e desabafei com o Garry, meu amigo recém divorciado e ligeiramente sensível. “Esse mundo não é pra mim! Os homens não sabem o que querem.” Garry me ouviu pacientemente e confessou: “Eu achei que agora, finalmente, tinha chegado a nossa vez de sermos felizes juntos.”

23 anos de aventuras amorosas fracassadas passaram pela minha cabeça como em um desfile de escola de samba. Então quer dizer que estava tudo ali? Garry e eu?

No primeiro dia depois daquela conversa, ele me mandou de presente um urso com coração na barriga – “Pra te aconchegar nas noites solitárias.” No segundo, um livro “Para entender a política brasileira” – “Não sei te explicar os homens, quem sabe não te ajude começando pela política?” No terceiro, uma caixa de trufas de língua de gato: “Pra tornar tua noite doce como os teus lábios devem ser”. No quarto, enviou um vale do Bistrô do Erick Jacquin “Enquanto eu não posso estar aí, é justo que tu tenhas prazer sem mim. Jante pensando em nós.” No quinto dia, veio um poema com rimas raras escrito por ele – foi competente a ponto de rimar um “xingo-a” com a minha “língua”!

No sexto dia, ele em pessoa chegou a São Paulo. Saímos para beber e ver no que ia dar – não era preciso ser muito imaginativo pra adivinhar o resto da noite. Só que depois de três horas e duas caipirinhas, cheguei à conclusão de que o Garry daquela mesa não era o mesmo que tinha me abordado nos últimos dias. Não era o Garry dos presentes nem o das conversas. Não era sequer o meu amigo. “Ivy, eu sou muito tímido e minha trajetória impressiona”. Após ouvir uma ladainha como se fosse a Dra. Linda Freeman, Garry arrematou: “Preciso te contar uma coisa: estou apaixonado por outra pessoa e só você seria capaz de me entender”.

“Não, Garry. Não sou. Sou imatura como um abacate verde.”

“Alô, Paulinho? Sumiiiido! É a Ivy. Lembra? Tá a fim de tomar um sorvete na Gela Guela? Pra gente relembrar os velhos tempos…”

(Ivy Cassa)

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